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Diário da quarentena (a missão), cultura e resistência independentes: “não haverá trégua para ninguém”

Nova tentativa de diário quarentener, ou nem tanto. Não, pouco. Em verdade, nada. O presente texto já nasce defasado — vocês o entenderão a seguir -. A velocidade da destruição já provocada e o ímpeto das/os arrivistas em realizá-la/perenizá-la com fins à anomia é incansável. O caos é projeto (atividade, forças democráticas!). A disposição seria invejável, se não conduzisse pessoas amadas por outras/es ao holocausto/desaparecimento — falo aqui sobre memória.

A reflexão suscitada por Flávia Oliveira no episódio 39 do podcast Angu de grilo faz-se pertinente: as (atuais) 16.792 mortes confirmadas em território nacional por força do novo coronavírus* criam a necessidade de registro destas histórias, e do tipo memorialístico, como antídoto à invisibilidade e reparação, a nível humanitário, de seu sacrifício — considerando-se a devida imputação penal/responsabilização civil, criminal, administrativa e política de agentes públicos -. Preferencialmente, sem notas de repúdio. Para os inimigos do pacto de 1988, aliás, dirija-se a exigida, e célere, impetuosidade da Constituição Federal em suas injunções. Sim, nós temos canetas (sem versão anglicizada). E vontade. E força. E ancestralidade — por isso mesmo, de coragem. E Teresa Cristina. E Bia Ferreira. E Doralyce. E Verônica Bonfim.

Desisti de abordar as indignidades perpetradas pelos Executivos (municipais, estaduais e federal) antipovo e eugenistas há não muito eleitos, embora deixe aqui, e agora, a denúncia de sua necropolítica — o conceito tem autoria declarada e conhecida, plagiadoras/es, a saber, do filósofo e intelectual camaronês Achille Mbembe (1957) — e assassinatos recém-cometidos (Jhonata, Alan, Leandro, Junei, Leonardo, William, Nelson, Luis, Lucas, Rafael, Alysson, Rodrigo e Alessandro foram chacinados no Complexo do Alemão [15 de maio], Zona Norte da cidade; Iago César dos Reis Gonzaga (21), segundo relatos da família, foi torturado e morto em operação policial ocorrida na favela de Acari, também na Zona Norte [18 de maio]; João Pedro Mattos Pinto (14) foi alvejado na barriga enquanto brincava com primos em casa, colocado em um helicóptero e teve o corpo deixado na unidade Lagoa do Instituto Médico Legal (IML), Zona Sul, a 40km do Complexo do Salgueiro (São Gonçalo). A família localizou-o por conta própria após 17h de desaparecimento [18/19 de maio]; João Vitor Gomes da Rocha (18) integrava o coletivo Frente CDD e levou um tiro fatal ao atuar na distribuição de cestas básicas em sua comunidade, na Cidade de Deus, Zona Oeste [20 de maio]. Já Rodrigo Cerqueira (19) era camelô e trabalhava em sua barraca quando fatalmente recebeu um tiro, este disparado durante ação da Polícia Militar (PMERJ) no Morro da Providência, Centro do Rio [21 de maio], governador Wilson Witzel), para encaminhar finalmente um apelo: fortaleçam as produções, saberes e iniciativas de mulheres. De mulheres artistas. De mulheres negras/indígenas artistas. De mulheres negras/indígenas artistas LBTs. De mulheres negras/indígenas artistas LBTs independentes. Se o setor cultural segue desde outubro de 2018 ideologicamente demonizado — quando não sentenciado à míngua de investimentos -, a pandemia de Covid-19 já fez ofuscar, dada a intensa luminosidade incidida, a fragilidade em direitos/garantias trabalhistas e previdenciários legislados, formulação de políticas públicas de apoio/fomento e rede de proteção social das categorias profissionais integrantes e/ou associadas ao campo da cultura. O patógeno mortal escancarou históricas, e propositais, dificuldades enfrentadas por mulheres negras e indígenas intelectuais — das mais distintas áreas do conhecimento -, quanto à publicização/reconhecimento público de seus feitos e à sua legitimidade enquanto agentes incontestes da própria história.

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Este país de pretensões colonialistas precisa ser parado. Além de eleições a vencer, é obrigação coletiva redisputar hegemonia ante reatualização tão acintosa do capitalismo neoliberal de supremacia branca. A hegemonia, porque já numérica, será dada por mulheres, e mulheres negras/indígenas. De novo, financiem projetos, ações e iniciativas desta autoria. A poesia, e a poesia delas, dói nos/as filhos da puta. Façam-nos/as sangrar no ranço odioso da chibata. Diga-lhes bom dia e vá tomar no cu, caso se nos solicitem. Lembrá-las com o esquecimento deles/as será feroz ao dito bando de impostores. Não haverá trégua para ninguém. Sigamos perseverantes, tenazes e sustentadas/es/os na teimosia de cada uma. Serão elas a fé quando desmoronarmos. Ou renascermos.

As artistas serão sempre nossas.

P.S: as “Instruções para esquivar o mau tempo”, de Paco Urondo (1930–1976), escritor, jornalista, poeta e montonero argentino, são a referência literária de algumas das linhas supraescritas. Abraço e agradeço a irmã Verônica Bonfim por tê-las encaminhado em um dia nebuloso e assim inspirado este texto. Desejo que sejam (as instruções) igual inspiração em todos que ainda virão, sob bom ou mau tempo.

*Até o fechamento da edição/revisão do texto, os medidores correspondentes já aludiam a 23.437 óbitos por Covid-19 no país.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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