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AFRODIÁSPORAS

“Girl, Woman, Other” (Garota, Mulher, Outra) de Bernardine Evaristo

Hoje estou escrevendo essa coluna de Whitby. Com a neve fininha caindo, o mar do norte no horizonte, uma grande calmaria. A terra que inspirou a história do Drácula é sem dúvida o meu “happy place”. Um grande contraste com o clima de carnaval! Faz muito tempo que eu não venho aqui. Muito tempo que eu não passo tanto tempo com a minha mãe e o meu padrasto, Andy. Fez falta.

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O mar em Whitby

Foi durante essa pausa, após um período caótico com muitas idas e vindas, que eu consegui parar para ler Bernardine Evaristo.

Dia 17 de agosto de 2019. Após um longo período em Londres, o qual foi transformador para minha carreira jornalística e também para o meu senso de identidade, deu-se um encontro inusitado: foi nesse dia que eu descobri a escritora Bernardine Evaristo. Que mulher. Que escritora…

Minha primeira reação foi — “olha mãe! Ela tem o mesmo sobrenome que eu!”, pois o meu nome completo é Maria Luísa Evaristo Cursino da Silva. Vim morar na Inglaterra aos 11 anos de idade, tenho cidadania britânica e brasileira há 2 anos, mas nunca havia visto alguém que me representasse tão bem nos grandes veículos de comunicação.

Bernardine não tem a mesma história que eu, muito pelo contrário. Porém, muito mais importante do que nossas trajetórias serem distintas, é a ancestralidade que nos une. Bernardine reconhece a pluralidade da mulher negra e britânica, especialmente na nossa sociedade contemporânea.

Bernardine é a quarta de oito filhos. Sua mãe é branca e britânica, seu pai é negro, nigeriano e brasileiro. Brasileiro pois o avô paterno de Bernardine nasceu no Brasil e retornou para o seu povo, de etnia Ioruba, na Nigéria, onde ele conheceu a avó materna de Bernardine que era de um outro povo nigeriano, de Abeokuta.

Bernardine diz que, por conta da atitude reclusa do seu pai, ela teve dificuldade de se conectar a sua ascendência negra. Mas esse obstáculo não a impediu de honrar o que significa ser negra e britânica. Como escritora, ela escreve sobre diferentes aspectos da diáspora africana. Em 2001, ela escreveu um livro chamado Emperor’s Babe (A Bebê do Imperador). O livro é baseado na experiência de uma adolescente da Núbia que cresceu na Inglaterra dois mil anos atrás, durante o período de ocupação da Grã-Bretanha pelo Império Romano. Na sua obra baseada em dados históricos, Bernardine mostrou para o seu público britânico que a diáspora africana não se origina no período colonial.

A escritora é proeminente no Reino Unido, tendo escrito oito livros e recebido um MBE (Membro da Ordem do Império Britânico) da rainha em 2009, pelos seus serviços para na literatura britânica e teve muitas das suas obras adaptadas como peças de teatro para rádio BBC Radio 4. Mas foi pelo seu livro Girl, Woman, Other (Garota, Mulher, Outra) que ela recebeu o prêmio literário Booker Prize, que é uma premiação literária conferida todo ano à melhor obra literária escrita em inglês e publicada no Reino Unido.

Além de ser a primeira mulher negra a ganhar esse prêmio, a edição de 2019 trouxe muitas mudanças. Pela primeira vez, duas obras foram premiadas. Girl, Woman, Other (Garota, Mulher, Outra) de Bernardine Evaristo e The Testaments (Os Testamentos) de Margaret Atwood. Ambas são escritoras incríveis, e aqueles responsáveis por escolher a obra vencedora não conseguiram escolher só uma. O problema foi a repercussão. A reação instantânea sugeriu que Bernardine fosse “a outra”. Por que nós, como mulheres negras na diáspora, não podemos ser protagonistas?

No seu livro ela aborda muitos temas que nós, direta e indiretamente, abordamos aqui no Coletivo Pretaria. Temas como o lugar de fala e a compreensão de que todos nós temos experiências únicas e intransferíveis. Não é possível encaixar todos os diferentes modos de existir em uma única existência ou com uma única voz. No seu livro, Girl, Woman, Other (Garota, Mulher, Outra) Bernardine conta a história de 12 mulheres. Todas negras. Todas distintas umas das outras. Algumas pertencentes à comunidade LGBTQI+, outras hetero-cis, algumas sofreram abuso doméstico, outras foram estupradas, mas todas puderam falar por si. Honrando o seu lugar de fala; o protagonismo na sua própria história. Quem diria que nós poderíamos falar por nós mesmas, né?

Mas algo é fato, e eu falo isso baseada nas minhas experiências pessoais e as experiências que são compartilhadas comigo, a experiência de ser uma mulher, negra e britânica é significativamente diferente da minha experiência como mulher, negra e brasileira; eu espero poder abordar essa distinção em futuras colunas, com mais espaço e cautela.

Leia Girl, Woman, Other (Garota, Mulher, Outra). É uma experiência única e esclarecedora. Principalmente se você quer compreender as múltiplas experiências da mulher negra e britânica. Somos todas parte da diáspora e as particularidades dependentes da nossa nacionalidade devem nos unir e não separar. O respeito e a compreensão mútua é primordial para qualquer diálogo com eixo em raça.

Agora eu vou lá continuar a minha leitura — até mês que vêm! Beijo!

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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