Fazer o que se pode agora: This is us (NBC; Amazon), trauma e legado geracional

Dito de maneira simples: precisa acabar. Subjetividades adoecidas adoecem e só promovem o caminho do adoecimento, porque pela doença operam. E o fazem, conquanto desconhecem a cura. Já o escrevi em algum momento, mas construir-se como vocacionade à grandeza via imanência de um ou outro atributo compreende certa infalibilidade ante subjetividades diversas frente àquela tornada única e a cujo modo de vida é preciso moldar-se. Isabel Wilkerson (2020) falaria em castas para expressar tal crença historicamente constituída. Entendendo-se castas por classificação, inclusão ou exclusão de grupos humanos, e a raça sua materialidade — qual gênero, sexualidade, classe, capacidade –, portanto, acreditar-se assim maior, superior não lhe permite visualizar quem, automaticamente, é situade abaixo. Se a individuação é relacional, não se permitir o vínculo significa jamais reconhecer a própria humanidade, a mesma encontrada entre sombra e escuridão; tristeza e alegria; dor e sentir; lágrima e sorriso; som e silêncio; unidade e coletividades — características humanas. A antipatia manifesta a mortes infligidas a outrem, leia-se marcades com a diferença inferiorizante, é a analgesia quanto à própria experiência da dor.

Por isso, os “Eu sinto muito não ter percebido o quanto lhe fazia mal”; “Sinto muito que você tenha se sentido só”; “Sinto muito por imaginar que tenha precisado lidar com tudo, e tanto, sozinhe”; “Peço desculpas, se meu comportamento tiver lhe feito sofrer” guardam total realidade, pois até distante de si e das possibilidades de viver humane e senti-lo este alguém (branque e figuras assemelhadas) se encontra. Ao mesmo tempo, a tentativa de controle da gratidão a ser ou não declarada por tal “reconhecimento” é mais um subterfúgio ao não enfrentamento consigo da limitação, aliás, humana de poder errar e, pior, da responsabilidade pelo trabalho envolvido em reparar, na mesma e justa medida, erro e sofrimento gerado.

No patamar inferior ao topo, por sua vez, quem se sabe não viste, ignorade, silenciade, incompreendide e violade condena-se a uma vigilância constante para, entre paralisar ante o medo, fugir ou não fisicamente (inclua a escolha por morrer), anestesiar-se em vícios e dissociar-se no sempre agradar como mecanismo adaptativo à hostilidade implícita ou não — às vezes, autoincutida — do meio, sobreviver à solidão, ao desprezo, a ausências várias — a de iguais é uma delas — e ao cansaço. Ansiedade, pânico, despersonalização, insensibilidade, ou hipersensibilidade, inautenticidade, doenças ocupacionais psicossociais (depressão; transtorno de estresse pós-traumático; burnout; síndrome do pânico; ansiedade generalizada ou social) são parte de ainda vasto elenco de consequências deste relacionar-se de soma zero. O medo da incompreensão, a dor (decorrida) da rejeição e a sentença do abandono — material, amoroso, psíquico e emocional — forçam um silêncio carregado ao tempo da vida.

Recordo o pedido de liberdade conjunta, verdade e realização do trabalho em ser humane ao qual James Baldwin (1924–1987) aludira, legara em seus escritos e ainda hoje não cumprimos. Enquanto não o cumprirmos, e o reafirmo, seremos testemunhas da barbárie. Sinceramente, eu não posso mais carregar o fardo. Não o podemos, se compromisso temos e, de fato, tivermos com nossa descendência. Por favor, recusemos. Eu não quero morrer para vê-la guerrear — já não será lutar — sobre os escombros por que o fazemos agora e herdamos.

De forma simples, finalizo como comecei: precisa acabar.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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