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“O POÇO” elevado à potência do fundo

“Há 3 tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem.”

O mercado cinematográfico mainstream tem voltado a atenção a produções e histórias que, há não muito tempo, seriam consideradas apenas para mercados locais e/ou independentes.

Os realizadores têm oferecido — e emplacado — fabulações que encontram ressonância com o sentimento das audiências em relação à geopolítica, às dimensões de raça, classe e gênero, ao psiquismo deteriorado pelas injustiças advindas do capitalismo: interfaces que nos abduzem a uma imersão sinestésica, acendendo todos os sentidos em profundas reflexões e elaborações para novas possibilidades de mundos e vivências.

Ao que parece, o apocalipse armamentista-bélico, a invasão zumbi, ou o desolador mundo distópico nas telas não dão conta dos momentos que se seguem, da urgência e da necessidade em desmantelar os diagramas de (necro)poder que apontam o mundo pós-pandêmico (pós-apocalíptico).

Houve uma evidente progressão bastante sintomática, que impressionam retinas e mentes: “Corra!”, “Coringa”, “Nós”, “Bacurau”, “Parasita”, “O POÇO”. Uma sequência fílmica do fim do mundo. Tem provocado audiências ao redor do globo (será que também os terraplanistas? Naaaaa…) tomarem consciência e pensarem nos tensionamentos e deslocamentos inevitáveis das estruturas a essa altura da história da humanidade.

A experiência sombria e assustadora do cárcere em “O POÇO”, filme espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, roteiro de David Desola e Pedro Rivero, estabelece, em uma perspectiva atual de forma ainda mais evidente, um recorte paralelo da experiência do isolamento, do distanciamento social, do confinamento, dos “lockdowns” impostos por um vírus de alta letalidade que mudou nossos cotidianos, nossas práticas, nossos fazeres, nossas prioridades, nossas relações. Porém, em relação aos nossos direitos (humanos e constitucionais), e, por certo, ao nosso psiquismo, a mudança foi o agravamento, o aprofundamento e a

“O POÇO” (o título em inglês é “THE PLATFORM”, ou seja, o deslocamento idiomático privilegiando a plataforma e não o poço e seus internos…), assim como a pandemia do coronavírus, expõe às últimas consequências os privilégios e as possibilidades de escolha dos internos do norte (nível 1) em relação aos internos do sul: quanto mais profundos, mais destituído de direitos à sobrevivência. A comida distribuída pelos níveis da plataforma vai escasseando — e vai perdendo em dignidade, uma vez que são os restos revolvidos dos níveis superiores — à medida em que se aprofunda o trajeto através dos níveis inferiores.

Percebemos, nos diálogos do filme, alternativas existenciais e políticas para suportar a injustiça imposta por aquele regime.

“Você crê em Deus? Esse mês, sim.”

“A educação vem primeiro: convencer antes de vencer. Primeiro dialoguem.”

“Quem saberá se deu certo? A administração não tem consciência.”

“Prato intacto deve chegar ao nível 0” (Comunicação | Sinalização | Símbolo | Semiótica)

“A panacota é a mensagem.”

“A criança é a mensagem.”

“Só então entenderão a mensagem.”

O protagonista, tendo passado pelo pesadelo dos níveis inferiores d’O POÇO, articula uma revolução (MOBILIZAÇÃO, ORGANIZAÇÃO, REAÇÃO) para garantir acesso à alimentação pelos desvalidos dos níveis inferiores, já que ciente que a partir de certo nível nem os ossos restam.

“Quem deve dirigir [o país] é quem tem capacidade. Quem tem dó e amizade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é a dor e a aflição do pobre. (…) Precisamos livrar o Brasil dos políticos açambarcadores”. (Carolina Maria de Jesus)

“O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo e nas crianças”. (Carolina Maria de Jesus)

Nesse sentido, as amplas ações que acontecem no curso da pandemia em periferias, favelas, territórios e pessoas geográfica e socialmente vulnerabilizadas utilizam a experiência pregressa/ancestral de alta eficiência de sobrevivência e acumulam experiência, conhecimento e desenvolvimento de tecnologias sociais que governo nenhum foi capaz de estabelecer historicamente. A população preta favelada encontra meios de permanência e pautam a vida a despeito de toda a barbárie e todo o desprezo, descrédito, racismos e morte que lhes são dirigidos.

Frente de Moblização da Maré

O NOVO NORMAL é entender o que nós, pretes, sempre soubemos: “a mudança nunca é espontânea.” (“O POÇO”)

É preciso quem coloque a morte no bolso secularmente (Anikulapo). “Eles combinaram de nos matar, mas não combinamos de não morrer.” (Conceição Evaristo)

As favelas vão refundar o Brasil. São as molas propulsoras de um país que insiste em nos deixar morrer no fundo do poço.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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