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“Negro Linked Fate”: O Vínculo Racial na história de “Queen & Slim” e nas nossas histórias sequestradas

Em qual medida as pessoas sentem que o que acontece com membros de seu próprio grupo racial ou étnico afeta o que acontece em suas próprias vidas? Essa é uma questão comum em quaisquer grupos?

Essas sempre foram questões que me afetaram profundamente. Sobretudo por ser afrodiaspórica, inserida em uma sociedade de estrutura racista, estando submetida a toda sorte de violências simbólicas e testemunhando mortes físicas de seres humanos como eu, que são assassinados pelo Estado ou por qualquer pessoa que se sinta ameaçada simplesmente por serem quem são: pessoas pretas.

Depois que me tornei mãe de um menino negro tudo se tornou ainda mais grave dentro de mim. As possibilidades cresceram exponencialmente. É viver uma vida em que não tenha um dia que eu não pense no perigo real e imediato de sermos atingidos covardemente.

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Da esquerda para a direita: Jodie Turner-Smith, Melina Matsoukas, Daniel Kaluuya e Lena Waithe.

Durante o carnaval eu assisti ao filme “Queen & Slim”, com Daniel Kaluuya e Jodie Turner-Smith como protagonistas, dirigido por Melina Matsoukas, roteiro de Lena Waithe, a partir da história escrita por James Frey. Cinema Negro em toda sua pujança realizadora. Mulheres Negras na linha.

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O filme segue uma premissa fabular simples, do cotidiano: uma mulher negra (Queen) entra no Tinder na intenção de encontrar alguém para uma saída casual. Não há expectativa de romance. O encontro com Slim acontece em um dinner, bem estilo americano, e ele sugeriu aquele lugar por ser black-owned venue, ou seja, o proprietário do dinner é preto.

Até que acontece o plot twist do filme, uma reviravolta tão somente para certos expectadores. Para mim e para qualquer pessoa preta não causou espécie, mas não surpresa: saem do dinner, são parados por um policial racista. Não adiantou ela dizer que era advogada. Não adiantou ele não ter consumido bebida alcoólica — aliás, ele não consome nunca bebida alcoólica, “como assim?” — ou estar com a documentação do carro em dia. Para o policial racista sempre existe algo que não vai bem. E se estiver tudo certo, nada mais natural que exercer domínio supremacista, exceder no poder que a farda confere, utilizar de violência sem qualquer motivo. Apenas pelo fato de se tratar de pessoas pretas. A partir daí a história percorre seu curso.

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Este texto não é uma crítica do filme, por isso não vou pormenorizar a peça fílmica, mas quero destacar do que se trata o filme. A história terminaria em no máximo 15 minutos de exibição, com um desfecho bastante óbvio, se não fosse o NEGRO LINKED FATE, que resultou em uma produção de 132 minutos. Foi o vínculo racial em situações limite que fizeram dessa uma história de amor e coragem. As personagens Queen e Slim me lembraram, em certa medida, Anta e Mory de Touki-bouki, A viagem da hiena, de Djibril Diop Mambéty (1973) que, por motivos diferentes, embarcam em uma viagem a dois, muito cúmplices, comprometidos, com o mesmo amor e coragem.

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Prof.ª Dr.ª Gladys L. Mitchell-Walthour

A primeira vez que ouvi falar em NEGRO LINKED FATE foi no I Seminário Internacional: Raça e Política no Brasil, oferecido pelo GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa). Na ocasião, a Prof.ª Dr.ª Gladys L. Mitchell-Walthour, da University of Wisconsin, Milwaukee, demonstrou sua pesquisa em relação ao comportamento político des brasileires.

Conhecido entre os pesquisadores como “destino vinculado”, esse senso de conexão foi originalmente usado para explicar os padrões persistentes do bloco de votação democrata entre os americanos negros. Mais recentemente, foi usado para examinar não apenas o quanto os negros americanos estão intimamente ligados um ao outro, mas também a conexão entre outros grupos raciais.

