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Mais do mesmo malvado e caquético racismo

Nos últimos dias, arremessaram, a partir de grandes veículos, o mais flagrante sintoma do racismo e do classismo em pretes perifériques e nas redes: aquela frase, aquela impressão, aquele “saiu sem querer”, aquele erro difícil de admitir que é racismo — que tem várias dimensões e tentáculos: estrutural, institucional, recreativo, ambiental, territorial,... Cometer atitudes racistas faz do Brasil, Brasil.

Nathália, youtuber do canal de educação financeira Finanças com a Nath e estudante de administração, foi convidada pelo Mamilos Podcast — o qual sou ouvinte — , apresentado pelas jornalistas Cris Bartis (que é uma querida, somos amigas) e Juliana Wallauer — um dos mais ouvidos podcasts do país. São tudo isso e erraram. Muito. Rude. Eis o thread de sua conta no Twitter:

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Thread do Twitter de Nath Finanças

O programa, que foi apagado a pedido de Nathália, foi publicado nos agregadores de podcast e a chamada era “Hoje vamos receber ‘Fulano’, o Primo Rico, e Nath Finanças, a Prima Pobre”, ou algo que o valha, sem que ela soubesse que seria um “embate” de realidades. E mais: reeditando um tipo de humor decadente, direcionado a uma mulher preta periférica, que auxilia sua comunidade sócio-étnica-racial em fazer o pouco render, conferir dignidade, subsistência e planos a pretes das periferias. Financista ALGUM — logicamente devem existir pouquíssimas exceções — poderá dimensionar vidas as quais ele não tem qualquer relação ou entendimento. A tal ponto que existem favelas e comunidades com moeda e produtos financeiros PRÓPRIOS, justamente para movimentar a economia periférica, que sempre é preterida pelas oligarquias do mercado financeiro. Quem é prete sabe que, se você não for funcionário público, mostrar a cara preta em um banco e pedir um empréstimo para pagar as contas do sufocante começo do ano ou para investir no próprio negócio é certeza de negativação. E sabemos BEM o porquê.

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Início do thread de Mamilos Podcast no Twitter.

A experiência preta é cercada por episódios como esses. Cotidianos. Diuturnos. Individual ou coletivamente. Uma vez eu disse em letras garrafais em um post de um amigo branco aliado antirracista que MEU FILHO DE 10 ANOS NÃO PODE CORRER NA RUA SENÃO ELE PODE LEVAR UM TIRO. Essa é uma das orientações, NÃO CORRA. Uma mulher branca fascistoide disse que eu comentar em caixa alta só a deixava “com mais raiva ainda”. #whitepeopleproblems

Eu não havia me dirigido a ela. E ela não alcançou, não alcança e provavelmente jamais alcançará que utilizar caixa alta, naquele contexto, DENUNCIA O TOM DO DESESPERO E DA PRESSA QUE NÓS, MÃES PRETAS, TEMOS.

E não somente nós, mães pretas: tode e qualquer prete. A cor da nossa pele, nosso CEP, nossa inserção social, nossa maneira de falar, enfim, qualquer indicador que acenda o alerta da branquidade nesse país, é sentença. Muitas vezes não dá tempo sequer de abrir a boca e explicar seja lá o que for. Porque o racismo nos confina ao eterno lugar de subalternidade, de matabilidade física e/ou simbólica. Quando a boca branca abre em nossa direção, o estrago é quase sempre certo.

Estamos em constante confronto em relação à estrutura que nos oprime. Nunca estamos — ou estivemos, ou estaremos — prontos para essas investidas altamente violentas. Porque são inacreditavelmente perversas. Porém, devemos ter e dar respostas à altura SEMPRE.

São 520 anos de aprendizados e estratégias de sobrevivência, turbinados nessas duas últimas décadas, com as ações afirmativas e nossa consequente conquista de espaços em que não éramos permitidos tacitamente de estar.

