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A empregada doméstica, o militar e o militante antirracista entraram em um bar. Não é uma piada. É que os três, por mais que pareçam ser tão diferentes, estão ganhando, forçadamente, uma característica em comum: são o bode expiatório do servilismo nacional.

Vamos começar falando da empregada doméstica, profissão que, caso fosse realizada pela maioria de pessoas de pele branca, tratariam de pagar decentemente, de dar mais visibilidade e ainda dariam um nome menos classicista. Home designer, que tal? Mas olhemos o que o dicionário dos sinônimos diz sobre este emprego tão nobre quanto qualquer outro: serva, criada, aia, serviçal, mucama, subalterna subordinada, lacaia… Se chocou? Pode checar aqui. Em suma, a empregada doméstica é aquela à qual as classes altas, que mal olham na cara das mesmas em outras ocasiões, dizem “vem aqui limpar” quando precisa de seus serviços e até mesmo quando não há a necessidade real dele. E, para satisfazer esses desejos imperiais, vale tudo. Até assassinar uma criança.

Saem as vassouras e entram outros instrumentos de “limpeza”: os fuzis. Eis o militar, o homem da ordem. O braço forte e a mão amiga que, apesar de ainda ter bastante status, principalmente, neste momento belicoso em que qualquer homem branco de meia idade compra uma calça camuflada em loja de pesca e se sente o Rambo, também, por mais que se negue, é vitimado pelo servilismo mais rasteiro. Você pisca e já surge alguém que nunca se subordinou a alguém na vida — como os próprios pais — para dizer “vem aqui limpar” a alguma pessoa de farda. Qualquer farda. “Intervenção militar!”, “bala neles!”, “façam o seu serviço à nação!”, clamam as vozes da hidrofobia. E, quanto menor a patente, mais a marra cresce por parte de quem se sente senhor do fardado. Afinal, a base da pirâmide da turma da caserna também tem uma cor bem específica. No final das contas, esses pretos de coturnos pretos são igualmente cobrados para serem servis no sentido mais escravocrata possível da palavra.

Por último, temos a figura do militante antirracista que, neste momento novembrador que veio a reboque das ações Black Lives Matter nos Estados Unidos e das mortes de pessoas negras também aqui no país, todos estão lembrando e celebrando neste momento. Assim, o antirracismo, apesar de estar com uma visibilidade louvável, está virando a grife da vez. Porém, quem está indo para o front neste momento? A mesma branquitude que se sente ofendida com o termo branquitude por tomar ele como um ataque pessoal também é a que fica inerte enquanto os militantes antirracistas ativos permanecerem tendo apenas uma cor só. Caso isso permaneça, a dinâmica do servilismo segue seu curso: “limpem lá para a gente algo que fomos nós que sujamos”.

O que se faz com a empregada, com o militar e com o militante hoje são a prova viva de como o brasileiro é viciado em trabalho pesado não remunerado. OK, entendemos que essa parasitose de mais de meio século também acontece com muitas outras categorias (alô, profissionais da saúde!), mas essas três categorias em específico, neste momento pandêmico, são as que mais me têm chamado a atenção. Apesar de estarmos em meio a um momento histórico perigosíssimo em que o ideal seria cada um ficar na sua casa, eles não estão podendo se dar ao luxo de parar.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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