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Crianças Pretas (Foto: George Barker / Unsplash)

Dia 12 de outubro está aí e tradicionalmente se comemora o Dia das Crianças. Pensando aqui — para além da pauta marqueteira e mercadológica da efeméride — comemorar as crianças é uma atividade que deveríamos procurar fazer sempre. Fundamentalmente nossas crias pretas. Mas, eu me pergunto; como comemorar se são essas mesmas crias nossas, frutos de muitos ventres negros, ou da alma de mulheres negras, do encontro de amor entre negros e negras que morrem pela mira mais exata que eu já vi: a do racismo? Como manter viva a alegria e o espírito luminoso, puro e espirituoso que brotam dos corações infantis quando vidas de Ágathas, Kauãs, Letícias Thamires, Victors Almeida são ceifadas? Só em 2019, 16 pequenos e pequenas assassinados(as) no Rio de Janeiro. Se não são todos(as) negros(as), a maioria pode-se dizer que sim.

Nessas crianças (e em todas) estão a possibilidade de realização dos maiores sonhos, sonhos esses que muitos de nós não pudemos realizar. Nesses alegres, arteiros, amorosos, vívidos corações estão o nosso entendimento do que é ser potência. Porque eles e elas, nossos erês, podem tudo. Só que tem uma questão, aos nossos pretinhos e pretinhas, nem sempre, ou quase nunca, tem sido concedido o privilégio do futuro. Ainda assim — ainda assim! — devemos comemorar!

Eu sei, irmão e irmã, a tarefa dura e difícil que proponho. Sim, eu sei! Mas, também estou aqui para lembrar-lhes que como negros(as) somos ases em nos reorganizarmos, nos aquilombarmos frente aos solavancos do destino e impedimentos que nos acomete. Indo mais a fundo nas memórias, chegamos na comemoração, na congregação e na união como poderosas ferramentas para nossas curas. “Ah, mas na minha história não teve muita comemoração”, uns podem pensar. Será? Quantas foram as vezes em que aquilombado(a) com os seus, as suas, a festa, a dança, a música, a religião, o sorriso acolhedor de um(a) velho(a) preto(a) não te colocou de pé?

Pois, é ativando essas memórias que eu faço esse convite audacioso: comemoremos — acima de tudo, acima da morte — nossas crianças pretas! Mostremos a elas o quão maravilhoso é esse universo. Falemos da força dos nossos heróis e heroínas, afirmemos que tudo, absolutamente tudo que eles veem, tocam, sentem tem uma contribuição preta — senão em sua totalidade, pelo menos dividida em parcerias indígenas, por exemplo! Se, nas escolas, nossa gurizada só aprende Halloween; apresentemos Saci Pererê! Se não se vê muitas referências sobre a nossa história e cultura, expliquemos quem é Tia Maria do Jongo, Carolina Maria de Jesus, Teresa de Benguela, Zumbi dos Palmares, Martin Luther King, Nei Lopes… África é o limite!

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Parque Madureira (Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo)

Comemoremos nossas crianças provando para elas o que Emicida quis passar para sua filha em Amoras, um lindo trabalho literário:

“Veja só, veja só, veja só, veja só

Mas como o pensar infantil fascina

De dar inveja, ele é puro, que nem Obatalá

A gente chora ao nascer, quer se afastar de Alla

Mesmo que a íris traga a luz mais cristalina

Entre amoras e a pequenina eu digo:

As pretinhas são o melhor que há

Doces, as minhas favoritas brilham no pomar

E eu noto logo se alegrar os olhos da menina

Luther King vendo cairia em pranto

Zumbi diria que nada foi em vão

E até Malcolm X contaria a alguém

Que a doçura das frutinhas sabor acalanto

Fez a criança sozinha alcançar a conclusão

Papai que bom, porque eu sou pretinha também”

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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