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Zózimo Bulbul

O cinema negro está servido, venha conosco degustar!

Do dia 21 a 30 de outubro aconteceu a edição de 13 anos do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul Brasil, África, Caribe e outras diásporas. Há 13 anos a equipe do Centro Afrocarioca de Cinema e seus parceiros vem produzindo um dos maiores eventos de cinema de toda a diáspora africana, mantendo vivo o legado de Zózimo Bulbul e inúmeros outros cineastas, intelectuais, sábios, anciões e griots que ecoam as nossas memórias e heranças africanas. Numa edição completamente online, pelas próprias palavras do Encontro, tivemos: “mais de 100 filmes — entre curta, média e longa metragem — divididos em 36 sessões, cursos e webinar, online e gratuitos, ao longo de 10 dias conduzidos por mulheres em um espaço afro-diaspórico que valoriza as diversidades territoriais, de gênero e pensa de uma forma mais ampla as trocas intergeracionais”.

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13 anos de Encontro de Cinema Negro

A historiografia dos cinemas negros nunca foi apenas uma história de carências. Mesmo com a escassez crônica que assolou nossa produção de narrativas por toda a diáspora, os cinemas negros possuem uma história marcada mais pela abundância da criatividade do que pela escassez representativa. Principalmente pela pluralidade de produções das últimas décadas. Fartura e prosperidade são marcas tradicionais das culturas africanas. Enquanto outras sociedades precisavam produzir escassez para se tornarem soberanas, as sociedades tradicionais em África partilhavam a abundância. Essa talvez seja a maior linha de fuga da herança africana para os modos de sentir a vida no ocidente.

Se navegarmos pelas produções cinematográficas que compõem os cinemas diaspóricos, encontraremos inúmeras produções de autorias negras que ficcionam, registram e celebram a experiência de vida negra. Porém, a grande questão de nossa produção cinematográfica é a dificuldade de potencializar nossas criações e principalmente a nossa distribuição. Parece que felizmente esse cenário vem apresentando uma mudança nos últimos tempos, produções que antes não conseguiam transitar pelo atlântico, agora encontram diferentes janelas de exibição em festivais, encontros e mostras.

O eco mais vibrante dessa fartura diaspórica dos cinemas negros com certeza é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Idealizado desde os anos 1990 por Zózimo Bulbul, tomando forma apenas na década seguinte, o Encontro organizado pelo pai do nosso cinema negro é a maior confluência em território brasileiro de filmes, cineastas, pesquisadores e entusiastas de todas as diásporas africanas. O grande diferencial do evento é o seu caráter de partilha, de troca. No Encontro não há vencedores e premiações. A cada edição os verdadeiros vencedores são amantes dos cinemas negros, e a premiação é a própria existência do Encontro apesar de todas as dificuldades da existência dos cinemas negros no Brasil.

Neste ano, na edição comemorativa de 13 anos o Encontro superou mais um desafio: como realizar uma mostra de cinema internacional sem a presença de seus participantes? Como muitos outros segmentos da produção cultural o Encontro se reinventou e aconteceu completamente virtualmente. O que poderia significar uma grande perca nos demonstrou ser uma grande conquista, enquanto perdemos a presença dos encontros físicos, ganhamos a oportunidade de transbordar em diáspora. Acontecendo virtualmente cineastas do Brasil inteiro, e com certeza do restante da diáspora, conseguiram participar da mesma maneira que nós cariocas, das sessões, das conversas, dos cursos, dos pitchings, das masterclass. A presença de legendas em inglês e tradução simultânea para libras em alguns filmes também é um exemplo desse transbordar em outras fronteiras. A presença das conversas com a maioria dos cineastas participantes nos filmes exibidos após suas seções também foi algo que a virtualidade da internet nos proporcionou. Seria muito interessante obter dados dessa receptividade online. Se antes uma das maiores dificuldades do Encontro era a formação de público, podemos ter certeza que a edição desse ano nos permitirá pensar em novas táticas de distribuições desse nosso farto cinema negro.

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Políticas do olhar digital

O cinema negro está servido, venha conosco degustar! Pegando como homenagem o título do belo filme de Leila Xavier e Stefano Motta, o cinema negro hoje é farto; farto primeiramente de ocupar uma posição subalterna na produção audiovisual brasileira e diaspórica, mas farto também de sentidos e produções que expandem as fronteiras do que convenhamos definir como cinema negro. Produções essas que pela só autoria negra, representando nossas vivências, já apresentam um movimento de ruptura com a cinematografia hegemônica. Hoje cinema negro só se faz sentido se for no plural. Os 13 anos do Encontro são exemplo dessa fatura com mais de cem filmes de diferentes territórios da diáspora africana, representando diferentes correntes estéticas e narrativas, protagonizado por cineastas de diferentes etnias, gêneros, territórios, idades. Esse foi mais um passo na longa marcha que são os cinemas negros. Como dizem as tradições africanas, O fim é sinônimo de continuidade.

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O cinema é uma arma e nós sabemos atirar

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ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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