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O fetiche colonial na cobertura da mídia sobre casos de violência contra a mulher

Há algumas semanas, o Fantástico vem apresentando uma série de reportagens sobre violência contra a mulher e estupro. Em muitas dessas matérias, a narrativa descreve em detalhes os níveis de abusos e violências. Mesmo sob o recurso de sombra (quando a entrevistada não aparece), a reportagem explora minúcias dos depoimentos, recriando cenas e ambientes em uma linguagem sensacionalista, fazendo com que a vítima tenha que reviver novamente a violência e expondo aos telespectadores um ambiente que reproduz tais violações. A abordagem me afetou e incutiu gatilhos a tal ponto que precisei desligar a televisão em vários domingos.

Essa semana, ouvi uma palestra de Grada Kilomba, durante a FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), na qual ela se recusa a mostrar em público a imagem da máscara de ferro usada nos tempos de escravização. Ela diz: “não mostro imagens de africanos escravizados que são humilhados e violentados. Eles são apresentados ao público com certo fetichismo e voyerismo. Pensar como a língua e as imagens são capazes de reproduzir violências”. Quando a ouvi, organizei meu incômodo, que se revelou num pensamento contra esse olhar colonial de fetiche sobre as violências. É exatamente essa a narrativa escolhida por boa parte dos veículos de comunicação quando se trata de violência contra a mulher e contra pessoas negras, a do fetiche, do voyeurismo, expondo como o machismo e o racismo também operam na construção do discurso da mídia.

Obviamente que temos que falar cada vez mais sobre essas formas de violência, mas não por meio da exposição de detalhes das situações numa narrativa fetichizada da violência. No caso da violência contra as mulheres, é preciso, sobretudo, apontar o machismo estrutural e cultural em nossa sociedade e falar sobre gênero em todos os espaços, principalmente nas escolas e universidades, espaços determinantes na formação das subjetividades e muitas vezes coniventes com esses dispositivos de violação.

Falar sobre gênero significa estudar a Lei Maria da Penha, o Estatuto da Criança e do Adolescente, nomear as violências e, principalmente, criar espaços de escuta e acolhimento que não sejam fetichistas, coniventes e produtores de culpa e descrédito. Precisamos aprender desde crianças que o pessoal é político e que todos os registros das violências que nos traumatizam, inclusive as memórias, devem ser tratados sob o regime do mais absoluto respeito, devendo ser tocados apenas em processos de cura e cuidado.

O recém-divulgado Anuário de Segurança Pública revela que a cada 8 minutos, uma mulher é vítima de estupro no Brasil. Já a cada 2 minutos uma mulher sofre agressão física. Entre as vítimas de feminicídio 66,6% são mulheres negras. Isso sem contar a subnotificação em relação aos crimes de racismo e LGBTfobia, como apontam os dados do Anuário. Mesmo diante de um cenário trágico de mortes de mulheres, os meios de comunicação acumulam grande parcela de responsabilidade pela criminalização do debate de gênero pela extrema-direita. Em vez de desconstruir esse discurso, a linha editorial da maioria dos veículos de comunicação assentiu e se omitiu diante de notícias falsas sobre “kit gay” e ”ideologia de gênero”, em prol de interesses políticos e econômicos. A cobertura midiática privilegia o chamado “click bait”, ou seja, linguagem sensacionalista para gerar audiência e cliques e, consequentemente, lucro. Quantas dessas narrativas não se beneficiam da escuta do agressor que se contenta em mais uma vez com os registros dessas violências? Quantas vezes esses veículos estão, de fato, comprometidos com as vítimas e com a necessidade de instaurar o debate público acerca dessas questões estruturais?

Num movimento de desobediência, contrário a esse, devemos cultivar outras linguagens, a de nossos griôs que confrontam o olhar colonial da mídia, como os que estão nos slams de poesia, na comunicação alternativa, no grafite, que denunciam por meio de vozes, muros e quebradas as nossas dores sem o escárnio e o fetiche do agressor. Transformar a dor em voz não é uma tarefa para qualquer um e não pode ser um expediente feito de qualquer maneira ou sob a lógica do lucro.

A descolonização da mídia passa por enfrentar discursos que inferiorizam e desumanizam corpos de mulheres, pessoas negras e LGBTIs. E, necessariamente, por construir uma comunicação popular comprometida com os direitos humanos.

*Camila Marins é jornalista, feminista negra sapatão e uma das editoras da Revista Brejeiras, uma publicação feita por e para lésbicas

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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