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Chadwick Boseman (1977–2020), Pantera Negra e a realidade de Wakanda como aspiração para todo o sempre

Se a recorrência intermitente ao passado colonial como dispensador da violência racial-escravista subjugadora de corpos, mentes, seres e agires negros/não-brancos é da tentativa histérica, porque rançosa, da branquidade hegemônica em interditar presente e futuro qual horizonte e meio de agência sobre si a distintas coletividades, o reassenhoreamento da palavra enquanto produção e reprodução narrativa disputa, inclusive materialmente, a recriação de humanidades subalternizadas em nome(s) — à revelia de sua coisificação histórica -, ideia e devir de mundo. Na era da reprodutibilidade técnica (Benjamin, 1935), o exercício imaginativo, artifício retórico de recomposição senão ideológica, material do meio socioeconômico e efabulativo de inserção de autor/a e produto artístico, reorganizaria autorias dissidentes — ao eurocentrismo brancoimperialista — e a própria realidade a partir da transformação revolucionária ensejada pelo movimento anterior. Realizar materialmente a criação seria, portanto, imaginá-la concretude no âmbito real de mudança e intervenção sociais. Uma nação imaginária que, enclavada em solo africano, torna-se referência de superdesenvolvimento tecnológico e polo cultural no continente, a despeito da mazela imperial-colonialista, e baseada no respeito à ancestralidade/aos anciãos e anciãs, à natureza, à história única, porque comunal, de si e ao poder ordinário tal a retratada no longa-metragem “Black panther” (“Pantera negra”) (Marvel Studios; Walt Disney Motion Pictures Studios, 2018) disputa, feita materialidade, uma ficção sociopolítica de valorização da estética, beleza, dignidade, sistemas espirituais e cosmologias negroafrocentradas à revelia da estereotipicação verificada nas produções literárias e cientificismo brancomasculinistas acerca de humanidades dissidentes em sua historicidade e competência criativa/epistêmica. A reorganização imaginária forjada via artista e obra detém, concluo, valor insurrecional e pedagógico de realidades outras, plurais, portanto, de existência. Ou deveria sê-lo.

A sociedade tecnoespiritualizada de Wakanda, semelhante ou não à utopia marxiano-leninista tentativamente alcançada por Huey Percy Newton (1942–1989) e Bobby Seale (1936) entre a plataforma de ação e luta política direta da organização/Partido dos Panteras Negras, em 1966 — mesmo ano de aparecimento do Rei T’Challa como o primeiro super-herói negro da Marvel Comics -, corresponderia, naquele período de inflexão à esquerda do movimento pró-direitos civis estadunidense, o recurso simbólico necessário — anticonvulsionário ou não de Stan Lee (1922–2018) e Jack Kirby (1917–1984) — à reconstrução da autoestima e orgulho pretos em meio às discussões (afrofuturistas) sobre quilombismo (Nascimento, 1980; 2002) e o futuro enquanto possibilidade diversa ao presente de dor e aniquilamento. Chadwick Boseman (1977–2020) liderava com amor, sabedoria e força tributariamente ancestrais a Wakanda roubada dos sonhos das mulheres, homens e crianças negros de África e suas/seus descendentes na diáspora aquando do sequestro transatlântico. Boseman e T’Challa são as mulheres, homens e crianças nativo e afrodescendentes celebrados em pretitudes orgulhosas enfim restituídas de singularidade, eloquência, vulnerabilidade, agência, complexidade, autoamor, amar e inteligência. Wakanda, Boseman e T’Challa concretizam igualmente em cada mulher, homem e criança negros, assim pertencentes ao mundo, a verdade de ser na força/beleza de suas origem e sensibilidade — humana coragem.

Wakanda está em cada um/uma (mulher, homem e criança negros, ademais aquelas/aqueles verdadeiramente comprometidas/os com as agendas antirracismos) que acredita e vive o próprio sonho de existir e atravessar com o corpo, ou corpa, livre, qualquer território. Se Wakanda vive nos corações das mulheres, homens e crianças negros, então, é para sempre. Wakanda é e tem história. A quem alguma dúvida ainda possa restar de tamanha potência, saiba: por isso, por tudo, T’Challa e Boseman, Boseman — jovem, talentoso, brilhante artivista, intelectual e autor negro — e T’Challa são, e permanecerão, para sempre.

A morte é, longe de ser fim, recomeço.

A bênção, grande rei. Despedimo-nos aqui, temporariamente. Até o reencontro, e obrigada.

P.S.: outras referências: Tainá de Paula, Raphael Lima e Ivana Bentes.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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