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Intelectuais Negras, por Tay Cabral

Descolonização do currículo nas universidades britânicas

Iniciar a minha carreira acadêmica tem sido uma grande felicidade, mas veio com seus desafios.

Estou cursando filosofia na Universidade de Manchester. Considerando que estou em um ramo dominado por homens, que na sua grande maioria são brancos e europeus, é justo dizer que eu não consegui me encaixar logo de primeira.

Apesar disso, eu sou extremamente grata ao meu departamento. Ele possibilitou muitas oportunidades para que eu pudesse crescer e aprofundar o meu interesse pela carreira acadêmica dentro da Filosofia. Mas isso veio após um processo de auto-descoberta.

Esse aprendizado, tem sido gradual. Com muitas descobertas ao longo do caminho, e a certeza que eu ainda tenho muita coisa para aprender.

De maneira cronológica, essa conscientização começou em abril de 2018, quando eu frequentei o evento KTLS (King’s Transnational Law Summit) na universidade, King’s College London. Nesse evento eu tive o prazer de conhecer a Djamila Ribeiro e o seu trabalho. Foi um encontro incrível que resultou em uma grande amizade e me mostrou como nós podemos usar as ferramentas disponíveis para promover uma emancipação estrutural — que. por sua vez, abre o caminho para que mais ferramentas nos estejam disponíveis.

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Djamila Ribeiro; filosofa, comunicadora e uma grande amiga.

Depois desse evento, conheci Katucha Bento. Uma companheira de luta que me introduziu aos recursos utilizados na descolonização do currículo nas universidades britânicas. Nos conhecemos em um evento chamado Brazil Forum UK, em maio de 2018. Este foi um ano abençoado e de grandes encontros. Após o início da minha graduação, Katucha me convidou para mediar uma mesa de discussão no seu evento Decolonising Minds at Leeds, na Universidade de Leeds, aqui na Inglaterra. Foi uma oportunidade incrível, onde eu pude conhecer grandes ativistas como Kehinde Andrews e Suhaiymah Manzoor-Khan.

Essa experiência abriu muitos caminhos e hoje eu sou a representante de graduação do grupo de descolonização do currículo da Universidade de Mancheste; representante de graduação de igualdade e diversidade do departamento e, semana passada, fui convidada a ser representante de graduação de igualdade e diversidade para a escola de Ciências Sociais da minha universidade.

É triste que haja necessidade para essas provisões, mas me traz uma grande alegria saber que eu, enquanto mulher de dezenove anos, negra, imigrante e ‘de humanas’ estou conseguindo contribuir de alguma maneira a essa causa.

O mais interessante, na minha opinião, é que todos esses encontros e essas oportunidades só foram possíveis por morar no Reino Unido. Foram encontros mágicos que continuam ocorrendo e eu sou extremamente grata por essa ponte entre as minha duas pátrias, o Brasil e o Reino Unido.

No início de 2019 eu organizei uma conferência anual na Universidade de Manchester chamada PhilChat. Essa conferência foi organizada junto a dois alunos de doutorado do departamento de filosofia, Leonie Smith e Jon Bebb. Ambos foram extremamente prestativos às minhas recomendações de diversificar os assuntos da conferência desse ano e, como consequência, a Katucha Bento apresentou uma palestra com foco na Injustiça Epistemológica como consequência da colonização.

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Decolonising Minds at Leeds (Outubro, 2018), evento organizado pela acadêmica e parceira de guerra, Katucha Bento.

Todas essas ações são, na minha compreensão, uma maneira de resistir. Se fere a nossa existência, seremos a resistência.

Por mais que eu aprecie o meu próprio mérito dentro dessa dinâmica, nada disso seria possível sem a minha maior inspiração. Minha mãe, Maria Augusta Arruda, que desde cedo, sem usar o mesmo vocabulário que é utilizado nos discursos contemporâneos, me mostrou que a melhor forma de resistir é existir. Isso quer dize estar presente onde eles não esperam nos ver e inseridas nos espaços, promover grandes mudanças positivas para a nossa causa.

Além disso, Maria Augusta foi e continua sendo minha parceira e companheira nessa guerra constante. Frequentando esses eventos comigo e sempre na torcida.

Obrigada, mãe!

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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