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Cartaz “Supa Modo” (2018)

Nós podemos ser heróis apenas por um dia?

O cinema fabrica sonhos. Muito além de ser apenas uma rentável indústria, o cinema é uma das maneiras contemporâneas de como nossas sociedades fabulam o que nos é real. O próprio maquinário que faz o cinema possível é resultado do sonho de inúmeros artistas que tentaram capturar e reproduzir o real no decorrer da história. O cinema apenas existe porque é um desejo coletivo nosso.

Sabemos que, nas sociedades capitalizadas em que vivemos, fazer um sonho se tornar realidade custa caro, o que faz com que encontremos acalento para nossos desejos na projeção do cinema. Mocinhos, mocinhas, vilões, galãs, divas, capangas, coadjuvantes, protagonistas, heróis e heroínas são representações em telas de nossas complexas humanidades. Infelizmente, o cinema, muitas vezes, é um jogo de cartas marcadas, onde os papéis já estão pré-definidos há muito tempo em nome lucro e mérito de poucos. Porém, esse jogo vem sendo mudado recentemente.

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Novas heroínas em cena

Novas marés navegadas por astutos navegantes trazem outros ares para o cenário do cinema, distribuindo de uma forma mais diversa esses papéis, ou até mesmo ateando fogo em antigos estereótipos e arquétipos. Dentro dessa nova correnteza que direciona o cinema contemporâneo temos o advento dos cinemas negros, produções encabeçadas por pessoas negras, fazendo cinema para pessoas negras em coletivo e no plural.

Tentando afastar o patriarcalismo de um cinema centrado na figura do homem branco, estas novas cinematografias contemporâneas questionam a maneira de se fazer cinema abolindo com cárceres estéticos, narrativos e políticos inerentes ao cinema. Tais rupturas são plurais, minando instituições caducas em diversas frentes e não pretendem trocar uma doutrina pela outra; o que é muito caro para esse movimento, porque este mais preza pela abundância conflitante do que a escassez perspectiva de outrora.

Grande determinante da pluralidade divergente dessa polifonia de vozes está na personagem do herói: para uns, aboli-los é marco de ruptura, para outros um potente aliado. Para se ter ideia, no marco coletivo da gênese do cinema negro brasileiro, o Dogma Feijoada — que completou 20 anos em 2020 –, Jefferson De postula “devem ser evitados os super-heróis e/ou bandidos”; o sucesso, não só de bilheteria, do fenômeno Pantera Negra (2018) é um atestado de que os heróis podem ser bem-vindos.

Será que uma população que viveu séculos relegada às margens e confins das telas de cinema não merecem, agora, se projetarem nos seus próprios heróis? Será que nós podemos ser heróis apenas por um dia? Likarion Wainaina e seu filme Supa Modo (2018) nos dizem que sim.

Jo é uma menininha queniana que sofre com uma doença terminal e tem como um dos poucos afagos assistir a filmes de ação de super-heróis. Com muita insistência da mãe, a menina consegue voltar para casa, mesmo ainda sob risco médico. Fantasiar-se como uma super-heroína é a forma que Jo encontra para fintar a sua dura realidade. Assim, a menina imagina ter superpoderes para enfeitar a sua enferma vida, em seu restrito cotidiano em casa. Os superpoderes de Jo aqui atuam como possibilidade de ser invulnerável à doença que a assola. A imaginação é sua esperança.

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O sonho da pequena Jo

Notando que a fixação da menina no universo dos heróis era o que alegrava a sua vida, sua irmã mais velha, Mwix, tenta transformar o seu faz de contas em realidade. Confabulando com todos de seu pequeno povoado, ela começa a organizar situações onde Jo salva o dia usando seus “superpoderes”. Como na magistral cena da feira, onde a menina, para resgatar a bolsa de sua irmã de um assaltante, para o tempo, congelando os mercantes e o assaltante. Nessa cena vemos a comoção de toda sua comunidade ao fabular junto com a menina o seu sonho de ser heroína, de ir além de sua vida mundana.

Com o tempo, Jo descobre os planos da irmã, mas não se desaponta em saber que todos encenavam aquelas situações. Jo não tem dúvidas de seus poderes. Tanto que ela aproveita o momento para realizar seu sonho — provavelmente a última chance: gravar um filme de super-herói de verdade. Apesar do susto com o desejo da menina, todo o povoado aceita essa missão e começam a filmar as aventuras de Supa Modo.

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Supa Modo lutando pelo o futuro

Na narrativa de sua ficção, os vilões que Supa Modo enfrenta estão sequestrando as crianças de seu povo. Num rasgo entre ficção sob ficção, Supa Modo luta pelo amanhã de seu povoado, como diz um provérbio das tradições banto: “sem infância uma comunidade não tem futuro”. São as crianças que nos dão esperança de sonhar.

Jo é a heroína que precisamos. Não por seus super poderes, mas, sim, por sua capacidade heroica de unir e partilhar sentido entre a comunidade. Não precisamos de heroínas e heróis que nos salvem de nossos problemas, precisamos de pessoas que nos façam desejar e acreditar em nossos sonhos novamente, para podermos fabular, juntos, uma outra forma de comunidade. A magia dos poderes de Supa Modo está na impossibilidade de sermos descrentes na existência do impossível: é essa fagulha que ela acende em nós, fazendo despertar o herói que está dentro de cada um de nós, mesmo que apenas por um dia.

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Não dá pra salvar o dia só

Supa Modo é o filme que precisamos, um filme de esperança e possibilidade. Um filme para crianças, para adultos e para famílias. Um filme sobre uma heroína possível, não por seus super poderes, mas, sim, pelo que ela consegue faz por nós. Supa Modo é um filme que nos faz sonhar e acreditar num cinema que seja encantador por sua capacidade de entretenimento e inspirador por sua potência de aquilombamento. Os cinemas negros, agindo como quilombos, são os que cultivam o sentido de uma comunidade.

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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