Capa de “Will”, livro de Mark Manson e Will Smith

CARTA A WILL

Caro Will,

Eu tinha 11 anos e ele era o novo funcionário do condomínio de classe média onde eu passei a minha infância aqui no Rio de Janeiro. A gente chamava ele de Camarão, já que ele era muito branco e sempre ficava vermelho muito fácil. O Camarão era uma figuraça. Ele brincava com a gente, era engraçado, prestativo… Até que, em algum momento, ele viu a nossa rodinha de conversa de crianças — repito, crianças — e resolveu se enturmar contando piadas. Eu sempre gostei de piadas e, inclusive, assim como você, eu só sobrevivi à escola por conta delas. Porém, ele optou pelas racistas. Pelas BEM racistas. Pensa em uma constelação de planetas gargalhantes rodando em volta de um astro vermelho no meio delas. As crianças estavam assim. Quanto mais racistas e pesadas eram as piadas em estilo “o que é um preto ____?”, mais elas riam. Todas aquelas crianças, que eram as minhas amigas, riam convulsivamente. Eu, não. Eu fingi que precisava resolver alguma coisa e ficava dando voltas com a minha bicicleta pelos prédios. Eu dei voltas até que as piadas e as risadas acabassem. Quando elas cessaram, eu voltei e ele já tinha saído.

Aos 11 anos, eu já tinha sofrido algumas amostras grátis de como o meu país é bem racista, talvez até mais do que o seu. Porém, naquela ocasião, tudo estava disfarçado sob o véu do suposto humor. A minha vontade, enquanto dava as voltas com a minha bicicleta, não era falar com os meus pais nem com a síndica, ou chorar convulsivamente para aliviar umas das maiores sensações de solidão que já tive na vida: era dar um soco bem dado na cara do Camarão. Porém, aos 11, eu era muito tímido, nunca fui bom de briga e, além de tudo, tinha toda a certeza de que, se eu o fizesse, sofreria pesadíssimas consequências. Mas eu queria muito, muito, ter dado aquele soco ou sentado o primeiro pedaço de pau que visse na moleira ou no septo dele. Eu queria ver o Camarão vermelho de sangue. Logo depois, ele foi demitido do prédio depois de ter machucado uma criança durante uma “brincadeira”, e eu perdi a minha chance. Eu lido com um desejo incubado até hoje toda vez em que alguma situação do gênero — como piadas racistas — acontece comigo: ou eu fecho a mão, ou eu procuro pelo primeiro pedaço de pau à frente.

Depois disso, eu passei a combater os “camarões” que apareciam na minha vida sempre com a tal violência pedagógica, seja na base da ameaça ou do punho fechado mesmo. Porém, todos me pegavam sempre com a guarda baixa. Era um chefe ali, um amigo aqui, um conhecido “superlegal” acolá… Gente que eu nunca acharia que faria aquilo e que fazia independentemente do lugar onde eu estivesse. Lidar com tanto ódio foi difícil, adoecedor. Meu caminho foi a música, a mais pesada possível. Eu tenho a plena certeza de que muitos tumores foram diluídos no caldo massivo de decibéis que eu consumi, produzi e apoiei até hoje. A Jada é vocalista de banda de rock, né? Ela sabe exatamente do que eu estou falando.

Eu te relato isso porque eu li, recentemente, a sua autobiografia/autoajuda, “Will”, e, nela, o que mais me impactou foi o fato de, em grande parte da sua vida, você ter se martirizado por ser um “covarde”. Você afirma que foi vítima da violência do seu pai durante toda a juventude e que gostaria de tê-lo enfrentado, assim como os seus irmãos faziam. Por isso, você passou a agir de forma a nunca, em ocasião alguma, deixar algum desrespeito contra você e aos seus passar batido. Para alguém que, durante toda a vida artística, foi acusado de não ser “das ruas” o suficiente por não fazer raps com palavrões nem filmes em que o personagem fosse visto de forma negativa por conta da violência explícita (não, eu não te perdoei ainda por não ter sido o Neo de Matrix), é irônico ver que que a sua história ficará marcada por uma violência contra um colega de holofotes. E olha que, anteontem, uma das maiores diversões da branquitude era, ironicamente, ver e apostar em dois pretos se esmurrando quase que até a morte em um ringue.

Em seu livro, você também brinca que o seu apelido, Will, é literalmente, desejo. Por isso eu sinto que essa carta aqui é mais para mim do que para você. Ela é para o meu desejo de reparação por meio de violência sempre que me deparo, mas uma vez, com algum Camarão da vida por aí. No fim, essa carta é para mim assim como todos nós nos vimos representados na catarse gerada pelo seu tapa. Você expressou o nosso desejo oculto quando nos deparamos com uma injustiça contra os nossos, e não estou dizendo isso com juízo de valor algum. O ato foi o que foi, e errar é humano, mas, conforme diz um rapper daqui, Mano Brown, já disse, nós somos “aquele louco que não pode errar”.

Apesar do pedido de desculpas tanto para a Academia quanto para o Chris Rock, a gente sabe que o ato não foi fruto de um descontrole que, vira e mexe, atrelam ao homem negro. Muito pelo contrário. Senão, não seria apenas um tapa. O desespero geral perante a sua atitude impávida que nem a de Muhammad Ali, que já foi um personagem seu, é que ela foi criteriosamente pensada. Por isso te chamam de selvagem, de primitivo, de bicho. É por isso que o temem, já que desejam nos roubar tudo, até a raiva. E ser negro e relativamente consciente, como disse James Baldwin, é estar quase sempre com raiva.

Com amor,

Gil

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ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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Coletivo Pretaria

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