Esse ódio, essa raiva, essa sanha que a branquidade e o racismo dirigem à população negra (preta e parda) vêm dessas movimentações radicais por dignidade que disputamos nos espaços de poder. Mais fundamentalmente: disputando espaço para as nossas existências e vozes no mundo, onde quer que estejamos.

Existe cristalizado no modus operandi do racista a ideia clara de que NÃO PODEMOS ESTAR EM DETERMINADOS ESPAÇOS. E, caso estejamos, é reto e certo, lá em sua rede simbólica, que somos necessariamente uma peça em prol da manutenção e funcionamento das engrenagens, que garantem seus privilégios. O incômodo é estrutural.

Sentem-se absolutamente permitidos — consciente ou inconscientemente, não importa, é uma construção sofisticada — de manifestarem racismo. “Não sei qual o problema do que eu disse. Minha opinião, ué!” dizem os declaradamente racistas. Ou “Não houve racismo, nunca escondi minha origem humilde” (!!!), disse o jornalista Rodrigo Bocardi, tentando justificar sua abordagem indiscutivelmente racista, quando ao invés de dizer, por exemplo, “Olha! Vejo que está vestindo uma camisa do Clube Pinheiros!”, na intenção de permitir que o jovem preto pudesse oferecer a sua história, A SUA VOZ, impôs o lugar mais óbvio para ele: é um gandula, pegador de bolinhas. O racismo é apressado, (parece) burro, ele opera nos estereótipos, somente enxerga uma conjunção de signos que deflagra a bomba que detona vidas.

Rodrigo Bocardi, jornalista da TV Globo, sendo racista.

Temos sempre trabalho dobrado para mantermos nossa dignidade e o que conquistamos. Temos que ler todos os brancos quando acessamos a academia e es pretes e abordagens interseccionais em paralelo, para que possamos formar o estofo necessário para darmos conta do mundo. Precisamos de imersão em nossa ancestralidade para que estejamos preparades física, psicológica e existencialmente para essas investidas.

O futuro das comunicações depende intrinsecamente do olhar que se tem DAS MARGENS. A comunicação é SOCIAL e tem o dever de ser CIDADÃ. Mas o jornalismo, o senhor da Casa Grande das comunicações, é a estrutura mais difícil de promover fissuras para que os discursos aliem-se e auxiliem na diminuição desse horror racista.

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Há de se tensionar o planeta para que caibamos todes, mas sobretudo o campo das representações nas comunicações, por estarem amalgamadas com a cultura, com os costumes, com as redes simbólicas, com os imaginários. Existem avanços, ainda que tímidos — e um tanto equivocados — , em algumas de suas vertentes, como o recente pacto assinado entre algumas agências de propaganda e o Ministério Público do Trabalho em São Paulo, a fim de garantir maior contratação de negres na publicidade — mas e as narrativas? E os discursos? E o clima organizacional das empresas, entendido como microcosmos étnico-racial e social? E os processos de trabalho?; o fortalecimento, embora incipiente, porém firme, das realizadoras e realizadores do campo audiovisual, especificamente do Cinema Negro que vem sendo território de transformações e vanguardas irreversíveis.

São movimentos que partem das nossas e dos nossos desde a fundação desse país, desde quando fomos violentados a fincar os pés nessa terra usurpada. Para que se compreenda nossas camadas, nossas dimensões, nossas tecnologias sociais, nossas estratégias que construíram esse país — porém alienaram, silenciaram, apagaram nossos feitos e nossas participações decisivas — é preciso ampliar o letramento e os repertórios raciais interseccionando-os e COLOCANDO-OS NO CENTRO. Não há outra saída.

Então, branquidade: melhore. Racismo é um sistema de opressão construído por vocês. Desativem essa bomba vocês. Sugiro ler autoras e autores negros. Sugiro escuta ativa. Sugiro enxergar e interpretar o cotidiano e as margens através de outras lentes. Sugiro desenvolver capacidade de entender que nós, pretes, somos a saída para a maioria dos problemas do Brasil. Porque conhecemos o gabarito desse pedaço de chão.

Quem tem medo de ser antirracista?

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