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Foto: Revista Piauí

A maioria crescente ensina

Capitalismo é morte. E mata pelas beiradas.

Tenho observado as várias camadas implicadas em desenhar soluções acadêmicas e práticas em tempos de pandemia. Nada é simples, sobretudo em se tratando do momento histórico-político do Brasil.

Tenho dito, inclusive, que as singularidades sócio-econômico-étnico-racial-territoriais do país exigem estratégias que muitas vezes não acompanham o conjunto de soluções implementadas no norte global. E, obviamente, nunca tendo sido consideradas pela colonialidade, pelo mercantilismo, pelo capitalismo, por essa linha temporal que coloca o capital acima das pessoas, não é agora, estando imerses em um governo fascista, que serão consideradas como constituintes “da estrutura”.

Há 11 dias, eu assistia ao webnário Rising majority teach in” with Naomi Klein & Angela Davis — “A maioria crescente ensina” com Naomi Klein e Angela Davis. O título do evento demonstra que a pandemia, embora trágica e dramática em todos os ângulos possíveis, além do fato de que sempre foi uma possibilidade real no horizonte e amplamente banalizada pelos artífices do sistema capitalista, pode e deve ser a oportunidade de fazer valer o conjunto de pensamentos de valorização da vida e da dignidade humana com a força e a importância exigidas.

Naquela conversa entre mulheres pensadoras que transgridem e destrincham as lógicas e estruturas do patriarcado ocidental capitalista, a mensagem central foi a de que se havia alguma dúvida de que este sistema é um desastre, um morto-vivo, a pandemia é a autópsia do capitalismo na mesa do legista. O sistema econômico vigente sacrifica vidas e provocou, de antemão, todas as faltas do que chamamos de dignidade humana. E nós precisamos nos organizar no sentido de sermos essa maioria crescente no mundo. Nos chamam “minorias” por conta da nossa baixíssima incidência no campo das representações, porém somos a maioria da aldeia global. E nossa presença precisa, mais do que nunca, AGORA, ser sentida e ouvida.

No campo da subsistência/sobrevivência, a destituição de direitos, a total falta de protocolos trabalhistas que valorizem e resguardem as vidas de trabalhadores e/ou intensificação de medidas que precarizam ainda mais nossas vidas — em especial as vidas de todes que vivem em situação de maior vulnerabilidade: pretes e pobres — , como redução de salários do funcionalismo público ao invés de utilizar recursos do capital financeiro, dos bancos e das grandes fortunas, por exemplo, dão a tônica de como estamos atravessando — e ainda atravessaremos — mal esse período pandêmico por aqui.

Dados e eventos divulgados dão conta da complexidade e da gravidade dos desdobramentos provocados pela pandemia: testes farmacológicos e clínicos dirigidos a africanes, contágio e mortes desproporcionalmente maiores na população preta, auxílio emergencial insuficiente, ainda mais para mulheres pretas chefes de família, não há leitos para todos os casos graves e, certamente, os mais velhos, os mais pobres e os mais pretos serão os últimos na fila de prioritários.

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A vulnerabilidade sócio-econômico-ambiental é preta: territórios periféricos com barracos de um cômodo sem ventilação (vários relatos dão conta que nem janela têm!), sem saneamento; pessoas sem assistência médica regular, que têm comorbidades muitas vezes desconhecidas e sem acompanhamento; nível de educação/escolaridade/discernimento baixíssimos, fora es muites que continuam trabalhando, formal ou informalmente, simplesmente porque a grana do dia é para comer à noite. Dentre outros cenários desfavoráveis. Todes esses seres humanos estão fora da equação de preservação da vida, já que a necropolítica deixa morrer e o necroliberalismo açoita mesmo depois de mortos.

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Líderes comunitários e associações de moradores de territórios periféricos encabeçam movimentos de contenção, orientação e auxílio aos moradores nas comunidades. Tudo só não está ainda mais absurdo do que já é por causa dessas pessoas, que arrecadam grana e passam insistentemente informação às comunidades. E a saúde pública e seus profissionais estão fazendo o que sempre fizeram no Brasil: salvando vidas, mesmo sem os recursos que deveriam estar previstos, universais e para todes.

Todos esses atores, aliados ao conjunto de pensamentos do sul global, precisamos nos manter em rede como forma de tornar a nossa influência tão ou mais progressiva que o contágio do coronavírus.

Achatar a curva depende de isolamento social, do período de quarentena que estamos atravessando, mas, também, dessa crescente maioria que ensina. Que é preta, feminina, periférica. Que é a força potencial de novos e mais humanos mundos.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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