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Busto de uma Mulher Africana— Charles Henri Joseph Cordier, 1851 — Francês, século XIX

“…É tempo de caminhar em fingido silêncio, e buscar o momento certo do grito…”

“…É tempo de caminhar em fingido silêncio, e buscar o momento certo do grito…”

Na cultura africana e na maioria das sabedorias ancestrais, quando um (a) mais velho (a) fala todos param para ouvir e o que ele ou ela demanda é lei. Nossa Griot Conceição Evaristo profetizou em seu texto mais recente que é tempo de nos aquilombar. Engraçado que escrevi a palavra aquilombar e o Word sublinhou como se fora uma expressão errada, desconhecida. Até onde vão as estruturas racistas que configuram este país? Mas, esse é outro papo!

Vi muita gente compartilhando o poema primoroso de Dona Conceição e com toda razão! É um texto simples e, por isso mesmo riquíssimo, fruto de um casamento muito inteligente das palavras e que se encarrega de mandar um recado específico; unam-se aos seus, mas, não a qualquer um. Sejam estratégicos (as) e cuidadosos (as) ao escolherem seus|suas pariceiros (as). Não saiam por aí bradando aos quatro ventos o que pretendem. Sejam cautelosos (as). Aquilombem-se!

Fiquei pensando se a gente tem a exata ideia do que significa esse termo. Questionei-me se no imaginário da maioria essa palavra traria a ideia de que Quilombo é em geral uma concentração em território demarcado de negros (as) escravizados (as) e fugitivos (as) e seus descendentes, localizados em zonas cafeeiras, canavieiras e mineradoras existentes desde o século 16 ao início do século 20 no Brasil. A maior das referências baseada nesse escopo seria Palmares. Nada disso é gratuito, se pensarmos nas trajetórias intelectuais daqueles que se encarregaram de conceituar a ideia do que seria um Quilombo, e se atrelarmos também ao reforço midiático, que trata do tema com agressivo teor de exotização. Alguma coisa lhes soa familiar irmãos e irmãs? Carnaval, favela, a hipersexualização do homem negro e da mulher negra…

Dona Conceição Evaristo é nossa ancestral, da ordem das mais importantes, e temos a obrigação como descendentes de sua história e dos (as) que vieram antes de levar em consideração suas palavras. Mas, antes, precisamos saber se estamos preparados (as) para dar este passo. Sabemos, na real, o que significa aquilombar-se?

Para a historiadora Beatriz Nascimento, intelectual, quilombola, uma das primeiras pesquisadoras negras a se debruçar sobre o estudo dos quilombos brasileiros, e também de acordo com a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), trata-se de uma forma de resistência criada e mantida pelos (as) negros (as) para manutenção da sua herança histórica e cultural, ou seja, pela liberdade. Os quilombos brasileiros são os pais dos conceitos de resistência, de organização e manutenção da identidade negra. Daí que, pensar nessas organizações apenas como espaços demarcados onde vivem sujeitos (as) de uma mesma origem étnica é, além de reducionista, leviano. A ABA diz que “Quilombo tem novos significados na literatura especializada, também para grupos, indivíduos e organizações. Ainda que tenha conteúdo histórico, vem sendo ressemantizado para designar a situação presente dos segmentos negros em regiões e contextos do Brasil. Quilombo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de população estritamente homogênea. Nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados. Sobretudo consistem em grupos que desenvolveram práticas cotidianas de resistência na manutenção e na reprodução de modos de vida característicos e na consolidação de território próprio. A identidade desses grupos não se define por tamanho nem número de membros, mas por experiência vivida e versões compartilhadas de sua trajetória comum e da continuidade como grupo. Consti­tuem grupos étnicos conceituados pela antropologia como tipo organizacional que confere pertencimento por normas e meios de afiliação ou exclusão”.

Minha intenção aqui não é, de maneira alguma, apresentar tese sobre os quilombos brasileiros ou traçar paralelos entre o que foram na época escravagista e o que são na contemporaneidade. O que busco é, humildemente, provocar reflexão sobre como podemos nos fortalecer, organizar e avançar, unidos (as), a partir deste chamado de Evaristo. O mais importante é que pensemos em como estabelecer nossas redes pretos (as) de apoio e de construção. Quem são aqueles (as) aos quais podemos nos aliar para pensar e implantar ideias, projetos e ações que reverberem positivamente ao longo desta nova caminhada que se estende aos nossos pés, chamada 2020. Como angariar aliados (as), fazer com que sejamos ouvidos (as), atuar para que nossas ideias ressoem no espaço do (a) opressor (a) sem que sequer desconfiem de que estamos infiltrados (as)?

Nos aquilombamos e construímos quilombos há séculos! Ou não seria um ato quilombola desenhar mapas de fugas nas tranças das mulheres negras? Quem vocês acham que criou essa ideia de sincretismo — coma intenção de continuar cultuando as divindades africanas — na qual embarcaram os (as) brancos (as) à época da escravidão? São tantas as estratégias de resistência e sobrevivência…

Como diz Jurema Werneck: “Nossos passos vêm de longe”, mas, talvez tenhamos deixado um pouco de lado o exercício de nos aquilombar. Recuperemos! É chegada a hora! Aquilombar é, antes de mais nada, ocupar!

“É tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros, salve 2020, a mística quilombola persiste afirmando: ‘a liberdade é uma luta constante”. (Conceição Evaristo)

NOTA: Beatriz do Nascimento (1942–1995) foi uma mulher negra transatlântica, historiadora, teórica, escritora, militante do movimento negro brasileiro, e principalmente, quilombola. Certa vez, ela declarou: “Eu queria um Quilombo não necessariamente aqui. Um quilombo onde eu sei, algum antepassado meu viveu.”

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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