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A Afroconveniência é a nova moda! Todo mundo querendo morder um pouco de nossa negritude

Sofistica-se a máquina racista demandando de nós, combatentes do front, cautela, inteligência, estratégia silenciosa e autoamor.

Navegando pelo Instagram me deparo com o termo “afroconveniência eleitoral”. Se não me engano, era o assunto do mais recente artigo de Luana Génot para o caderno Ela do jornal O Globo, no qual a diretora executiva do ID_BR (Instituto Identidades do Brasil) discutia o oportunismo descarado de candidatos(as) quando resolvem declarar que têm avós negros para terem mais chances nas eleições, visto que há, de fato, um pleito por equilíbrio no quantitativo de candidaturas brancas e negras. Parei para pensar a respeito e me vieram à mente tantas questões: a capacidade de sofisticação e atualização do sistema racista, a falta de moral das pessoas que, ignorando os prejuízos causados a pretos(as) e pardos(as) pelas desigualdades raciais, se aproveitam do DNA miscigenado de nossa sociedade para se apropriarem de uma etnia única e exclusivamente por conveniência e benefício próprio. Luana se dedicou a falar da afroconveniência eleitoral, mas eu digo a vocês que o termo é excelente, pois se adequa a diversos segmentos da sociedade.

Imaginem, por exemplo, no ramo do audiovisual, ver diretores(as), escritores(as), roteiristas brancos(as) renomados lançando conteúdos de cunho racial, LGBTQI+, de combate à gordofobia e tantas outras pautas que não necessariamente — muitas vezes nem de longe — atravessam suas vivências para não terem que disputar seus postos de privilégio com pessoas que carregam consigo, na pele, os prejuízos do preconceito e que são tão capazes quanto eles(as). É assim o esquema ó: coloca-se um “boi de piranha” para ser o que eles chamam de consultor em assuntos que jamais dominariam ou dominarão e, a partir daí, seguem lançando nas prateleiras produtos que não refletem sua realidade, ganham prêmios, reconhecimento e prestígio por mais uma vez terem usurpado dos underdogs (azarões), desprivilegiados(as), renegados(as) o direito e a possibilidade de disputa e convivência justa nestes espaços de poder.

As filosofias ancestrais africanas nos mostram que nada anda solto no mundo. Alinhado a esses movimentos estão as grandes empresas que, antenadas às tendências, respondem pela urgência da inclusão da diversidade em seus times, ao mesmo tempo em que desconsideram a necessidade de transformar suas políticas ideológicas, assim como a mentalidade dos(as) que ocupam os postos de comando, ou seja, que respondem pela constelação hierárquica patrimonial. O case Magazine Luiza está fresquinho em nossas memórias. Uma contratação nunca antes vista na história desse país de trainees exclusivamente pretos. Fico imaginando essa horda de jovens pretos(as) chegando na empresa. Não há outra pergunta na minha mente senão: quem vai cuidar da carreira deles(as)? Quais serão as referências negras deles(as) nos postos hierárquicos e de comando da Magazine Luiza? Quem será esse profissional que, antevendo as dificuldades no percurso de cada um desses estudantes — porque como negro(a) já passou por isso também — , poderá pavimentar uma trajetória mais justa para esses recém-chegados? Desde que essa divulgação assolou os perfis de quase todo mundo que eu sigo eu não parei de me perguntar: quais são os(as) diretores(as), conselheiros(as), executivos(as) negros(as) da Magazine Luiza? Confesso que me senti como um lobo solitário uivando à noite na floresta.

Desconfiada que sou e descrente de que a mudança virá dessa maneira pacífica e com base em um “despertar para a consciência” da elite branca racista — pois, a nossa conversa agora virou disputa dos mesmos privilégios — reflito sobre quais são as formas de rever estratégias, repensar os discursos e conclamar os meus para esse recalcular de rota, já que movimentos como o da Magazine Luiza, Natura, O Boticário e até a própria Farm — que resolveu estampar modelos gordas em seus catálogos de venda (uma gorda só, que fique claro!) — são comemorados pela maioria das pessoas. Será que nossa arma de combate agora deve ser mesmo o enfrentamento? Se sim, de que tipo de enfrentamento falamos? Será que martelar os mesmos termos usados pela máquina racista (diversidade, representatividade, igualdade de gênero etc) é a melhor maneira de propor questionamentos mais profundos e abrir novas frentes para mudanças REAIS e CONCRETAS?

O escritor Roger Cipó (@rogercipo), figura pública e agente de transformação a quem eu presto muita atenção, recentemente publicou um texto em suas redes no qual alerta para a necessidade de recalcular estratégias e na ocasião escolheu falar sobre amores interraciais e o termo palmitagem. Em poucas e minhas palavras ele dizia que de um tempo para cá não mais se atentava a falar dos relacionamentos entre brancos(as) e negros(as) e que também deixou de usar o termo palmitagem em suas críticas. Um trecho de sua fala martela em minha mente: “… Acontece que, após anos discutindo, pesquisando e até tretando sobre isso, entendi que me faz mais sentido esforçar para diminuir a distância entre pessoas pretas, para além das relações afetivas-sexuais. Me interessa mais compreender os impactos do racismo na construção da nossa subjetividade e como essa forma de amor tem sido destrutiva para pessoas negras de diferentes identidades”.

É isso, sabe? O que me interessa mais nesse momento de pandemia em que o prefeito do Rio acaba de liberar as rodas de samba, mas, orientando que as pessoas mantenham o distanciamento social e usem máscara. Que tipo de ser pensante recomendaria isso para uma RODA DE SAMBA? Como se comunga roda de samba e distanciamento social? Ora, um ser que justamente por não ter qualquer comprometimento com a vivência saudável da população do Rio de Janeiro e manutenção de sua cultura é capaz de decretar esse tipo de coisa. Se a vivência for a da população negra, aí mesmo que o comprometimento é zero. Claro que não se desconsidera aqui a urgência da classe artística negra — fundamentalmente os(as) fazedores(as) de rodas de samba, hoje desempregados e totalmente desassistidos — , mas garanto a vocês que abrir o pasto para a “boiada”, ou seja, nós, invadir os espaços de roda de samba em pleno Covid-19 não é nem aqui e nem na China política pública responsável.

Diante dessas porradas sequenciais eu penso em saídas e novas estratégias, recorro ao autoconhecimento e à troca com os meus e minhas os(as) quais sigo, admiro, ouço e reverencio. Clamo pelo autocuidado, ferramentas ancestrais potentíssimas que nos retroalimentam e fortalecem para as batalhas que ainda estão por vir. Pois de uma coisa estejam certos meus irmãos e minhas irmãs: a máquina racista está se sofisticando e saiba ela que nós também!

Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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