Queen e Slim partem rumo à sobrevivência contanto pelo caminho com uma rede de pessoas negras desconhecidas, porém absolutamente identificadas com tudo aquilo que as iguala sob a lógica do perigo compartilhado de um corpo preto no mundo. Só quem é prete, sabe. É o não dito. A gente se fala no olhar. Codificação por atavismo, que a história e a ancestralidade definem a conexão.

É disso que se trata nossas vidas. Na ficção, no virtual, no atual. Tudo real.

A coluna terminaria por aqui. Mas às vésperas de publicá-la emerge o engodo da série sobre a Marielle Franco. Eu não poderia deixar passar batido. Roteirista branca e diretor fascista. Até para quem chegou na festa só agora ficou muito evidente a quem se destina os loci social e intelecto-laboral da produção cultural no Brasil. Branquidade detém os meios, os recursos, o poder narrativo, a produção e a realização no campo audiovisual, ainda (ou melhor, sobretudo!) que sejam flagrante e instrinsecamente coisa nossa. Não há melhor denominação para isso senão SEQUESTRO, como a Grace Passô muito bem definiu. É semiocídio ontológico (Sodré, Muniz, 2017) que a branquidade insiste em perpetuar!

Dados, números, porcentagens, curvas, indicadores, pesquisas quantitativas são importantes balizadores de mercado e podem ser úteis em um primeiro momento. Mas quando falamos de produção simbólica, de mudança de mentalidade, de interferir decisivamente na cultura, de pensamentos e fazeres decoloniais, de narrativas/fabulações, discursos contra-hegemônicos, antirracistas, epistemologias do sul global realização afrocentrada os números não alcançam, são insuficientes.

A mulher branca que vai escrever a história da Marielle Franco para o homem branco fascista dirigir e a TV golpista produzir/distribuir/exibir fala de repensar estruturas de poder a partir de uma perspectiva essencialmente branca.

Eu estava dia desses, antes de tudo isso eclodir, procurando um conteúdo no Canal Curta no Youtube quando me deparo com esse programete de divulgação de um curso que a roteirista branca da série de Marielle ministraria (ministrou) na Casa do Saber. Convido a assistir para chegarmos a algumas conclusões juntes, é curtinho:

É flagrante como o “feminismo das mulheres brancas” prescinde desavergonhadamente do tecido social que recobre o Brasil, que são das Mulheres Negras, relegando-o a tapete por onde a nação pisa.

Repensar tais estruturas sob a égide grega — desconsiderando que todos esses saberes são keméticos e, portanto, constitutivos de toda a pretitude de áfricas e afrodiásporas — dá o tom de como essa história, QUE É NOSSA, será contada.

As filosofias, lógicas existenciais, cosmologias e cotidianos de afrobrasileiras e ameríndias em seus territórios são inacessíveis, terreno desconhecido, sequer mencionados ou considerados em seu discurso. “Isso se manifesta em outras… se você vai para as pessoas negras, os indígenas, enfim…” É tudo o que consegue discorrer sobre quem somos? Quem sabe somos nós!

Como essa inaptidão histórica, essa nulidade completa a respeito do que é ser mulher preta, pode refletir em uma produção simbólica que dê conta de nossas próprias dimensões de ser e existir? Cadê o NEGRO LINKED FATE, onde começa e onde termina essa interligação, essa conexão, esse entrelaçamento de destinos e sentidos?

Grace Passô fez um post com questionamentos contundentes e absolutamente pertinentes e, no fim, ela diz: “Esse sequestro não pode acontecer.”

Uma outra grande amiga aliada, a jornalista Kamille Viola, disse: “Não param de matar a Marielle.”

Quando falamos “Marielle, presente” estamos falando de NEGRO LINKED FATE. Estamos falando dessa conexão, dessa interligação, desse entrelaçamento de destinos. Estamos falando de CONTINUUM ANCESTRAL. Estamos falando de filosofia UBUNTU. E vou além: por maior e melhor introjetado seja o antirracismo de alguém branco — e veja, não é o caso da roteirista, que já deu em pouquíssimo tempo provas mais que suficientes de que precisa passar urgentemente pela conscientização do racismo em cinco etapas (sigam link da Bela Reis, leiam Grada Kilomba, leiam mulheres negras)—jamais alcançará tais dimensões.

PAREM DE NOS MATAR.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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