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ARTE FILME “SEMENTES — MULHERES PRETAS NO PODER”

Candidaturas negras femininas bem-sucedidas são a vacina para a cura dessa sociedade racista

“Eles combinaram de nos governar, mas nós estamos combinando de retomar nosso poder” (Thais Ferreira parafraseando Dona Conceição Evaristo)

Mulher preta, mãe e periférica. Hacker de tecnologias sociais, ativista do conhecimento e agente de transformação social. Apaixonada por pessoas e todas as formas de conexão, assim Thais Ferreira, de 32 anos, se descreve em sua biografia e é com essa narrativa que ela se joga no desafio dificílimo de ser uma pré-candidata a disputa do exercício político como vereadora. E é com a intenção de jogar luz sobre essas mulheres negras que troco uma ideia com essa figura extremamente potente e admirável.

“Minha principal diretriz é garantir dignidade para a população preta, pobre e periférica. A segurança da mulher preta é central porque a gente está gerando a maior parte dos filhos (as) desses país”.

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Não é comum termos esse tipo de narrativa em candidatos (as) a cargos públicos e é justamente por conta disso que se dá a importância da candidatura de mulheres como Thais Ferreira. É preciso coragem para mergulhar assim, de peito aberto, em ambientes tão hostis à presença feminina, quanto mais sendo uma feminilidade negra. Marielle Franco não nos deixa mentir! “Minha principal diretriz é garantir dignidade para a população preta, pobre e periférica. A segurança da mulher preta é central porque a gente está gerando a maior parte dos filhos (as) desses país. Esse ventre é central, é dele que nascem os caras que tão morrendo, que estão evadindo da escola — taxa agravada pelo contexto da pandemia-, que estão lotando as celas, as meninas estão gerando precocemente, e tem os nossos mais velhos consumidos por doenças geracionais e ancestrais”

Thais se conheceu como gente fazendo política graças ao convívio com figuras como as mulheres de sua família, que já apresentavam essa incidência em relação a mobilização social e também ao seu padrinho, que era militante sindical e que sempre incentivou seu pensamento político. “Ele me ajudou a despertar isso. Tive acesso ainda bem novinha aos nossos arranjos de fazer política, nossa leitura de fazer política. Meu padrinho me ensinou a ler e toda e qualquer leitura já era enviesada para pensar no protagonismo de pessoas pretas”.

Converso com essa jovem mulher negra cheia de vida, sonhos e coragem que não consegue se ver fazendo outra coisa que não conexões com as pessoas e buscando transformações sociais.

Ser mulher, negra e candidata faz diferença na corrida eleitoral dentro do contexto político e social que vivemos no Brasil?

Thais: Acredito que faz toda a diferença por que, de fato, é a gente assumindo o protagonismo que nos foi tirado. Atravessamentos de negligencia e inviabilização acontecem com a gente o tempo todo. Os nossos problemas pedem as nossas soluções. A gente viveu uma era que colocaram famílias e mulheres no lugar da ausência. E isso não nos dá credibilidade para solucionar. O salvacionismo branco não nos contempla integralmente. Por isso a urgência das representações negras e femininas nessas esferas de poder.

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O que você quer dizer quando fala em “retomada do nosso poder sobre nós” e como pretende fazer isso?

Thais: Brinco com a frase da Dona Conceição Evaristo “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer” e costumo falar que eles combinaram de nos governar, mas nós estamos combinando de retomar nosso poder. Nós já tínhamos arranjos políticos muito melhores desde a época da escravidão, estamos retomando esse projeto ancestral de articulação política. A gente vem com tudo isso para romper e quando retomarmos o nosso poder, a nossa verdade a gente vai encontrar soluções para esse momento que a gente vive. Pautar a nossa potencialidade para governar.

“Nossa cidade foi projetada de forma higienista e racista. Meu foco está em como as mães, crianças e idosos caminham nesse espaço.”

Thais é mulher preta e periférica, faz uso do transporte público e conhece as dificuldades de mães como ela em transitar pela cidade com suas crias e, principalmente, de proporciona-las lazer e cultura. Pergunto para ela quais são suas intenções com relação ao suburbano ter direito à cidade da mesma forma que a acessam os que vivem na zona sul.

