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FRAME DO FILME “CORRA”, DE JORDAN PEELE (EUA 2017)

Eu sei que não parece, mas ser antirracista não é só se portar diretamente contra o racismo. Na maioria das vezes eu me sinto como um dos mythbusters ou como parte da trupe do Scooby Doo: provando que os monstros, na verdade, são criações de homens mal-intencionados com a finalidade de desviar o nosso olhar de suas atividades criminosas. No início do ano, por exemplo, eu fui obrigado a provar que o tal bicho-lacrão “non ecziste”. Já no mês passado a martelada nietzscheana — digo, machadada fanoniana — foi neste moinho de vento que chamam de cultura do cancelamento. Agora chegou a vez de assoprar o castelinho dos cruzados do politicamente incorreto.

Eu digo assoprar porque a gente não precisa desconstruir algo que nem base tem, pois já desaba na primeira brisa ou até sozinho. Para isso, retornemos a 1996. A música “Veja os cabelos dela”, uma paródia dos hits baianos reinantes da época e que foi feita pelo hoje deputado federal Tiririca, viria a levar dez processos de ONGs antirracistas por causa de sua letra. Apreciem um trecho:

“Veja veja veja veja veja os cabelos dela

Veja veja veja veja veja os cabelos dela

Parece bom-bril, de ariá panela

Parece bom-bril, de ariá panela

Eu já mandei, ela se lavar

Mas ela teimô, e não quis me escutar

Essa nega fede, fede de lascar

Bicha fedorenta, fede mais que gambá”

Foi só em 2011 que a gravadora Sony viria a pagar uma indenização de 1,2 milhão de reais pela música mais racista da fonografia brasileira desde a marchinha “O teu cabelo não nega”, de Lamartine Babo que, se a cultura do cancelamento existisse de fato, não seria sucesso de bloco e baile de carnaval até hoje. Assim, o disco foi recolhido e ela foi proibida de ser tocada no rádio e na televisão. O CD de lançamento do Tiririca que a continha havia, na época, vendido mais de 1,5 milhão de cópias e, conforme recorda o babalorixá Ivanir dos Santos, que foi muito atuante neste caso, esta foi a primeira vez que uma obra artística de cunho racista foi questionada no Brasil a ponto de ganhar o debate nacional. Digo obra artística sem ironia ou aspas porque a música é justamente isso: fruto de uma sociedade que não poderia dar algo além do que ela, de fato, é. E claro, não foram poucos os defensores da música e do humorista na época. O próprio produtor Arnaldo Saccomani, morto mês passado, disse em entrevista à Folha que nunca se recusou a um desafio mesmo sabendo que poderia ser politicamente incorreto. A gravadora literalmente pagou para ver.

Em entrevista à Folha na época, Tiririca se defendeu dizendo que faz coisas para as pessoas sorrirem e é aqui que chegamos no cerne da questão. Tiririca, por essa lógica, estava certo e é justamente por isso que a música deveria ser extirpada. Parte do Brasil ainda era capaz de rir de músicas que dizem que uma mulher negra fede mais que um gambá e tem cabelo de ariar panela. Hoje, essa sina pela tal liberdade de poder se falar o que quiser parece tomou o debate político como se fosse a última bolacha (com conservadores) do pacote. Mas essa militância cega, de fato e com coragem para tal, nunca existiu.

Nem mesmo quem investiu pesado na militância politicamente incorreta, os americanos, conseguem seguir ele à risca. Hoje, o atentado terrorista contra o World Trade Center completa 19 anos e, apenas meses após o trauma, o ator e comediante Gilbert Gottfried mandou, durante um show, esse petardo: “Eu terei que sair cedo hoje à noite, tenho um voo para a Califórnia. Eu não consegui um voo direto, disseram que eu terei que fazer escala no Empire States primeiro”. A reação do público foi, em suma, de vaias, mas o “cedo demais!” de alguém da plateia foi a que mais destacou. Isso demonstrou uma possível abertura para que, num futuro próximo, alguém pudesse fazer essa piada depois que a ferida com o ataque estivesse curada. Ninguém ainda ousou fazê-la e, quem tentou, pagou para ver.

E vamos de Brasil? Um humorista paulista, por exemplo, se gaba de poder fazer piada sobre o que quiser, quando quiser e da forma que quiser, afirmando que “quem se sente mal com uma piada deve ter um problema maior”. Porém, quando resolveu fazer troça com uma questão caríssima aos judeus, precisou pedir desculpas. Por que um arauto do politicamente incorreto precisaria pedir desculpas? E o Facada Fest, por que teve inquérito aberto pelo Ministério da Justiça se o próprio presidente faz piada sobre o ataque que sofreu? E por que os humoristas que fazem chiste racista com as religiões de matriz africana nunca sofrem sanção alguma, enquanto o Porta dos Fundos, após parodiar a fé cristã em um especial de Natal, sofre um ataque terrorista e ainda recebe gritos de “bem feito” por isso?

Esses indignados com a “heresia” apresentada pelo grupo não eram as mesmas que estavam consternadas com o ataque à revista Charlie Hebdo há apenas cinco anos e defendendo o direito dela de zombar da raça, do gênero, da origem e da religião de todos como sempre fez e faz até hoje? E por que é que quem se alinha com esses arautos do “falo o que quero sim e foda-se” precisa dar chilique com uma simples paródia?

Ser politicamente correto não é um trabalho fácil porque a nossa cultura não é. Eu mesmo já desisti de ser um fanático neste quesito e até brinco que, se eu estiver atravessando a rua e vier um carro voado em minha direção, prefiro que berrem “negão” do que “afrodescendente” para que eu tenha tempo de reagir. Porém, por trás dos defensores cegos do politicamente incorreto fulltime e desprovido de responsabilidade, há um quesito essencial: a tara pelo crime disfarçado de opinião. É a devoção à opressão simples e pura desde que ela seja apenas de mão única. Afinal, todo mundo é “opressor” desde que não esteja na berlinda. Enfim, a hipocrisia.

Se existe toda essa veneração pelo politicamente incorreto, por que ele não vale de maneira integral? De quem se deseja arrancar o riso fácil apenas ao se bater nos mais combalidos? No meu tempo de colégio, quem só era valentão com os mais fracos tinha nome: covarde. E quais são os milites do humor? Se o politicamente incorreto só vale se for aplicado pelo lado direito do pleito, ele não existe. É apenas humor chapa branca e em todos os sentidos.

Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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