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Autoria feminina negra, silenciamento, desejo e reparação: o centenário de Ruth Guimarães (1920–2014), Toni Morrison (1931–2019) e a forma romance

Falei na coluna passada sobre metanarrativizar, embora, considere, não o tenha realizado de todo. Ou plenamente. O método, pura experimentação, trata-se em verdade de outra categoria, neste caso própria, de criação. Digo, disputa. Por ofício, bom, eu conto histórias. Ao contá-las, inscrevo-as, ou reescrevo-as, enquanto existentes. Resistentes. A coisa é o nome, mas até nomes são atribuíveis — uma vez processo teórico/de teorização e intelectual -. O discurso, apesar de coisa, unidade própria de fala, é ele construção. Porque construção, é fruto de elaboração, e intelectualidade é disputa. Em um jogo, vencedores e vencedoras têm prerrogativas. Produzir conhecimento unilateral, ou nenhum, acerca daqueles e daquelas derrotados é uma delas.

Toni Morrison (1931–2019) reivindicava o processo criativo como desejo e reparação. Porquanto reparatório, do desejo. Desejar escrever o que se queria escrito, ou visto, ou ansiado passa por formalizar experiências e saberes dantes não registrados, invisibilizados por disputas políticas — nomeadamente subjetivas — ou, pior, negados na legitimidade, e direito, de ser — além de existir. O romance era assim o gênero por excelência deste movimento. A autoria romanesca e feminina negra, qual as líricas lesbitransafetivas, cumpre o propósito de não se fazerem apagar e constituírem-se pensamento social. Mesmo exitosas, e justamente por sê-lo, o cânone brancomasculino e heterocisnormativo relega-as ao ostracismo como punição pela ousadia. A romancista, escritora, folclorista, professora de Língua Portuguesa, ensaísta, tradutora, cronista, dramaturga e ex-Secretária de Cultura (Cachoeira Paulista) Ruth Guimarães (1920–2014) celebra o centenário de seu nascimento penalizada por uma vasta, e diga-se de passagem importantíssima, obra sobre saberes populares e de tradução ainda desconhecida do grande público — não obstante aclamadas e bastante difundidas à época do lançamento — e, em 2020, à causa da pandemia do novo coronavírus, com os eventos comemorativos presenciais suspensos.

A “mulher, negra, pobre e caipira”, credenciais autodefinidas (Bienal Nestlé de Literatura, 1983), integrante da tertúlia literária da Drogaria Baruel, no centro paulistano, colega de nomes como Edgard Cavalheiro (1911–1958) e Mário de Andrade (1893–1945), querido mentor, e escritora resenhada por Érico Veríssimo (1905–1975) e Antonio Candido (1918–2017) tivera seu “Água funda” (1946) entre os romances mais vendidos e melhor avaliados pela crítica à época — disputou com “Sagarana” (1946), de João Guimarães Rosa (1908–1967), a preferência do público leitor e crítico especializado -, ademais tornado marco da literatura regionalista. O interesse por manifestações folclóricas, em especial sobre o diabo e expressões similares no imaginário do homem do Vale do Paraíba paulista, rendeu ao ensaio “Filhos do medo” (1950), de sua autoria, referência em verbete da Enciclópédie Française de la Pléiade (Editora Gallimard) — o único de uma escritora latinoamericana -. Obras consagradas do corpus greco-romano, a exemplo de “O asno de ouro”, de Lúcio Apuleio (125-?), só o são conhecidas no cenário nacional pela tradução pioneira de Ruth Guimarães, produto da formação universitária em Letras clássicas — a nascida mineira pertence à primeira turma de graduação do curso então recém-criado na Faculdade de Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). Tais feitos, entre os quais ainda se incluem a candidatura — realizada após os apelos dos amigos Lygia Fagundes Telles (1923), Gabriel Chalita (1969), Paulo Bomfim (1926–2019), Anna Maria Martins (1924) e Ignácio de Loyola Brandão (1936) — e eleição à cadeira de número 22 da Academia Paulista de Letras (APL) (2008), não ofereceram a Ruth ampla fortuna crítica ou a merecida inserção/discussão no cânone, todavia o reconhecimento de seus pares e 40 títulos publicados.

Da escrita de Guimarães advém o segundo romance publicado por uma mulher negra no Brasil — o primeiro após a abolição formal da escravatura (1888) e durante o regime republicano (proclamado via golpe militar, em 1889) -. 87 anos separam-na, portanto, de Maria Firmina dos Reis (1822–1917) e “Úrsula” (1859), obra-guia da pretautoria feminina e literatura afro-brasileira. A edição fac-símile, aliás a segunda, da obra da maranhense far-se-ia novamente disponível à apreciação pública 116 anos depois da impressão pela Typographia do Progresso. Já a de “Água funda” levou menos tempo, 72 anos (Editora 34, 2018). Se o racimachismo estrutural — e do sistema literário análogo (Fernanda Rodrigues de Miranda) — explicam o silenciamento a que autoras e autores negros foram/seguem submetidos em território sudamericano da diáspora africana, as várias mulheres negras descendentes de seu legado coloriram, e colorem, de maneira insurgente as tintas masculinas e brancas pouco humanas da dita literatura nacional. A revolução nada silenciosa tem gerado vitórias. Porque se fizeram existir, em pensamento ou não, já o são vitoriosas — quais desejadas foram.

Do desejo, à ação. Reparação. Toni Morrison teve o que queria. Realizou-o. Nós também o teremos. Realizaremos. Já o temos e fizemos. E faremos mais.

O levante, histórico, sempre pretagonístico, começa. E recomeçará a cada novo grito preteritamente apagado e não ouvido. Você já ouviu algum hoje?

P.S: por referências e leitura complementar, indico a apreciação dos artigos “Ruth Guimarães: centenário de uma pioneira” (Joaquim Maria Botelho) e “O resgate da extensa e pouco explorada obra de Ruth Guimarães” (Juliana Domingos de Lima), dos registros em vídeo das aulas do curso sobre o corpus de romances de autoras negras brasileiras (aulas 1 e 2 — Maria Firmina dos Reis e Ruth Guimarães), por Fernanda Rodrigues de Miranda, oferecido ao Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc São Paulo e da tese “Corpo de romances de autoras negras brasileiras (1859–2006): posse da história e colonialidade nacional confrontada”, também de Fernanda R. de Miranda, publicada como “Silêncios prescritos: estudos de romances de autoras negras brasileiras” (Editora Malê, 2019).

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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