Image for post
Image for post
Image for post
Image for post

Música clássica do subúrbio

Ressignificando territórios por meio da música

Já havia um plano e uma data para a publicação dessa matéria que fala sobre arte, riqueza cultural da periferia e também sobre a história de Jefferson Plácido, um músico visionário e agitador cultural, que vislumbra um oceano de possibilidades quando o assunto é produção artística suburbana. Aliás, essa será a primeira de uma leva de histórias bem sucedidas do subúrbio que pretendo apresentar.

Não consegui subir a matéria a tempo. Mas, como o acaso pouco tem a ver com as vivências negras, penso que trazer esse assunto agora pode ajudar a acalentar corações carentes de beleza, de esperança, de arte e, principalmente, de sonhos. Com Música Clássica do Subúrbio, sugiro que deixem um pouco de lado os pensamentos de “pandemia”, “Corona Vírus”, “isolamento” e “medo” e se deixem levar pela história de Jefferson Plácido e o samba-jazz do subúrbio.

Quando deliberava sobre qual tema escolher para minha contribuição intelectual mensal para o Coletivo Pretaria imaginei em quantas pessoas poderiam demonstrar algum estranhamento ao ler esse título: Música Clássica do Subúrbio. E foi nesse momento que me empolguei mais ainda, pois, qual seria a minha missão aqui se não causar indagações ou sugerir novas linhas de pensamento? Pois bem senhores (as) é isso! Música Clássica que vem do periférico, mas, que nada se assemelha ao erudito ao qual estamos habituados. Com Música Clássica do Subúrbio — termo que não foi criado por mim. Logo, chegaremos ao autor dessa expressão — quero falar do que é marcante na Zona Norte, do emblemático, inesquecível, da relíquia consumida no celeiro cultural mais potente das metrópoles: a perifa! E o que poderia haver de mais suburbano numa configuração musical suburbana senão o Jazz?

Criador do Irajazz e líder da banda Samba Nonsense, que tem como objetivo ressignificar territórios e expandir o leque de opções culturais para as pessoas do subúrbio por meio da música, Jefferson Plácido, uma figura totalmente positive vibration, nos conta um pouco sobre ele: “Tenho idade imatura para o amor, 36 primaveras, virginiano, devoto de Nossa Senhora da Penha, cria do Bairro da Penha, atualmente morando no Irajá, filho de uma Rainha Preta e um Nordestino retirante, regido por Oxalá e Iemanjá, pai de um moleque lindo, chamado Marianno.”

Image for post
Image for post

Como na maioria das linhagens genealógicas das famílias negras, a estrada pregressa costurada pela ancestralidade deixa tesouros pelo caminho e, claro, com Jefferson Plácido não foi diferente. A musicalidade esteve presente em pelo menos duas gerações antes dele. Olha essa história. “Meus pais não são músicos, mas o meu avô por parte de mãe era negro, deu instrumento para todos os filhos, uma coisa bem legal, então, sempre teve música nas festas da família. Tem meu tio Isaac, que era violonista do Pagoresta e sempre deixou o violão lá para gente brincar. Só que a gente sempre foi muito revoltado, escutava muito Radio Against The Machine, punk rock pra caramba, Ratos de Porão, enfim, sempre teve um pensamento muito anarquista. Sou aluno do Pedro II, onde conheci realmente o que é cultura (…) Eu tive uma professora que era da família Oiticica, então, ela mostrou o que era arte, o que era o Parangolés, e aí você começa a frequentar CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), Casa França-Brasil e acaba tendo mais uma apuração do que é arte, de gosto musical etc…sempre fomos muito pobres na família, mas a música entrou através dos meus tios. Minha mãe, que escutava muito Alcione, D. Ivone Lara, Jovelina, muito samba…e meu pai trouxe uma influência totalmente nordestina para mim, de Luiz Gonzaga, Patativa, João do Pife, que era da região dele, lá de Bonito (Pernambuco), essa coisa do Maracatu…e aí a gente vem selecionando o que a gente vai escutando, vai conhecendo outras coisas, até esbarrar em Coltrane, Thelonious Monk, Herbie Hancock, uma galera que faz um jazz….”

“Os grandes financiadores da música do subúrbio é uma galera que é marginalizada.”

A história de amor entre Jefferson e o jazz começou desde o dia em que o futuro músico fora apresentado ao piano:

Image for post
Image for post

‘Descobri o jazz por causa de uma banda de samba rock que eu tinha e onde a gente botava samba rock com jazz, direto. Logo depois que eu fui papai eu decidi aprender a tocar piano porque eu tinha tocado piano na casa de um amigo… ‘Caraca, que instrumento maravilhoso e tal!’…comprei um tecladinho. O jazz chegou na minha vida através do Thelonious Monk, um vinil que eu peguei dele na casa do Daniel Carlos, na Abolição…um cara que eu tenho como suprassumo da linguagem e que ensinou bastante coisa e de lá para cá eu vi que não tinha outra possibilidade a não ser ir a fundo no jazz.

Em sua fala, o pianista traça paralelo interessante entre as trajetórias do jazz e do samba e de como há uma distância considerável entre os criadores gêneros e como o estilo é consumido de uma forma geral. “Desde moleque eu já ia ao Cacique de Ramos. Cheguei a ver Luiz Carlos da Vila, Esguleba, Renatinho Partideiro entre outros ali comunicando, fazendo partido alto… cheguei a fazer disco com o Nelson Cebola, um dos maiores partideiros (andou com Madame Satã e uma galera do Irajá) (…) É como o samba aqui. Se você for pegar hoje todo mundo é bonitinho, mas o samba é daqui, do olho do furacão: de Irajá, de Madureira, Cascadura, Oswaldo Cruz… Pouca gente sabe disso, mas o Walt Disney já teve dentro da Portela conversando com Paulo da Portela! Então, é isso! É o samba, é o jazz, é o subúrbio, é a raiz! O resto é apropriação!”

Image for post
Image for post

“Então, é isso! É o samba, é o jazz, é o subúrbio, é a raiz! O resto é apropriação!”

Durante o bate-papo com Jefferson me interessou muito saber como a galera da Zona Norte recebe o jazz e sua proposta de desconstrução do gênero.

Aspas “O público fica maravilhado. Até me arrepio… como na roda de samba, que todo mundo canta de olho fechado.”

O Irajazz acontece todo mês no Grão Co-working, um espaço de colaboração onde vários empreendedores incubam seus projetos. Passada a fase de reclusão e de isolamento social, taí uma programação de responsa: Jazz no subúrbio com a banda Samba Nonsense!

Written by

Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store