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“A Criação de Adão”, afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina (1508–1510)

Antes de Deus existir — esse mesmo, com D maiúsculo de ocidente — não existia o Não e nem o Sim. Em um momento, Deus foi criado à nossa margem e dessemelhança e, antes de tudo tudar-se em sete dias, Ele criou o Sim. Desta forma, o Não, que foi considerado tudo aquilo que estava à margem do Sim, virou uma espécie de marca feita a ferro e fogo para os condenados da Terra. Tudo o que não era bom, justo, correto ou digno de dignidade, virou o Não. Tudo o que se parece com Deus ou com o que Deus criou, era o Sim. De tanto que foi usado assim, o Não passou a ser confundido com as suas próprias vítimas, virando um conceito muito maior. E foi assim que o não se tornou uma cor.

E qual cor? Ora, a única cor nomeável. A cor que já foi até palavrão. A cor das pessoas de cor. Quer testar? Uma pessoa pode passar uma vida inteira sem usar as palavras negro ou preto com alguém na sua vida, mas existe gente que não chega aos cargos de chefia. Existe gente que não pode correr na rua sob o risco de tomar um tiro ou apanhar ao ser confundida com bandidos. Existe gente que não aparece nas fotos oficiais sobre o seu ativismo simplesmente porque acham que ela pode ser cortadas dali. Existe gente que é retirada do próprio banco em que se tem conta porque acham que o dinheiro que ela tem depositado ali não é dela. O Não é a expressão mais explícita do racismo que, de velado, não tem nada.

Foi cansado do Não que postei em meu twitter, no fim do ano passado, a seguinte pergunta: Se o racismo acabasse HOJE, o que você faria? Não coloquei “preto” nem “negro” na pergunta, pois, quem tem esse lugar de Não-fala, entendeu de cara. O Não nos impede de sermos quem queremos ser, inclusive, nas coisas que parecem mais banais como, por exemplo, ir ao shopping de chinelos. A pergunta libertária rapidamente viralizou, mas não só pelas respostas que são óbvias a todos que, de nascença, recebemos o signo do Não, mas pela surpresa quem é tão íntimo do Sim que nunca havia percebido que o Não, assim como o real de Arnaldo Antunes, existe. Afinal, o Sim também tem cor.

Quantos nãos uma pessoa preta recebe na vida apenas por ser-se? Com quantos anos vem o primeiro Não? E eu não falo do não didático que forma todo bom caráter, mas do Não castrador e limitador de afrofuturos. Do Não afeto. Da Não voz. Do Não saneamento. Da Não oportunidade. Do Não emprego. Do Não espaço. Da Não vida.

Acredito que, se queremos construir um mundo que nos comporte sem nos deixar comportados e que não veja a nossa cor de pele como uma sentença do Não, que precisamos, antes de tudo, reconhecer que só existe a cor do Não porque existe a do Sim. Afinal, preto que sofre por causa do que a sociedade lhe inflige, é um vitimista. Já o branco, vira o Coringa.

Me recuso a ser sumariamente pautado pelo racismo como se eu fosse um barco à deriva, mas se queremos exercer todas as nossas potencialidades, precisamos tomar o manche e entendê-lo como elemento fundamental na construção do ideário nacional. Nisso, o lema “Ordem e progresso” que estampa a bandeira que não tem a cor do Não, poderia ser rapidamente substituído por “Ordem para os pretos, progresso para os brancos”. Em resumo, Não e Sim. É uma visão dualista de mundo? Sim, mas como eu disse, não fomos nós que inventamos. O Não foi parido pelo Sim.

Não pode mais ser possível que a capacidade criativa de 54% da sociedade brasileira continue sendo limitada a uma palavra de três letras. Por isso, o trabalho de base surge como sendo o mais fundamental no rompimento desse cárcere em vida que uma existência inteira atrelada ao Não pode causar. Assim, um casal Obama sendo cortejado mundo afora é uma distribuição de Sins. Uma Beyoncé se tornando referência para uma geração é uma geração de Sins. Uma Maju Coutinho sendo admirada por uma criança que se reconhece nela é uma criança que cresce querendo ser íntima do Sim. Agora imagine o que pode causar uma leva inteira de profissionais e exemplos pretos em todas as áreas do conhecimento e âmbitos sociais possíveis? Pretos que, através desses exemplos, puderam sonhar a ponto de terem estímulo suficiente para serem jornalistas, médicos, empresários, pesquisadores, professores, arquitetos, engenheiros, juízes, presidentes… Será somente assim, com uma tempestade de possibilidades e oportunidades, que criaremos um novo evangelho para nós, melaninados. Até o Não deixar de ter cor.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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