DEVIR-NEGRO, INSTITUIÇÃO BRASILEIRA

Em algum momento do Ocidente, estabeleceu-se que enterrar os seus seria algo sagrado. Exemplos de punição divina do quanto privar alguém de se fazer isso é algo que não falta nos mitos e religiões. Vemos isso na Ilíada de Homero, na Antígona de Sófocles, na Bíblia… Não permitir que alguém enterre um ente querido é uma aberração moral, social e cármica, é o pior dos pecados. Apesar de nos acharmos ocidentais e de certas figuras nefastas se acharem mais ainda, nos últimos dias nós acompanhamos o quanto algumas dessas celebridades do caos reforçaram a ideia do quanto um jornalista britânico e o melhor indigenista de sua geração, que desapareceram na Amazônia — Dom Phillips e Bruno Pereira — não mereceriam sequer ser procurados para que esses ritos pudessem ser feitos.

Ao forçarem que Dom e Bruno não mereciam a procura e continuarem a vilipendiar a memória dos dois, mesmo após o destino trágico deles ter sido anunciado e confirmado, os que nutrem um profundo ódio pelas pautas que eles simbolizavam — o direito à informação e a defesa da Amazônia e dos povos originários — viram nesse desaparecimento um outro trampolim para, mais uma vez, pontuarem o quanto eles querem que essas ideias também desapareçam. Esse é o amor à morte, tendo na necropolítica o seu único e real objetivo de nação.

Em 2021, dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) mostraram que o número de agressões a jornalistas e a veículos de comunicação chegou a um novo recorde desde que a análise começou a ser feita, em 1990, reunindo 430 casos de violência — sendo 18 agressões diretas vindas diretamente do presidente em questão. Assim, o país passou a fazer parte, pela primeira vez, da “zona vermelha” do ranking mundial de liberdade de imprensa organizado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras, podendo ser comparado a países com regimes autoritários como Rússia e Filipinas, por quem, inclusive, o governo atual já demonstrou empatia.

Um relatório de 2021 do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que já acusou a “inação sistemática do governo brasileiro e sua política anti-indígena”, também demonstrou que, em 2020, ano em que se “passou a boiada”, houve 263 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio” nas terras indígenas do país, atingindo pelo menos 201 terras indígenas de 145 povos, em 19 estados. Os casos de violência contra os indígenas aumentaram 150%, reunindo 276 ocorrências, sendo 113 assassinatos, em 2019.

Nisso, vale lembrar também um outro termo muito importante para o momento: devir-negro do mundo. De acordo com o mestre Achille Mbembe, esse é o objetivo final do racismo: transformar todo mundo que é tido como descartável — mulheres, crianças, imigrantes, desempregados, favelados… — em “negro”, ou seja, alguém matável. Resumindo bem: se você age, apoia ou é visto como um “negro”, seja africano ou indígena, pode ser morto como um, seja qual for a sua “raça”. O devir-negro do mundo se fez presente e muito atuante, beirando a caricatura, no Vale do Javari nos últimos dias.

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