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Eu costumo encarar todo mês de novembro como sendo o do meu aniversário, mas não por conta do Dia da Consciência Negra. Porque é mesmo. Digo, o Dia da Consciência Negra é justamente a véspera da minha volta completa ao redor do sol e é desde a minha adolescência, quando eu ganhei um feriado para mim. Por isso, também costumo usar o mês para tirar férias e, de quebra, viajar. Sim, eu uso o mês em que o foco está duplamente em mim justamente para sair por aí. É que eu já carrego novembro comigo desde sempre.

Neste momento, por conta da pandemia, este novembro não será tão viajoso por motivos óbvios, mas as reflexões sobre esse período de hiperfoco prosseguem fortes. Principalmente sobre o que viajar significa para mim. Os aeroportos sabem muito bem disso e me amam tanto que fazem questão de que eu fique um pouco mais neles. Todos querem averiguar o que eu estou levando, pois eu sempre fico mais tempo na fila do raio-x da bagagem e do detector de metais do que qualquer pessoa mais clara do que eu. É que a minha cor de pele também é a minha bagagem, e muitos a leem como sendo um item de grande periculosidade. Por isso, estar dentro do avião e em pleno voo sempre me é muito mais relaxante do que o momento anterior a isso. A minha turbulência vem antes.

Exalto aqui as viagens porque o cosmopolitismo — esse impulso contemporâneo que nos instiga a querer ser algo que nos leve além das amarras geográficas, culturais e raciais — é uma palavra que vem me batendo há um certo tempo, principalmente, por conta das estéticas afrofuturistas que têm me provocado, principalmente, através da música. Nisso, o festival Afropunk já me faz querer correr o planeta que já visito pelos tímpanos cada vez que eu escuto os artistas que já passaram por ele. Aliás, o que o próprio afrofuturismo propõe já me parece, de certa forma, com um cosmopolitismo que deu certo. O filósofo anglo-ganense Kwame Anthony Appiah, o filósofo camaronês Achille Mbembe e o historiador inglês Paul Gilroy definem bem o que é ser cosmopolita — onde você pode fazer parte de uma cultura global ao se definir como “cidadão do mundo” sem precisar diluir ou mascarar a sua própria para ser aceito — e abraça bem essa fluidez de uma cultura afro que se permite espaçar-se, pois o próprio movimento contínuo é uma caracteristica dessa cultura. “Be water, my friend” é uma frase do Bruce Lee, mas que serve perfeitamente ao Atlântico Negro.

Nesse contexto, o afropolitismo poderia ser uma das saídas, inclusive, para se salvar o próprio cosmopolitismo. É importante ressaltar isso, pois esse pensamento, muitas vezes, é vendido de forma torta mesmo, com R de racismo. O que foi feito com a estética hygge (que se fala “ríga” ou “ruga”), que os dinamarqueses entendem como “conforto” e “felicidade”, é um exemplo perfeito disso. Hygge, que foi recentemente eleito como a última bolacha do ser “moderno”, é aquela taça de vinho sob luz de velas, aquela luz baixa do abajur e aquela manta com aquele biscoitinho amanteigado que se oferece para as visitas, mas de um jeito bem, digamos, pinterest (ou que possa aparecer na revista Kinfolk) e que só é possível entre pessoas próximas e em localidades abaixo dos 14 graus Celsius. Logo, o que era organicamente praticado pelos nórdicos passou a ser estabelecido como a forma definitiva de ser cool, hospitaleiro e “global”, a ponto de o antropólogo dinamarquês Jeppe Trolle Linnet, especializado em cultura do consumo, chamar de “veículo para o controle social”. Assim, desde que a Dinamarca foi considerada o país mais feliz do mundo, hygge virou uma norma que, se você sai dela, você não é cool, não é in, não é hygge. Não é cosmopolita. Um racismo, mas não um racisminho qualquer. Um racismo confortável, literalmente.

Aeroporto ou quilombo?

Mas voltemos ao aeroporto, esse não lugar que é tão parecido em todos os lugares do mundo que eu mal consigo sair dele, onde quer que eu esteja. Gosto de falar de aeroportos porque, para o cosmopolitismo torto que não enxerga pessoas pretas como capazes de viajar pagando, o ato de apenas poder viajar parece ser o ápice da viagem. E só basta o ato mesmo, nem precisa exatamente de destino. Até os anos 1990, era normal as pessoas irem aos aeroportos para passear, usarem roupas caras e circular com as malas como se estivessem em um salão da belle époque. Há páginas e mais páginas nostálgicas sobre a Varig que exaltam exatamente isso. Se você pode ir e vir e tem dinheiro para tal, você já está inserido nessa grande comunidade global dos que podem. Por isso, o mote “aeroporto ou rodoviária?”, entoado por uma professora da PUC-Rio em 2014, é o canto do cisne desse não lugar que, de uma zona de conforto para a branquitude, virou um lugar um pouquinho mais colorido.

Apesar da pouca abertura, somente ao branco é permitido poder circular tanto por aí sem ser questionado ou cerceado, pois vejamos o que aconteceu com a recente Caminhada São Paulo Negra organizada pela empresa de turismo e cultura negra Black Bird, que foi acompanhada pela polícia durante três horas. Por isso, acredito que grupos como esse e outras iniciativas, como o Destino Afro, Brafika, Diáspora.black, Travel Noire e Nomadness Travel Tribe, todas no guarda-chuva do Black Travel Movement, vão salvar o cosmopolitismo dele próprio. Apesar de não estarmos aqui no mundo a passeio, nós também queremos fazer isso em paz.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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