BrancaVision, a maior série do mundo

Minha avó morava em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense onde, por conta disso, eu passei parte de uma deliciosa infância. Para mim, atravessar a cidade para encontrar minha avó, minha tia e meus primos, que moravam juntos, era algo mágico, praticamente um ritual de passagem para a diversão em família. Além disso, Nova Iguaçu é uma cidade muito mais preta do que o bairro da Freguesia de Jacarepaguá da minha infância. Chegar lá sem a existência, ainda, da Linha Amarela era uma aventura, mas cada bairro pelo qual a gente passava até desembocar na Avenida Brasil e na Via Dutra, para mim, era uma viagem. Então, em 1997, vimos que criariam a tal Linha Amarela, via que diminuiria a duração da nossa chegada na Baixada em uma hora e meia. Assim, o fascínio com o trajeto que entrecorta ruas, avenidas e vias das zonas Oeste e Norte do Rio foi substituído pelo da rapidez. Fiquei feliz, muito feliz com a criação da via. Eis que, ao comentar, entre amigos e colegas, a novidade, um deles, com uma indefectível cara de nojo, disse:

“Agora aquela gente de lá vai vir aqui para as nossas praias.”

Eis uma mensagem de várias nuances. Quem seriam “eles”? E quando foi que a Freguesia passou a ter praia? E de onde foi que uma criança de 11 anos tirou essa ideia ou esse diálogo?

Desde então eu percebi que existe uma visão de mundo — praticamente uma realidade alternativa que se impõe sobre a realidade real — que infecta, molda e subjuga tudo que toca. Uma visão de mundo que, não contente em fazer-se real, que se impor acima de todas apenas pela força do querer. Uma visão de mundo que independe de você acreditar ou que ela exista, pois ela já é. Eis a BrancaVision.

Ao contrário da série de nome parecido que encerra a sua primeira temporada hoje, a BrancaVision existe há muito, muito mais tempo. É a visão da branquitude, que se autointitulou dona de tudo onde o sol toca e que, por conta da vontade de que o mundo seja o seu quintal e laboratório, criou essa hackeada na realidade para fazer o que lhe dá na telha com a vida dos outros. A data real em que essa anomalia começou nós ainda não sabemos. Só sabemos que o vórtice teve origem quando a primeira pessoa autodenominada branca entrou em contato com uma que não considerava parecida com ela e disse: “ Não podes ser gente.” Desde então, diversos contorcionismos teóricos são feitos para justificar esse campo energético, para que se tenha a ideia de que ele é indestrutível. Eugenia, por exemplo, é uma dessas ferramentas de base tão furadas e, mesmo assim, tão duradouras.

A BrancaVision também afeta a educação, e não só a de quem é branco, mas de todos que, de alguma forma, entram em contato com ela. O termo branquitude, por exemplo, é sinônimo desse vórtice, e ainda há quem se ache no direito de, além de não saber ou não se interessar sobre o que ele significa, opinar. Inclusive opinar sobre algo que nunca se tenha estudado é o número 1 de quem está completamente alinhado à BrancaVision. Nisso, também vale acreditar nos devaneios, fantasias e viagens maionésias mais incríveis, como cultura do cancelamento e racismo reverso. “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, já disse um famoso arauto da BrancaVision.

A BrancaVision também é o paralelo de uma famosa frase de Baudelaire, pois o maior truque já realizado pela branquitude foi convencer o mundo de que ela não existe. Assim, a gente passa a achar normal que, por exemplo, uma via de grande fluxo de transporte, como a citada Linha Amarela, tenha sido criada para levar mais pobres para as praias da Barra e não para tornar o tráfego da cidade menos segregado, ou que o sistema de cotas tenha formado profissionais de qualidade inferior quando, na verdade, estes são os que têm os melhores rendimentos nas universidades.

Quando é que essa série vai acabar ou ser cancelada? Depende da audiência. Acompanhemos os próximos capítulos.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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