“Megxit”: os infalíveis tentáculos do racismo alcançam lugares e não-lugares

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Príncipe Harry e Meghan Markel, até a data desta publicação Duque e Duquesa de Sussex, respectivamente, casal que compõe o alto escalão da família real britânica, deixaram claras, em declarações públicas para jornais e publicadas em suas redes sociais, suas intenções de se distanciarem das funções de altos membros do império da Grã-Bretanha. Em seus comunicados relatam que decisão diz respeito à vontade de eles se tornarem independentes tanto das exigências sociais e liturgias que os cargos estabelecem quanto financeiramente, como forma de atender a um estilo de vida em que os dois prezem pela autonomia de serem e existirem. Porém, quaisquer de nós, pretes, que estejamos despertos das amarras do colonialismo e suas consequências mortíferas — de corpos e subjetividades — sabemos, na real, do que se trata.

Prof.ª Dr.ª Aza Njeri, mãe, mulherista africana, pesquisadora e orientadora de pós-graduação do Laboratório Geru Maã/UFRJ, afirma, em sua epistemologia sobre genocídio e racismos, que se trata de um monstro social altamente sofisticado, composto de inúmeros tentáculos, de modo que sempre alcança seu objetivo destrutivo e/ou destitutivo. Ela diz:

Reiterando o que foi dito nesta brilhante perspectiva intelectual, é fato que, diferente do que se possa imaginar, não existe blindagem para que o(s) racismo(s) se manifeste(m) e cause(m) mortes físicas e simbólicas. Seja no lugar em que a racialização, a colonialidade, os imperialismos, o cisheteropatriarcado capitalista ocidental — e as interseccionalidades decorrentes: classismo, etarismo, misoginia, machismo, lgbtfobia,… — relegaram às afrodiaspóricas e aos afrodiaspóricos, seja no lugar “fora do script”, alcançado pelo destaque na intelectualidade, pelo sucesso no empreendedorismo ou mesmo pelos contratos matrimoniais: não há saída, proteção ou livramento possíveis.

Afrodiapóricas e afrodiaspóricos reconhecem este fato atavicamente. No caso de Meghan, sequer lançar mão de mecanismos de aceitação social como o “passing” é possível em uma sociedade de maioria branca DE FATO. No Brasil certamente conseguiria êxito nisso, caso fosse de sua vontade. Vemos isso de forma recorrente. É duro levantar essa dimensão e fazer esse tipo de afirmação, porém o colorismo nas Américas, e penso que no mundo, é uma realidade e precisa ser profundamente discutida, inclusive enquanto ponto de tensão e dentro da própria comunidade negra, que gera impacto negativo entre nós e nas sociedades em que temos relevância demográfica. Ainda não chegamos na profundidade que precisamos nesse assunto.

Afua Hirsch escreveu brilhante artigo para o The New York Times, traduzido e publicado no Estadão, que parece ter sido entendido apenas por pretes decoloniais e aliades antirracistas mundo afora. A mídia britânica não entendeu, o que não é propriamente uma novidade, uma vez que as questões étnico-raciais pouco são objeto de discussão ampla nas academias, nos veículos de comunicação, na literatura, na sociedade, um déficit conhecido nas sociedades europeias. Destaco dois parágrafos fundamentais:

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Acredito que são linhas que dão a dimensão do cenário e da visão de mundo colonial/imperialista/capitalista/euro-caucasiana/ocidental, de tônica fundamentalmente racista, há séculos. Diferentemente do que acontece no Brasil, onde estamos desemaranhando o mito da democracia racial, considerando os atravessamentos históricos, fortalecendo as políticas de equidade racial e, mesmo com a perversidade da ditadura e do fascismo, de ontem e de hoje, permanecemos a fazer força para frear os retrocessos e administrar danos, na Grã-Bretanha — como em toda a Europa — sequer essas correlações de força são colocadas da forma que deveriam, muito por conta de serem o epicentro que reverberou essa visão de mundo vigente, que produz aberrações como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Boris Johnson. Com efeito, como dariam conta de uma fissura racial logo nas entranhas da monarquia inglesa? Mataram Diana, mulher imersa em privilégios, mãe do futuro da coroa, por MUITO menos.

Desde a divulgação do namoro, passando pelo casamento e pelo filhondo casal — chamado de macaco nos tabloides ingleses — houve nítida e indiscutível progressão nas violências dirigidas a Meghan Markel e o que ela representa. A estratégia e o movimento de escape de Meghan e Harry apontam para uma atitude de quem CONHECE a magnitude das ameaças dirigidas e quais são as “necroconsequências” devastadoras.

Somente quando entendermos que a fonte irrefutável de toda a sordidez das relações humanas e, consequentemente, da construção das identidades nacionais — fortalecidas pelo capitalismo — em detrimento das identidades culturais e liberdades individuais, tendo como evento constitutivo a racialização perpetrada pela branquidade, começaremos, então, a entender o que significam os retrocessos que estão em curso. Precisamos entender, no Brasil e no mundo, a importância de colocarmos a pauta racial NO CENTRO.

O que para a branquidade é “sísmico” para nós, afrodiaspóricos, é o caso de assistir à queda enquanto caminhamos sobre essas ruínas, o que sempre fizemos a despeito de todos os muros brancos erguidos, já que “a liberdade é uma luta constante”.

Realmente, Afua: nenhuma surpresa para nós.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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