“Lenhadores Negros”, de “Viagem pitoresca e histórica no Brasil”, gravada por Thierry Freres, 1835 — Jean Baptiste Debret

EU NÃO TRABALHO AQUI

Agosto começou e parte do sábado passado eu passei malhando ou, melhor dizendo, treinando. Porque hoje ninguém malha mais: a gente treina. Esse poderia ter sido só mais um sábado comum, de malhaç…treino, mas eu resolvi, durante os exercícios feitos em uma academia um pouco mais esvaziada, escutar o podcast do projeto Querino.

O trabalho, que é inspirado no antológico 1619 Project, do New York Times, está com todos os seus oito capítulos no ar no site e também nas plataformas digitais e foi criado e organizado pelo jornalista Tiago Rogero — também conhecido como um dos maiores mineiros vivos. Eu tive a honra de, ainda em 2020, somar-me ao time de pesquisa, por um ano, junto a Rafael Domingos Oliveira, Angélica Paulo e Yasmin Santos, e também de fazer a checagem dos roteiros. O resultado está sendo esse trabalho essencial para se entender um país que, no momento em que 33,1 milhões dos seus habitantes passam fome, cisma em se lamber por conta do bicentenário da sua independência.

Pois bem, dentre agachamentos, aparelhos e supinos que eu fiz para exorcizar a ansiedade por ouvir, enfim, o projeto no ar, me veio uma mistureba de sentimentos. Raiva (por algumas das situações relatadas ali), orgulho, gratidão… E, no meio da flexão plantar que realizava no momento, me veio aquela quase mão no ombro. E não é metafórico. Era um senhor, um cliente da academia, que estava querendo falar comigo. Parei a flexão e desliguei os fones de ouvido, cortando a voz do Tiago e a minha concentração. E ele foi direto:

“É que eu não trouxe minha garrafinha de água e queria ver se você arranjava um copo de plástico pra mim”.

Eu parei, olhei em volta e vi que perto dele, bem perto de onde ele estava fazendo o seu treino, havia outros clientes — brancos — da academia que poderiam tê-lo auxiliado sem que ele precisasse sair de seu lugar e vir até mim, que estava de costas, afastado dele, de fones de ouvido. Então eu:

“Bem, eu não sei onde os copos ficam, mas ali na frente algum funcionário pode te ajudar com certeza. Eu não trabalho aqui”.

O homem ficou tão, t ã o, T Ã O atordoado que, antes que eu pudesse manifestar qualquer outra coisa, ele já tinha saído da minha frente quase que correndo. E eu voltei para a flexão plantar, para os meus fones e para o play no podcast justamente no momento em que o Tiago falava como o negro ainda é um cidadão de segunda categoria no Brasil. É, ironia é pouco.

Além de receber mais uma amostra grátis de como o funciona o racismo à brasileira — material, inclusive, que eu utilizei muito para realizar a minha parte da pesquisa — a minha maior frustração foi eu não ter tido a sacação de dar o play no podcast, colocar os fones de ouvido nele e falar “ouve aqui, que você tá precisando”. Eu só consegui mandar esse “eu não trabalho aqui” mesmo. O desespero no rosto dele — seja pelo fato de ter “se confundido” ou por eu, o único preto ali, ser tão cliente quanto ele e ter declarado que não, não o serviria — foi causado, justamente, por eu ter feito questão de falar que eu não trabalhava ali. Pensando bem, agora eu vejo que, na verdade, eu estava trabalhando, sim.

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ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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Coletivo Pretaria

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