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A Cor da Faxina

In Memorian — Mãe Beata de Iemanjá… “Sou de uma Religião em que o Tempo é Ancestralidade. A fruta só dá no seu Tempo, a folha só cai na hora certa”.

A Ancestralidade marca nossa identidade. Portanto, agradeço a todas as Mulheres Negras que nos antecederam nessa luta.

Vou abrir esse texto com um poema, agora dei pra escrever poemas…

Dizem que não brotam Flores no asfalto… asfalto árido…quente…

Eu digo que sim… Ontem, brotou uma Flor no meio da rua…

Brotamos… Nascemos .. .Renascemos…Resistimos todos os dias no asfalto da Vida…

E ainda dizem que Flores não nascem no asfalto…

Vilma Piedade

E pra falar que a Nossa História Importa, ou pelo menos, deveria , continuo insistindo:

… “Dororidade¹ … o que é? Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos…”

Nossa História Importa

Falar em Mulheres Negras na Literatura Brasileira , no Feminismo Brasileiro , é falar de resistência, das Flores que nascem e renascem no cotidiano de enfrentamento ao Racismo.

E , nos faz refletir que “é preciso estilhaçar a máscara do SILÊNCIO…” segundo a escritora Conceição Evaristo. No meu Livro Conceito Dororidade, pontuo:

“…E estou aqui inaugurando um conceito — Dororidade — e convidando vocês para participar dessa história comigo.

Mas, qual a finalidade, no nosso caso, de ter um novo conceito — Dororidade? Será que como Mulheres Feministas, Sororidade não nos basta? E Sororidade não é o conceito que ancora o Feminismo.?…” (1)

“… O lugar de fala é um lugar de pertencimento. Falo desse lugar como Mulher Preta. Feminista Antirracista. Mas também falo de um lugar das minhas Ancestrais, marcado pela ausência histórica. Lugar- ausência marcado pelo Racismo.

E, é desse lugar digo que Não. Sororidade une, irmana, mas Não basta , para Nós, Mulheres, Jovens Pretas…” (2)

Dororidade, pra Nós, mulheres Negras, é o que parece poder nos impulsionar numa construção coletiva Interseccional do Feminismo…numa perspectiva Dialógica. Um Feminismo que bata tambor.

Mas, vamos ao texto com suas questões…

Ou quando se saber quem é, não importa pro Racismo. Precisamos dizer a todo momento Quem Somos.

A historiadora Luana Tolentino teve que responder quem era…o que fazia … a Branquitude ainda não esqueceu dos grilhões com que nos acorrentaram. E, temos que dizer, gritar… Ei gente, faz tempo que arrebentamos as correntes… apesar da grande maioria do nosso Povo Preto ainda continuar acorrentado na imobilidade da escala social.

Mas, a luta contra o Racismo continua. O Racismo não nos dá tréguas. Não vamos dar tréguas pro Racismo. Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

A pergunta feita à Historiadora Luana Tolentino, em 2017, por uma legítima representante da Branquitude.”… Moça, você faz Faxina “ causou, na época, indignação nas redes sociais. E a resposta de Luana à referida senhora “…Não, eu faço Mestrado. Sou Professora …” sinaliza que o Racismo avança a todo vapor.

Luana Tolentino, que recebeu a Medalha da Inconfidência de 2016, ao ser entrevistada pela Revista Fórum, relatou as experiências que passou ao longo de sua vida por conta do Racismo Institucional. Vejamos:

“… O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista.

Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura…”

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel…”

in Revista Fórum- 18/07/2017

Lélia Gonzalez , diante dessa persistência do Racismo no nosso País que afirma que não é Racista ( sic) diria “…Cumé qui é? …” É aí que o bicho pega. E quando pega, apesar da Branquitude insistir em não reconhecer nossos Valores Civilizatórios, recorremos ao nosso princípio filosófico — UBUNTU- porque a gente produziu, produz conhecimento e temos Filosofia.

Só para lembrar, somos o País com maior População Preta fora de África. E, no chamado Julho das Pretas (desde 1992, celebra-se em 25 de julho o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, um marco internacional da luta e da resistência das Mulheres Negras), trouxe a opressão racista sofrida pela Historiadora Preta Luana Tolentino pra tentar discutir o Feminismo como Escuta e Diálogo…

Por que é apostando no Diálogo, na Escuta, no Feminismo Dialógico Interseccional que me coloco como Mulher Preta no Feminismo. Minha escrita, minha escuta, minha fala, traz a marca das aberrações que o Racismo nos imprime e nos empurra goela abaixo no cotidiano.

Quando penso em Diálogo, na construção de um Feminismo Inclusivo, preciso recuperar nosso princípio filosófico. UBUNTU. Eu contenho o outro. Somos Um. Somos Uma. O famoso… pegou prá uma… pegou geral.

E aí? Será que pode haver Diálogo Feminista e uma Democracia se ainda vivemos ancorados no Mito da Democracia Racial. Ou pode. Acredito que sim. È possível.

Então vamos ter que dialogar com essa ausência. Dororidade.

E, ainda, como construir um Feminismo Negro Dialógico sem dialogar com o Racismo sofrido pela historiadora Luana Tolentino… e tantas outras…outros…? Sem entender que a Faxina ainda tem Cor no Brasil?

Sim, Luana, a referida senhora só perguntou se você faz Faxina porque você carrega no corpo a pele escura. Pele Preta. E, quanto mais Preta, mais Racismo. Steve Biko nos alertou sobre isso.

E a Faxina parece ter Cor no Brasil. Tem Gênero. Tem Raça. É Preta.

Diante dessa Dororidade Histórica, precisamos trabalhar, cada vez mais- Feminismo. Racismo. Branquitude — Opressão e Privilégios . Acredito que possa fortalecer a todas Nós. Pretas. Brancas. Mulheres.

Quando eu falei que Dororidade carrega, no seu significado , a Dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo, destaquei que quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa Dor, agravo provocado pelo Racismo . E o Machismo é Racista. Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade. Por isso, e muito mais, infelizmente, a Faxina tem Cor no Brasil.

E, a qualquer momento alguém também pode me perguntar, … E aí, você faz Faxina… e vou ter que responder…Não…….Blá, Blá, …

Vilma Piedade — Mulher Preta, Escritora, Feminista, Antirracista.

Nota 1: o Conceito “Dororidade”, de autoria de Vilma Piedade, foi pela primeira vez apresentado no evento Feminismo, Racismo, Branquitude: opressão e privilégios”, em 20 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, dentro da série “Diálogos Feministas” da Escola com #partidA, e foi desenvolvido no artigo “Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?”, publicado em 19 de maio de 2017.

Artigo publicado no Livro Dororidade, Editora NÓS, SP, Novembro/2017

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