O CAMINHO DO RATO

Durante esse tempo, eu tentei, em vão, fugir do grande assunto global do momento: guerra na Ucrânia. Quando pensei em transformar esse espaço aqui em um posicionamento interseccional sobre o que está ocorrendo, me deparei com esse fio do teólogo Ronilso Pacheco sobre racismo, guerra e Relações Internacionais, algo muito mais efetivo e acurado do que qualquer coisa que eu poderia falar sobre. Por isso, como acredito que conhecimento é que nem frescobol, só tem graça se os jogadores estão levantando a bola para o outro, resolvi deixar aqui um presente. É uma ferramenta — no caso, uma metodologia — que sempre uso quando quero analisar seja lá o que for para seja lá qual trabalho eu vá fazer, seja uma matéria, uma pesquisa ou um roteiro: o caminho do rato.

Vocês já viram como um rato costuma se comportar em uma sala ou quarto? Ele raramente anda pelo meio do cômodo. O rato sempre vai pelos cantinhos, frestas, buracos e reentrâncias. A meiuca dos ambientes sempre é muito óbvia para ele por N razões, como o risco de ser pego por um predador ou vassoura, por exemplo. Além de ser perigoso, ele já deduz o que poderá encontrar no centro dos ambientes.

Olha a coincidência: eu descobri que, no horóscopo chinês, eu sou do signo do rato (shu). Nessa tradição, o bicho é visto como criativo, hiperativo, trabalhador e, sobretudo, solucionador de problemas. O rato, por saber do que rola nos cantos, tem uma outra visão sobre o centro. Jornalismo, a minha primeira graduação, e Ciências Sociais, a minha segunda, dizem respeito a isso: saber que o que rola nos bastidores é tão importante — e na maioria das vezes, até mais — do que o acontecimento em si.

A primeira vez que percebi, de fato, o caminho do rato como uma ferramenta foi quando uma cantora lançou, em 2017, um clipe que foi acusado de ser racista. Nele, apareciam pessoas negras dançando e interagindo em grades, que podem ser interpretadas como gaiolas ou prisões, e por aí vai. Na época, eu vi o clipe e não consegui associar a nada disso, assumo. Porém, o comentário da cantora concretou, de vez, tudo: ela quis dançarinos negros dançando entre grades porque passa a ideia de algo “SELVAGEM”. Nisso, a minha percepção sobre o trabalho que estava em discussão — ou seja, na sala de estar — se esfumaça pela cravada que a artista deu. Um comentário que saiu dos cantos e que foi fundamental para que se entendesse o que, de fato, estava no meio da sala.

Depois desse caso, outros em que as emendas se revelaram melhores que os sonetos passaram a pipocar como mágica. Se um podcaster é acusado de apologia ao nazismo, por exemplo, ou se vaza o áudio de um youtuber tarando mulheres em situação de guerra, a forma como eles vão se expressar sobre aquilo que já está explícito é ainda mais reveladora do que o ocorrido, já que o ocorrido, como percebemos, já ocorreu. Já sobre essa guerra atual, a forma como os dois lados da questão lidam de forma idêntica com os seus refugiados de origem africana já deu o tom que pouquíssimas análises sociopolíticas de massa estão falando: é a extrema-direita brigando com a ultradireita.

A genialidade do caminho do rato é bem similar àquela do jogo de bolas de gude em que você é o marraio — no caso, o último a jogar. Quando o jogo já está posto por quem jogou antes de você, você tem mais opções de bolinhas para acertar. Por isso, talvez esse jogo seja o único em que a vantagem seja sair por último, afinal, em outros jogos, como o de damas e o de xadrez — esse, inclusive, tão utilizado para se comparar à sociopolítica — são bem diferentes, por exemplo. Neles, quem sai na frente é sempre a peça branca.

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ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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Coletivo Pretaria

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