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Power Point do Lacre

A MÃO QUE BALANÇA O LACRE

O Brasil carece de pretação de texto. Em um momento econômico global no qual a figura do produtor de conteúdo — seja jornalístico, publicitário, cultural, econômico, acadêmico… — se mostra cada vez mais necessária, ter mais pessoas de pele preta trabalhando nesses meios é uma urgência para ontem. E não é por caridade, muito pelo contrário. A própria cultura precisa dos saberes desses agentes que, ironicamente, são deixados de lado quando as panelas de oportunidades são formadas. Os que nos excluem dos banquetes das oportunidades precisam do que nós sabemos, mas não querem que nós estejamos lá para desfrutar. Por isso é que o racismo econômico é poderoso a ponto de preferir-se deixar de ganhar dinheiro ao empregar os eleitos incompetentes a contratar gente com competência de sobra, mas que não tem a cor do clã. É aqui que entra a importância de incorporarem-se de verdade narrativas plurais na comunicação como um todo, tendo em mente sempre que qualquer coisa que você produz é encarada, assimilada ou interpretada de acordo com a forma como você é lido pela sociedade.

Mas como assim? Conteúdo tem cor?

Vamos começar pelo clichê preferido dos mal-intencionados, tragicamente alienados ou analfabetos sociais: somos todos humanos. Frase linda, sim, de acordo. Quem não quer ser visto como a pessoa que se é, e não como objeto? Porém, quem se debruçou o mínimo possível sobre as bases desse termo sabe que essa humanidade exaltada lá atrás já nasceu com uma vírgula. Nem todos eram considerados humanos, e até mesmo a ciência já fez de tudo para deixar certas pessoas fora da categoria de pessoas. Mas segregar e matar só o corpo físico não adiantava. Era preciso combater a forma de expressão, o discurso, a palavra. Assim, o conteúdo produzido por quem está de fora dessa classificação acaba também sendo encarado como algo que não pertence à classificação nobre de discurso. E é aqui que chegamos à forma mais recente mais aceita de se denegrir, em todos os sentidos, o discurso de alguém: chamar de lacre.

Lacração, lacrador, lacrosfera, lacrobolha, lacre. Desde que surgiu a chamada “woke culture” — a geração que começou a ameaçar o planeta apenas porque ousa dizer que cansou de ser morta — , esses termos são as etiquetas da vez para se classificar qualquer coisa criada por quem é visto como periférico. Mulheres, gays e pretos, quando abrem a boca, não estão opinando, mas simplesmente lacrando. Sim, o termo não foi criado por quem sempre quis nos ofender ou rebaixar, já que nasceu da cena LGBTQI+, mas acabou sendo surrupiado em sua essência, pois o modus operandi do discurso reacionário sempre é a pirataria semântica. Por isso é que, hoje, raramente se vê lacração como algo bom, sendo esse novo sentido propagado como se fosse praticamente uma das primeiras colabs entre a direita e a esquerda nesta década. Afinal, vale lembrar que o racismo é ambidestro.

Saídas retóricas virulentas como sarcasmo e ironia não são novidade alguma na comunicação. Elas existem nas discussões desde que o primeiro ancestral do ser humano abriu a boca em público contra alguém pela primeira vez. Frases de efeito, jogos de palavras, aforismas e respostas ferinas também estão aí para serem usadas, pois fazer parte do banquete da língua, e são a base do estilo de exemplos que podem ir de Nietzsche a Millôr, pessoas que ninguém se atreveria a chamar de lacradoras caso estivessem hoje nas redes. Porém, quando os mesmos recursos são usados por gente que ousa portar pele preta, a situação é outra. Vira uma maneira de se falar que o discurso da pessoa é menor, que a interpretação de um grupo é inválida e que a forma de se expressar de alguém não é digna de existir, merecendo ser ridicularizada ou posta de lado, ou levando a pessoa a ser linchada mesmo. Ironicamente, acusar, hoje, alguma pessoa preta de lacrar é justamente colocar um lacre nessa pessoa. Um lacre bem branco.

Outra ironia: por que quem reclama tanto do politicamente correto — ditadura essa que mal consegue evitar que alguém use o termo “arroba” para se referir a pessoas negras — também se incomoda tanto com as invertidas verbais que possam surgir em alguma discussão? Qual é o motivo real desse medo? Para que tanto fogo nos frasistas? Não perceberam ainda que toda discussão é como um jogo de damas ou de xadrez? Que pânico é esse de perder o jogo, a ponto de querer virar o tabuleiro? E olha que, em ambos os jogos, quem faz o primeiro movimento é o branco.

Se tudo o que uma pessoa preta escreve e fala é lacração, então nada é lacração. Por isso é que proponho uma comissão multidisciplinar e multiétnica para julgar se alguma produção preta é um lacre ou não. Esse grupo de lacrólogos estudaria a análise sintática da obra, o contexto, compararia com outras produções lacrativas clássicas e as fontes citadas pelo autor da suposta lacrada. Seria o nosso LacreVar. Depois desse processo, sim, atesta-se o lacre, ou a opinião continua sendo só opinião mesmo. O que não dá mais é para o termo continuar sendo usado como uma máscara de flandres, aqui não para evitar o que se pode colocar na boca das Anastácias que compõem mais da metade da população brasileira, mas o que pode sair dela.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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