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Maria Firmina dos Reis | Fonte: Memorial Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis: silêncio, justiça e intelectualidade negrofeminina no Brasil de hoje (e dos Oitocentos)

Não sei como escrever uma coluna, tampouco o quê. Talvez o texto a seguir não esteja de todo escrito e reflita apenas uma ideia. Ou várias, ou nenhuma. Entretanto, e exatamente por isso, coloco-me aqui e alguma palavra própria, ou melhor, hoje e apenas hoje, pertença, a serviço de reconhecer, visibilizar e reparar intelectualidades e saberes daí advindos negligenciados. Iniciando para não concluir, leia-se esgotar, e admitindo a inabilidade em saber introduzir temas — vivenciar meios e fins à exaustão afasta-me dos inícios -, penso rapidamente sobre Maria Firmina dos Reis (1822–1917), a pretautora maranhense do romance e prosa romanesca inaugural do abolicionismo e da escrita de autoria feminina afro-brasileiros, e o apagamento sistemático da produção intelectual de uma vida, a sua, como base do pensamento social brasileiro.

Defendendo-se de eventuais críticas e riscos inerentes a uma mulher, sobretudo negra, filha da mulata forra Leonor Felipa, de posse da palavra enquanto instrumento assenhoreador da própria dignidade/identidade como pensante, dos Reis ocultou a própria autoria de “Úrsula” (Typographia do Progresso, 1859), o único da carreira, reivindicando apenas seu gênero e, sim, nacionalidade — considerando-se falante da língua brasileira dos pais — com o epíteto de “Uma maranhense”. A ousadia da empreitada, no entanto, revelaria já no prólogo o contexto da educação de meninas e mulheres no Brasil imperial oitocentista de fins da primeira metade desse século XIX, bem como a situação da mulher autora no mesmo período, alvo do riso mofador e indiferentismo glacial dos egrégios homens brancos ilustrados (in)formadores das opiniões e sentidos mais relevantes de compreensão do país nascente, mas perdido nas ilusões de ser, esperar ser e não ser de fato o imaginado para si. Temendo-os ambos, e apesar de tanto, ainda assim, Firmina deu-se a lume e a entendimento dissidente acerca do Brasil colonial, escravizado e escravizador de civilização outra sequestrada de territórios continentais (negroafricanos) de além-mar, seu presente, passado e futuro inventados primeiro pelo invasor português e, depois, por descendentes e burocratas interessados na continuidade de categoria diversa da dominação que não a externa, embora aprendida e replicada sob cores mais locais.

A mestra régia, a primeira aprovada em concurso do Estado (do Maranhão) para a carreira de magistério como instrutora primária, combinara a carreira pública/profissional e atividade artística/intelectual, esta segunda, inclusive já pregressa a “Úrsula” e relativamente conhecida no cenário jornalístico local — conforme atestam licenças de pedidos de afastamento de até um ano da atuação docente no ensino público maranhense, de acordo com Fernanda Rodrigues Miranda em estudo doutoral hoje publicado com o título de Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859–2006) (Editora Malê, 2019) -, com acuidade e presteza. Elogiada, em 1860 — portanto, um ano após o romance editado, publicado, resenhado e editado, mesmo pronto desde 1857 -, Firmina contribuiria com alguns de seus poemas para o semanário A imprensa — os primeiros assinados com as iniciais M.F.R. e alguns deles integrantes da antologia poética regional Parnaso maranhense (1861) — e veria “Gupeva”, conto indianista, publicado e republicado, em 1861, 1863 e 1865, respectivamente, no Jardim das maranhenses, Porto livre e Eco da juventude, veículos de expressão no meio. Em 1871, “Cantos à beira mar” (Tipografia do Paiz) compilaria sua produção escrita em versos. “A escrava”, de 1887 e publicado no terceiro número da Revista maranhense, seria o libelo abolicionista e antiescravocrata mais contundente da autora, além de última publicação reconhecida da maranhense, não obstante atividade jornalística continuada até 1903, igualmente aposentada do magistério — efetivado em 1880. Sobre isto, vale destacar que a iniciativa da fundação de uma escola mista (inclusiva para meninas) e gratuita em Maçaricó, pioneira no Maranhão e no país por um longo período, realizada já na aposentadoria, perduraria até 1890, quando teve de ser fechada por falta de verbas de manutenção e altercações no vilarejo -.

A intelectual, morta em 1917, cega e pobre, experimentaria silêncio mofador em torno de sua obra até 1975, quando o professor, ativista e militante antirracista negro José Nascimento Morais Filho engajara-se no trabalho de produção e publicação de “Maria Firmina: fragmentos de uma vida” (1975), estudo biográfico reabilitador de parte do corpus artístico firminiano e passo fundamental ao movimento hoje em curso de construção da fortuna crítica a este respeito. No prólogo do romance pioneiro, dos Reis pedia que, se criticado, “Úrsula” fosse bem recebido como intento conquanto preliminar de uma mulher de parca ilustração porém animada em integrar o círculo intelectual e estímulo a outras mulheres tão desejosas quanto de também o fazê-lo, mas paralisadas pelo medo da rejeição — quando não da escravização, risco em seu caso não descartável, é preciso dizer -. Visionária ou não, a maranhense sabia da força do exemplo para evitar o risco da solidão e, pior, do silêncio sobre si e grupos igualmente subtraídos em justiça/humanidade. Como forma de quebrá-lo e desvelar os sistemas historicamente construídos de dominação/opressão/exploração, toda efabulação discursiva acerca da inferioridade, indignidade, subalternidade e ancestralidade dos povos africanos/em diáspora e sentidos inferidamente únicos de compreensão da pátria história (branca, masculina e cis-heteronormativa) nacional na informação de outros, porque internos e plurais, Firmina dos Reis fora punida. Passados 160 anos, com “Úrsula” sendo inclusive leitura obrigatória de concurso vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o indiferentismo racista implicitamente aventado por Maria Firmina nos oitocentos sucumbiu ao riso reparador da justiça por sua figura enfim reabilitada como intelectual informadora e desmobilizadora dos sentidos colonialistas, escravocratas e (cis-hétero)patriarcais por que o Brasil, e seus vários países, foi/foram construído/s.

Seu vasto oceano negro ainda se levanta, orgulho e esperança das e dos descendentes e dos sonhos daquelas/es sequestrades.

Sigamos.

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