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GUERRA DOS INFINITOS BRASIS

Não saia de casa e nem compre dólar agora. Neste exato momento, há uma guerra em curso. Você pode vê-la e ouvi-la da sua janela, seja a de casa ou a do smartphone, e sentir os estrondos dos titãs que se chocam em cada segundo de batalha. Não é uma guerra limpa, já que batalha alguma é. Neste exato momento, enquanto você lê esse boletim de batalha, milhares de brasis estão caindo na porrada.

Falo isso com tranquilidade, pois sei que, como já superamos a ficção faz tempo, já aguardava esta fase em que o redator do mundo fosse apelar para o momento em que, depois que todos os recursos narrativos ficassem gastos, surgiria a cartada da existência do multiverso para zerar, de vez, com todos os mundos alternativos que foram surgindo sem base, estofo ou justificativa. Por isso, cada país desse que está guerreando é um Brasil diferente. Eu mesmo nasci em um que, para mim, terminou no fuzilamento de crianças negras na frente da Igreja da Candelária, mas, para muita gente, o Brasil só está terminando agora. Já para quem veio antes de mim e que conjuga da mesma cor de pele, o Brasil nunca começou de fato.

Mesmo com as ruas esvaziadas, a gente pode ver os clash de brasis rolando solto. Tem o Brasil Que Parou, por exemplo, que o pessoal das carreatas canarinho querem que volte, e o Brasil Que Nunca Para, o mesmo dos terceirizados e precarizados que trabalham, inclusive hoje, que é o dia deles, já que, quem produz fome, tem pressa. Existe também o choque entre o Brasil com Máscara, dos profissionais de saúde pública que estão trabalhando nos hospitais em turnos de mais de 12 horas por dia, e o Brasil Sem Máscara, que sai de casa porque “pode” e porque quer. Este último, sim, um Brasil altamente tóxico.

Na última quarta-feira, eu assumo que ignorei a possibilidade de pisar em alguma mina terrestre dessa guerra suja e me aventurei a ir jogar o lixo fora. Logo em casa, eu já pisei em uma e BUM, me explodiu na cara o Brasil de Quem Não Joga Nem o Lixo Fora Sem Levar a Própria Identidade. Quando depositei o lixo, vi que, no bar ao lado, haviam cinco pessoas bebendo do lado de fora como se nada estivesse acontecendo. Cinco pessoas que pertencem ao Brasil Sem Máscara. Na frente deles, me pedindo licença e quase desculpas por estar ali, um homem magrelo revirava o lixo procurando por latinhas. Sem máscaras e nem camisa, ele não ousa olhar no meu rosto. Era um habitante do Não-Brasil.

Ao voltar em casa e acompanhar as redes sociais, me deparo com a versão do Brasil Sem Máscara que existe em outro plano e que, por uma conjunção especial do tempo-espaço que houve em 2018, veio parar na nossa dimensão: o Brasil E Daí. O problema do Brasil E Daí, assim como o do Brasil Foda-se a Vida, é que ele deixa os anseios do Brasil Sem Máscaras sem sutileza alguma, dando muita bandeira, e todo mundo já sabe que absurdo bom é absurdo velado. Por isso, o Brasil Sem Máscara finge que o Brasil E Daí não existe, mas faz questão de usá-lo no front como uma milícia.

As guerras só existem com uma única exclusiva finalidade: matar gente. Matar o máximo de pessoas que for possível. Não tem poder, hegemonia ou inteligência no mundo que seja capaz de suprir o puro desejo pela destruição do Outro e o Outro sempre tem cor, gênero e classe bem específicas. Por isso é que essa crise entre os infinitos brasis não será definida por nós. O máximo que conseguimos fazer é nos precaver e alertar quem não percebe que está em meio a um front, e deixar que as partes envolvidas se aniquilem enquanto observamos a peleja de longe. A pergunta que fica é: qual será o Brasil que restará no fim?

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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