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O arroz presente na memória e ausente da cesta básica

Como o alto preço do arroz aprofunda o racismo nutricional

Eu nasci no interior de Minas Gerais, em uma cidade de pouco mais de 45.000 habitantes. De lá trago memórias de uma avó merendeira que abria as portas de casa e sustentava oito filhos cozinhando na escola e para fora. Ela vendia o “pão cheio”, recheado com linguiça e queijo produzidos localmente. Assim como minha avó, minha mãe sempre fez comida para muitas pessoas e mandava marmitas para amigos meus e de minhas irmãs, para a nora e os genros e quem mais chegasse para sentar-se à mesa. Sempre que nos reunimos em sua casa, o arroz fresquinho é certo. Acompanhado por um ovo com gema mole e salada de tomate, é um dos meus pratos prediletos. Hoje, essa refeição de valor afetivo tão importante para mim e para milhões de brasileiras e brasileiros não tem o mesmo sabor. A presença do arroz na cesta básica está ameaçada devido à alta nos preços, a maior alta acumulada desde 2008. Um pacote de cinco quilos, normalmente vendido a cerca de R$ 15, chega a custar R$ 40.

Diante desta situação de insegurança alimentar, o presidente da República, Jair Bolsonaro, pediu que por “patriotismo” os supermercados baixassem os preços, ignorando a responsabilidade do Estado brasileiro de interferir nos preços e na política de estoque. Num discurso genocida, autoridades públicas afirmam que a alta se deve ao pagamento do auxílio emergencial, que foi reduzido à metade no começo deste mês. Façamos uma leitura honesta do cenário. Uma família que sobrevivia com um salário mínimo antes da Covid-19 e que perdeu trabalho e renda com a pandemia, consegue sobreviver com apenas R$300 de auxílio emergencial? Consegue aumentar seu consumo de alimentos? Numa sociedade que não garante moradia digna, saneamento, saúde pública gratuita e universal e alimentos seguros, o valor pago, além de irrisório, coloca milhares de famílias em insegurança alimentar e situação de miséria.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o preço da cesta básica aumentou em 13 das 17 capitais no mês de agosto, custando uma média de R$500. Como solução, Bolsonaro propôs ainda aos supermercados a venda do macarrão como substituto do arroz. Eu cresci ouvindo à mesa a palavra “sustança”, comendo mandioca com açúcar no lanche da tarde e vendo panelas de arroz e feijão alimentarem muitas pessoas, principalmente na merenda da escola pública onde estudei em Minas Gerais durante o ensino fundamental. A posição de Bolsonaro desconhece esse Brasil. Segundo o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (Ipea), em agosto, a inflação de famílias mais pobres (cuja renda domiciliar é menor do que R$ 900) teve variação de 0,38%. São essas as famílias cujas crianças crescem à base do arroz e feijão dado na escola. No mesmo período, a taxa percebida pelas famílias mais ricas (com renda maior do que R$ 9 mil) foi menos, de 0,10%

Somado a isso, um estudo do IBGE de 2013 apontou que 11,5% população negra vive em situação de insegurança alimentar grave; entre os brancos o percentual é de 4,1%. Podemos aqui reconhecer um caso de nutricídio, conceito proposto por Llaila O. Afrika. Em tempos de pandemia, é fundamental a garantia da segurança alimentar e nutricional da população. As pessoas, por um lado, perdem o emprego e a renda e, por outro, não têm acesso a alimentos seguros e saudáveis que possam fortalecer seus sistemas imunológicos. Torna-se cada vez mais comum que os alimentos ultraprocessados com alto teor de sódio, como mortadela e salsicha, tenham preços mais baixos que o arroz e o feijão, por exemplo. Nesta lógica identificamos o racismo nutricional, uma vez que a população negra é a mais afetada por doenças ligadas à má alimentação, como hipertensão, e são também as que mais morrem por coronavírus, em índice cinco vezes maior que as pessoas brancas, como revela a análise dos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde feita pela Agência Pública.

Diante desta situação, quantas mulheres terão que deixar de ajudar a sua comunidade dividindo em marmitas quantidades extras de arroz com feijão? Quantas crianças terão seu direito à alimentação segura negado em suas escolas e casas? É preciso apontar respostas para esses questionamentos, ao invés de simplesmente substituir tudo por macarrão. É preciso apontar e reforçar outras respostas para o futuro. Respostas em defesa da vida, como a agricultura familiar e a produção agroecológica popular. Valorizar a produção local em uma rede de economia solidária, na cidade e no campo, fora das estruturas extrativistas que ampliam desavergonhadamente as suas fronteiras biomas brasileiros adentro. Isso significa, também, questionar a ideia de investimentos em grandes obras como políticas de infraestrutura, pois isso apenas favorece a monocultura e faz de nossos sistemas viário e marítimo voltados para atender ao escoamento dos produtos do agronegócio por exportação, aumentando o uso de agrotóxicos, o desmatamento, a grilagem de terra, o etnocídio. São essas grandes obras que promovem remoções, poluição, barragens, derramamento de petróleo e lama, invasão de terras quilombolas, indígenas e ribeirinhas. Precisamos defender uma política de segurança alimentar e nutricional comprometida com a justiça ecológica e social, por meio de hortas comunitárias, feiras populares, incentivo aos agricultores familiares, equilíbrio ecológico. Voltar a comer das mãos de pessoas que sabem de onde veio o que vai à mesa, que confiam na cadeia produtiva do que dividem com sua família e sua comunidade.

Para silenciar o clamor pela “normalidade” da fome, da miséria e do desalento, aquilombemos pelo direito à terra, a alimentos seguros e à moradia. No bater de panelas, no fogão a lenha de minhas avós, das marmitas compartilhadas e no cheiro do arroz fresquinho com feijão, evoco minha ancestralidade nesse texto, ansiando por um outro mundo. Um mundo que ecoa as escrevivências e obras da poeta e escritora Carolina Maria de Jesus que proclama: “Quem inventou a fome são os que comem”.

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