Thais: Nossa cidade foi projetada de forma higienista e racista. Meu foco está em como as mães, crianças e idosos caminham nesse espaço. A gente tem nossas manifestações culturais como o samba, o rap, as batalhas de rima e tantas outras que precisam ser valorizados e que foram tão importantes para minha formação como pessoa preta, carioca e periférica e mesmo assim enfrenta dificuldade de acessar os equipamentos culturais da cidade. Quero pautar a qualidade vida em sua integralidade no subúrbio para o subúrbio. Pensar em como a gente otimiza o uso do espaço público e oportuniza que as pessoas percebam que é delas. Isso só vem com pertencimento. Precisamos construir uma consciência de que pertencer à Zona Norte é uma coisa boa, pertencer ao lugar que a gente veio é uma coisa boa positiva. Todo mundo quer um ponto de lazer perto de casa. A gente precisa entender a configuração de cada bairro para pensar como atender melhor.

“A infância é um tempo social que impacta na nossa vida de zero a sempre”

Mãe de três meninos, Thais prioriza a pauta maternidade e — mesmo ainda não podendo divulgar suas plataformas de atuação — divide conosco o que tem pensado no sentido de dar às mães possibilidades de caminhar e evoluir como mulheres, cidadãs e mães sabendo que seus filhos (as) estão em segurança. O Centro de Mães, ferramenta pública de apoio às mães estabelecida em países da América Latina, como a Argentina, é uma de suas inspirações quando perguntada sobre o que pretende fazer se eleita. “Um centro de acompanhamento das mães, de zero a sem limite de idade, onde essas mulheres podem se desenvolver. Se tivesse algum centro de mães no Rio de Janeiro, por exemplo… A metade das mulheres são mães e a outra metade são filhos. A infância é um tempo social que impacta na nossa vida de zero a sempre.

Em suas entrevistas é comum a fala: “Minha trajetória política foge do convencional”

Thais: Pelo que eu entendo eu venho do lugar que é o não lugar político, mas ao mesmo tempo venho de um lugar onde eu pude pensar politicamente desde cedo, a gente está tendo esse despertar de pensar político depois desse atravessamento de violência que nos assola. Aprendi a escrever escrevendo sobre política e isso sempre foi incentivado pela minha família. Sempre fui incentivada a buscar aquilo em que eu acreditava. Para mim política e vida pessoal nunca se separaram.

“Uma coisa importante é a gente entender o que deve e que não deve acontecer na infância. Essa responsabilidade não é só da família, mas do Estado também. Para criar esses cidadãos saudáveis para o futuro é necessário ter esse comprometimento inegociável com a criança”.

Você diz que infância é um tempo social que impacta a nossa vida de zero a sempre e isso faz todo sentido se pensarmos nas crianças pretas.

Thais: Meu foco é oportunizar para cada vez mais meninos e meninos tenham essas oportunidades. Uma coisa importante é a gente entender o que deve e que não deve acontecer na infância. Essa responsabilidade não é só da família, mas do Estado também. Para criar esses cidadãos saudáveis para o futuro é necessário ter esse comprometimento inegociável com a criança. Uma criança abandonada na rua não deixa de ser também uma responsabilidade de todos. O que o jovem faz hoje pode impactar a sua vida no futuro. É um comprometimento de todos. O voto desse jovem pode impactar na sua vida dando ou tirando coisas, oportunidades e acessos. Temos que assumir esse compromisso de criar crianças boas hoje para colher esse benefício de termos cidadãos saudáveis amanhã. Nesse sentindo, é preciso garantir esse bem-estar integral (físico — alimentação, saúde e emocional). Não acredito nesse lema de que as crianças devem crescer para ter o que eles puderem ter, o que não acrescenta em nada, cria mais frustração e dependência. Quando criamos crianças para serem o que eles querem ser a gente garantem que eles elaborem um futuro melhor não só para eles como para todo mundo.

“Fico pensando no que Antonieta de Barros teve que passar como a primeira deputada negra eleita… Eu mesma tive minha pré-candidatura contestada. Militantes falaram que eu tinha que permanecer na cozinha, que eu não sou digna das minhas lutas”!

Uma realidade do ambiente político e muito pouco discutida pelos formadores de opinião é descortinada na fala de Thais Ferreira; a violência política de gênero.

