NEGUINHO, NEGO, NEGÃO

“Eu sou negão, eu sou negão, meu coração é a liberdade”, entoou o cantor e compositor Gerônimo, no verão de 1986, cravando o “ão” no “nego” como um símbolo de positividade em pleno carnaval baiano, enquanto o país ainda estava na rebarba de uma ditadura branca, violenta e nada segura. Tomando inúmeras citações desde então, o tema foi brilhantemente apropriado e parafraseado por Caetano Veloso em “Eu Sou Neguinha?”, no ano seguinte, cravando o “inha”, também, como um símbolo de positividade tanto racial quanto de orientação sexual.

Nos últimos dias, nós tivemos dois exemplos explícitos, para dizer o mínimo, de como ainda há quem ache que tenha alguma posse — seja literal ou simbólica — sobre alguma pessoa negra por meio dos diminutivos e aumentativos impostos apenas para se rebaixar alguém. O primeiro foi um branquinho de um Brasil retardatário que chamou o heptacampeão mundial de Fórmula 1, o brasileiro honorário Lewis Hamilton, de “neguinho” — o que o fez receber uma bandeirada vermelha à altura da jornalista Aline Midlej: “Ele, como racista que foi e que é, recebeu a resposta que merecia e com uma classe que ele nunca terá, com certeza”. O segundo caso foi o de um brancão que perdeu um contrato de um milhão de reais por ter chamado o empresário Juliano Pereira dos Santos de “negão” durante uma reunião de trabalho. Ao jornal O Globo, Juliano, que prestou queixa por injúria racial, foi categórico: “Tenho um cargo que me permite falar dessas coisas que não são negociáveis”.

Negociável mesmo, neste quesito, só mesmo de que boca saem os aumentativos e diminutivos para se falar de gente negra. Em resumo, chamar alguém de “negão”, “negona”, “neguinho” ou “neguinha” não é um xingamento racista, mas também é. Vide a forma carinhosa como a palavra é dita por muitas pessoas negras para outras pessoas negras com quem elas têm intimidade ou afeto, por exemplo. E repito: para outras com quem elas têm intimidade ou afeto.

Vale lembrar também que a sonsice da desvalorização não mora só no uso do diminutivo ou do aumentativo. Em 2016, um diretor de musicais reclamou, no palco, que um ator em cena “não pode ser peitado por um negro”, tendo depois se “retratado”: na verdade, ele teria dito “nêgo” — já que, assim, ficaria “mais fácil” dizer que ele estava apenas usando um termo genérico e corriqueiro para se falar de alguém. Mas depois o diretor pediu desculpas. Ao Chico Buarque.

Não é muito difícil, convenhamos. Vira e mexe algum sonso social usa dessa relação de intimidade entre negues, neguinhes e negães para se apropriar forçadamente desse caldeirão linguístico só para destilar o seu próprio racismo crônico. E a desculpa de sempre, a do “termo carinhoso”, segue, como se as coisas mais prosaicas não virassem armas nas mãos de quem age de má-fé. De péssima fé.

Aos cínicos, sonsos, desavisados ou analfabetos sociorraciais de plantão, deixamos aqui a única forma de se chamar uma pessoa negra no Brasil: pelo nome e sobrenome.

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ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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