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Teresa Cristina durante uma de suas LIVES. O coronavírus lá fora enquanto, quem pode, cumpre quarentena em casa, encarando novas rotinas que incluem dias e noites diante das telas dos celulares, como forma muitas vezes de buscar força e sentido.

Covid-19, “journal quarentener” e Teresa Cristina: haverá por que recomeçar

Dia já perdido na sequência de isolamento social autodecretado (escrevo agora do 43º desde 14 de março, ou o não pranteado após o de 2018). Qualquer atualização de dados, projeções e/ou expectativas seria/será vã, dada a profusão de notícias e sua espantosa superação em minutos — não disse horas, mas minutos. Fração de segundos, até. Talvez coubesse um journal quarentener, mas falharia miseravelmente. Falho neste momento, tentando redigir a coluna. Apesar do mosaico extenso de temáticas abordáveis/a abordar, nenhuma, entretanto, parece ser tão relevante quanto não sucumbir à deterioração senão física, mental acarretada pelo espraiamento da Covid-19 em terras brasileiras e o colapso do sistema público de saúde fluminense ante o acréscimo pujante — e pungente — da curva de contágio do novo coronavírus. Acerca desta tragédia humana e seus efeitos sobre a normalopatia ocidental necrocapitalista, a sabedoria ancestral do filósofo indígena Ailton Krenak (“O amanhã não está à venda”. Companhia das Letras, 2020) responderá melhor. Também em meio a tal desafio, resta saber se novo golpe de Estado à República será ou não perpetrado ante: 1) o recrudescimento da escala autoritária, a partir das mais recentes ameaças desferidas ao regime, segurança e legalidade democráticos sob o governo Bolsonaro; 2) o isolamento do Brasil na comunidade internacional em razão do inveterado negacionismo sanitário do mesmo Executivo federal; e 3) a delação (denominada assim pelo gravíssimo conteúdo das informações cedidas/vazadas) do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro — outro cujas infrações e cumplicidade devem/deverão ser apuradas por inquérito competente — de série renovada de crimes de responsabilidade cometida pelo atual ocupante do Palácio da Alvorada (tráfico de influência, obstrução de justiça, prevaricação…) aquando de sua saída do ministério após ato discricionário, porém sem consulta, da presidência. Asco, depressão, solidariedade, empatia, incredulidade, compaixão e perplexidade à parte, desejo é mencionar a maior das emoções vivenciadas neste período — a minha, ao menos: assistir às transmissões ao vivo da cantora, compositora e sambista carioca Teresa Cristina no Instagram.

Pioneira no uso do recurso, Tetê, ou TT (serei pouquíssimo imparcial, notem) transformou o que seria sua tentativa de não “enlouquecer” (sic) à causa do enclausuramento doméstico em exemplo máximo de resistência cultural — via resgate de biografias, carreira, obra e cancioneiro de baluartes do samba e da música popular brasileira, nomeadamente heroínas e heróis nacionais pretes (seu sangue retinto segue não pisado e celebrado) e aliades não-pretes, realização de gurufins virtuais (Tantinho da Mangueira e Moraes Moreira tiveram Teresa Cristina no comando da cerimônia) (aproprio-me do conceito empregado pela jornalista de Economia Flávia Oliveira na descrição do fenômeno) e diálogo interdisciplinar com expoentes de denominações religiosas afro-brasileiras — como Mãe Dora Barreto, ialorixá — e outros agentes (interrelacionais e relacionades) do mesmo campo — e afetiva da quarentena, qual não é a sensibilidade/verdade grandiosa de sentimentos e partilha ali efetivados, demonstrados, desenvolvidos e de fato trocados. Jamais fui testemunha de conversas e carinho tão horizontalmente travados entre amigues e desconhecides em um único espaço, afora alvo tornado ultrassensível, confesso, à poesia, canto/prece, axé e beleza da arte-em-cura forjada entre sorrisos e lágrimas. Assisti-las tornou alguns dias e noites mais amenos — torna igualmente minhas manhãs leves ao revê-las, ou vê-las, caso não consiga fazê-lo simultaneamente. Assisti-las permitiu-me sorrir entre o horror do genocídio e o projeto quase concretizado de autocracia à brasileira. Assisti-las é minha catarse criativa neste hiato de vontade/disposição a realizações cotidianas/ideias, pois não à toa resolvi verbalizá-las na presente prosa. Assisti-las atribui novo significado ao choro (retomado) que verto, porque antes endurecido. Assisti-las é cura.

Curamo-nos todes ao cantar, sorrir e ali chorar. Somos a cura de cada um(a) participante. Não regressemos à “normalidade”. Permaneçamos aqui, assim, trocando, amando, curando, afetando e sendo afetades em um mundo tornado possível. Qualquer projeção de futuro, leia-se perene, deverá partir disto aí. O futuro terá amor para recomeçar. O futuro terá Teresa cantando, porque lançamos hoje a pedra acertada no ontem agora-presentificado-e-futuro-a-construir. O futuro será o que Teresa iniciou. No futuro, Teresa e nós seguiremos cantando. No futuro, Teresa. O futuro, Teresa. Amor e cultura, Teresa. Samba, Teresa. Música, Teresa. Haverá Teresa para recomeçar. Início, meio e (re)início.

Obrigada, Teresa. Abraçamos, choramos e agradecemos você. Ter o que abraçar, chorar e agradecer você. Axé, Teresa.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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