Acho que a gente tem que fazer debate em âmbito nacional para criar ferramentas garantidoras. A violência política de gênero está em todo o funcionalismo público. Trazer esse debate vai ser interessante. Me coloco a disposição para fazer pressão para os parlamentares levarem isso como projeto prioritário. É uma discussão qualificada. A gente tem desde o assédio moral nas repartições — que é político em questão de hierarquia e função -, até as disputas políticas que acontecem em instituições partidárias ou não. É muito atrasada essa discussão. Fico pensando no que Antonieta de Barros teve que passar como a primeira deputada negra eleita. Há casos clássicos, por exemplo, as mulheres negras eleitas pelo próprio PSOL (partido de Thais Ferreira) estão sendo ameaçadas, chamadas de “marrentas”. Talíria Petrone (Deputada Federal pelo PSOL) está andando com escolta por ter sofrido ameaças. Um deputado disse, por exemplo, que “acha muito estranho que Renata Souza e Monica Cunha (candidata à prefeitura do Rio e pré-candidata a vereadora, respectivamente e ambas pelo PSOL) sejam moradoras das favelas e sugestionou que elas estivessem ligadas ao tráfico de drogas”. Essa pratica visa atingir a credibilidade da mulher nessas instituições. Eu mesma tive minha pré-candidatura contestada. Militantes falaram que eu tinha que permanecer na cozinha, que eu não sou digna das minhas lutas. Por isso, esse não pode ser um debate reduzido a uma cidade. Tem que ser amplificada e profundamente discutida. A gente tem esse lugar de trazer o debate e amplificar para que a gente garanta a nossa proteção.

“A nossa capacidade inventiva e de organização me deixam potente para entender que onde eu estiver — posso estar entregando quentinha, vendendo roupa na rua — vou estar trabalhando para autonomia e emancipação o meu povo”

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Como você pretende construir seu “colchão de pessoas”, essa rede que você mesma julga essencial para exercer esse tipo de política?

Thais: Nós temos que estar muito atentos às conexões que fazemos ao longo da vida. A gente sabe que nunca se encontra por acaso. Nessa rede que eu venho formando eu procuro estar atenta ao que cada um fala, a cada trajetória. Tudo é muito maior que a gente e nada é só sobre a gente. Todas essas pessoas que eu encontrei há 20 ou 5 anos atrás seguem comigo. Gosto bastante de me conectar com elas e tento aproximar desse fazer político que é essencial para nós. Todas as construções que a gente faz é de forma aberta e colaborativa, quem quiser participar está convidado. Faça o que você puder. De repente um dia de colaboração faz uma baita diferença na nossa construção e que sem a sua colaboração a gente poderia não ter enxergado.

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Pergunto a Thais Ferreira quais são seus pensamentos em relação ao legado de sua luta e se não há nela a preocupação com sua integridade física nessas instituições de poder encaram corpos negros e, principalmente femininos, com violência. Falo de Marielle Franco e Thais com uma segurança e força impressionantes responde:

Thais: Eu acho que é ter a certeza de que eu estou fazendo uma política de cura positiva. Uma pessoa como eu nesses espaços não vai fazer bem só para mim e para minha família, mas para quem vem depois de mim. É a realização desse projeto que me deixa segura para continuar porque eu sei que estou sendo fortalecida por energias ancestrais, dos que vieram antes de mim. Não viver nesse tempo linear dos brancos é muito importante! O tempo de gente preta é cíclico, a gente tem coisas que vão morrer para gente renascer de novo. A nossa capacidade inventiva e de organização me deixam potente para entender que onde eu estiver — posso estar entregando quentinha, vendendo roupa na rua — vou estar trabalhando para autonomia e emancipação o meu povo.

Futuro para nossa sociedade negra é, ainda, uma questão delicada. Quero saber dessa mãe negra de três meninos o que ela espera para o amanhã.

Thais: Acho que não dá para tirar minha esperança de mãe e espero de verdade que meus filhos possam continuar vivos e que percebam que eles vão sim poder ser o que eles querem ser. Nossa, eu acho que já é sonho para caramba! Mas, que estou correndo atrás de realizar.

Nota: No dia em que entrevistei Thais Ferreira confirmou-se sua pré-candidatura a vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL. Oxalá seja um prenúncio de um futuro promissor, que nos devolva um pouco de esperança e nos presenteie com cada vez mais presença negra e feminina nas arregimentações políticas que desenham o futuro de nosso país, ou seja, o nosso futuro!

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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