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Ilustração de Juliana Barbosa Pereira do Livro “O Pequeno Príncipe Preto”, de Rodrigo França.

Tem uma parte da peça “Isto é um negro?”, do grupo E Quem É Gosta?, que fica passando em looping pelas minhas sinapses desde que eu a assisti no início do ano: em um determinado momento, uma personagem ganha espaço inédito para que possa fazer o que quiser. Um espaço físico mesmo, no palco. A euforia bate nela e, subitamente, ela começa a rolar pelo lugar que é seu. Rolar mesmo, com o corpo no chão. Preencher o espaço com o seu próprio espaço, seus barulhos e tudo isso sem precisar sequer abrir a boca. O gozo pelo simples Aparecer é muito emocionante para quem se sente cerceado, e deveria ser um direito vital figurante em todas as constituições do mundo. Sabe por que os bebês e os idosos gritam para serem notados? Porque, se não o fazem, morrem.

Anos de exploração de mão de obra, pilhagem, apagamento histórico e cinismo social que impedem que certas pessoas sintam o pesar de tudo isso — o que gosto de definir como Racismo Sonso — não causaram só a urgência de que existe uma dívida histórica do Brasil com 56% de sua população. Existe também uma dívida histriônica, e isso vai além do simples trocadilho. Porém, precisamos, primeiro, ressignificar o que chamamos de histrionismo, isso é, a vontade de aparecer a todo custo, que moldou, inclusive, o que a psiquiatria define como Transtorno de Personalidade Histriônica. Nesse caso, ele se torna outra coisa: o direito que pessoas pretas têm de aparecer.

Toda aparecência, para nós, tem as suas consequências. É já na infância que nós somos acusados de querer ser melhores do que os outros — o que é, ironicamente, o único jeito de sermos vistos como quase iguais — , apenas porque chamamos a atenção seja lá com o que for. Por isso, qualquer pisada em falso para além da mediocridade é o mesmo que se colocar um alvo na testa. Uma roupa um pouco mais colorida já gera um “tá se achando”. Outra resposta mais elaborada na escola, já sapecam um “folgado”. Comemorar algum sucesso pessoal publicamente, então, é “ostentação”.

O resultado atual desse aparicídio não poderia ser outro: pretos com vergonha de mostrar suas conquistas, com medo de serem tidos como ostentadores, lacradores ou até de serem atacados mesmo, pois existem grupos articulados nas redes sociais para atacarem pessoas pretas em destaque. Mas repito: isso já vem de antes, e o sistema escolar funciona perfeitamente como um moinho de talentos. Chego a pensar se as pessoas pretas tímidas que existem são assim por personalidade mesmo ou por total supressão de seu ego desde a tenra infância.

Neste mês, em que praticamente todo mundo muda as fotos de perfil de suas redes para alguma de sua infância, que possamos dar mais valor ao desejo de aparecer dos nossos pequenos e a esses gérmens de criatividade que emanam quando uma criança preta está se manifestando de alguma forma. Sobre esse impulso dos jovens, chega de ímpetos criativos sepultados pelo moralismo pseudofranciscano dos cortadores de onda de plantão. Já para os pós-jovens, que se enterre a autocensura da vontade de se manifestar por conta do brancalque (recalque branco). Se o espaço é nosso por direito, podemos fazer de tudo nele. Até deitar e rolar.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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