GUIA PARA ENTREVISTAR PESSOAS NEGRAS EM NOVEMBRO

Pessoas aliadas, chegou novembro! Mas calma, que o mês não é para ser, conforme diz o filósofo Silvio Almeida, uma micareta racial. Por isso, cara pessoa branca aliada, é preciso estarmos atentos e fortes. Atentos para que as homenagens, entrevistas, mesas, convites e concessões de espaço não se tornem um calvário para o homenageado; e fortes — no caso, nós — para que não gastemos o nosso réu primário com os absurdos de vocês, inclusive, quando estão com a intenção de nos exaltar.

Para evitar que contratempos ocorram, preparei aqui um tutorial bem básico para pessoas brancas que pretendem exaltar pessoas negras em suas redes, eventos, trabalhos e círculos de influência. A empiria utilizada para isso é bem singular, pois eu passei por todas — T.O.D.A.S. — as péssimas experiências que originaram esses tópicos. E que, conforme vejo acontecer com os meus pares, são cada vez mais recorrentes:

- APRENDA O NOME DA PESSOA

Essa parece idiota de tão fácil, mas só parece. O que já vi de gente engasgando para falar nomes afrocentrados, enquanto, ao mesmo tempo, é capaz de soletrar os sobrenomes de origem europeia, não está no gibi. E não precisa ser só com esses. Eu mesmo já virei Gilberto Pordicônio, Porciúncula e até Patrocínio.

Saber falar e escrever corretamente o nome correto da pessoa também é sinal de empatia. E se não houver empatia, nem nos convide.

- CONHEÇA O TRABALHO DA PESSOA

Eis outro tópico que, por mais incrível que pareça, é subestimado. Por pressão da agenda, muitos acabam chamando convidados sem ter a mínima ideia do que eles realmente fazem, apenas para participar da diversity washing da vez, já que o marketing percebeu a importância da diversidade antes de todo mundo. Se não quiser passar vergonha, estude o que a pessoa fez, o que faz, como chegou até ali, e também formule perguntas que possam servir para extrair a visão de mundo da pessoa. Esse processo tem vários nomes. Na minha área, costumamos chamar de jornalismo.

- MICROFONE NÃO É CHIBATA

Esqueça as tentativas de estilo pinga-fogo emuladas por talk-shows afora e youtubers adentro. Como a intenção não é conseguir um furo ou a revelação de um crime, o homenageado da vez não precisa ser violentamente ofendido com perguntas grosseiras disfarçadas de provocação apenas para servir de “pimenta” para o público. Esse tipo de atitude revela muito mais sobre o provocador do que sobre o provocado, e é algo que já vem sendo muito bem feito nos programas policialescos, onde nós já somos bastante sabatinados.

- CONTORNE A PAUTA “RACISMO”

Ser confrontado a todo momento com perguntas como “você já sofreu racismo?” só expõe o analfabetismo racial do perguntante. Além disso, falar sobre racismo não é algo como falar do seu sorvete preferido. É uma ferida aberta, dolorosa e que não nos torna especialistas no assunto só porque sofremos com ele. Se a pessoa se sente à vontade para falar essencialmente sobre isso em geral ou de algum caso que ela mesmo tenha sofrido, ela mesma alertará para isso. E isso nos leva ao próximo tópico.

- NÃO, NÃO CHORES MAIS

Racismo é um assunto que causa um misto de revolta e tristeza bem difícil de ser relatado com palavras, seja em quem sofre ou em quem presencia (em menor grau, logicamente). Por isso, a emoção mais natural que se possa ter nesse momento é… chorar. Porém, quando uma pessoa branca chora ao ouvir um relato de racismo em algum evento, ela rouba as atenções para ela, mesmo que não queira. Afinal, o choro de uma pessoa branca, na hierarquia racial, vale muito mais do que o de uma pessoa negra e também, geralmente, leva ao comentário que deveria ser banido do universo para todo sempre: “A humanidade deu errado.” Nós sabemos o que exatamente deu errado na humanidade.

Por isso, fica aqui a dica: ao se emocionar com relatos sobre racismo, engula o choro. E não é nada pessoal, é uma questão puramente técnica, sem ressentimentos. Se nós precisamos fazer isso o tempo todo, você também consegue.

- O BÍBLICO “NÃO ROUBAR”

Você sabe qual é a diferença entre o pirata e o corsário? O pirata faz pilhagem. O corsário, idem, mas de crachá. O corsário rouba para o seu rei e, por isso, não é visto como um marginal. Quando uma pessoa negra é roubada ou plagiada claramente por alguém, fica mais fácil de enxergar o roubo, mas, quando ela participa de alguma atividade em que gera conteúdo, é bem comum que o que ela falou seja aproveitado pelas pessoas ou pela associação, praticamente na íntegra, e sem citar nunca mais a fonte. Convidar uma pessoa negra para falar sobre algo e depois roubar as suas ideias é o corsarianismo perfeito. Não façam isso, porque é feio, muito feio. E criminoso.

- CIFRAS PRIMEIRO

Gerar conteúdo — inclusive intelectual — é trabalho, acreditem. E, como qualquer trabalho no Brasil pós-Lei Áurea, precisa ser pago. Porém, os dedos que aparecem quando se trata de remuneração nesse período são milhares. Parece que é pecado falar de dinheiro e, geralmente, é a última coisa em que se toca no assunto quando surge um convite. Por isso, proponho uma inversão do jogo: fale do dinheiro/budget/bufunfa disponível logo de cara e, depois, detalhe a proposta. É claro que nem todo tipo de participação precisa ser remunerada, principalmente, quando envolve instituições de ensino gratuito. Já para grandes instituições e empresas não deveria ser tabu falar sobre isso. O Brasil tem nas costas 388 anos de trabalho qualificado não pago realizado por quem veio antes de nós para os seus antepassados. Não precisamos engrossar ainda mais essa conta.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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