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Oboró — Masculinidades Negras e a reinvenção do exercer masculino

Assisti Oboró — Masculinidades Negras, no dia seguinte à estreia. A sensação que me invadiu desde então — sim, estou pensando nisso até hoje — é como esse tema precisa ser muito mais discutido. E, pela ótica negra, então, nem se fala!

Não é de hoje a impressão de que dispensamos bastante tempo criticando o machismo e seus prejuízos nas relações, sem nos aprofundarmos igualmente na compreensão da tão tóxica masculinidade que forja os homens desumanizados. E não é uma questão de geração. Mulheres assassinadas, agredidas por seus companheiros, homens sem saber como lidar com o movimento feminino em busca da liberdade de ser o que quiser, homens sem saber seu lugar nas relações, homens que abandonam suas famílias, homens gays com dificuldade em viver sua homossexualidade em pleno século XXI … Para todas essas questões, de onde virá a solução senão pelo mergulho honesto no universo masculino? Perguntas que me faço sempre que me proponho a compreender o outro (nesse caso, o homem, especificamente).

Escrita por Adalberto Neto e dirigida por Rodrigo França “Oboró” põe luz sobre esse indivíduo negro silenciado, hipersexualizado, alvo da violência e socialmente invizibilizado, porém, ainda assim, superior à mulher negra. E é talvez aí que o machismo atravessa o gênero masculino de uma forma geral — há ali no palco um momento em que os homens (negros e brancos) se reconhecem, e isso é bonito de presenciar -, sem levar em conta o preconceito, exclusivamente. Ainda assim, o racismo existe e é o elo condutor das histórias no espetáculo de Rodrigo França. Só não é mais forte que a seiva da ancestralidade que corre nas veias desses homens negros fazendo-o superar barreiras e encorajando-os a seguir adiante. Parece simplório, mas, não é nas coisas simples que está o complicado da vida?

Oboró em Yorubá é o termo usado para designar orixás do sexo masculino e Rodrigo França brilha ao traçar uma linha unindo os nove personagens à característica ancestral do orixá que cada um deles representa na narrativa. Sem spoilers, claro! Mas, é genial a forma do dramaturgo de casar os arquétipos dos orixás às trajetórias daquelas histórias.

Pelos caminhos do ferro e da guerra vivenciamos as dores e sabores do homem conflituado, pela ótica da sabedoria ancestral no manuseio das plantas e ervas acompanhamos as barreiras enfrentadas por um médico no campo dogmático da medicina tradicional. A sexualidade no universo masculino negro é muito bem discutida em duas passagens da peça, mas por óticas diferentes; se uma obedece à unicidade do orixá que tudo vê e tudo sabe, a outra serve a uma dualidade do sagrado no Candomblé representando as escolhas que fazemos na vida e suas consequências.

Procurei uma forma de contar um pouco da peça sem estragar a experiência de vocês, mas o fato é que há muito o que se discutir e aprender sobre masculinidade, principalmente na pele do homem negro. Um salve cheio de axé para o figurino da peça assinado por Wanderley Gomes totalmente em sintonia com a narrativa. As histórias se refletem na vida e vice-versa.

Quero muito que todos os meus amigos homens (negros, brancos) e que minhas amigas (negras e brancas) assistam a essa peça — negros e negras é mandatório passem pela experiência -, quero muito que discutam e reflitam sobre, e quero vida longa para Rodrigo França, pois ele é fundamental para os diálogos contemporâneos da nossa sociedade.

SERVIÇO:

Oboró — Masculinidades Negras

Temporada: 15|08 a 01|09

Local: Teatro Sesi (Avenida Graça Aranha 1, Centro)

Horário: De quinta a sábado, às 19h, e domingos, às 18h.

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Duração: 90 minutos

Classificação etária: 14 anos

Elenco: Cridemar Aquino, Danrley Ferreira, Drayson Menezzes, Ernesto Xavier, Gabriel Gama, Jonathan Fontella, Luciano Vidigal, Marcelo Dias, Orlando Caldeira, Reinaldo Júnior, Sidney Santiago Kuanza e Wanderley Gomes

Texto: Adalberto Neto

Direção: Rodrigo França

Direção de Movimento: Valéria Monã

Assistente de Direção: Kennedy Lima

Cenário e Figurino: Wanderley Gomes

Trilha e Regência: Cesar LiRa

Músicos: Cesar LiRa, Lucas Timbaleiro e Natanael Mariano

Orientação de Arranjo Vocal: André Muato

Iluminação: Pedro Carneiro

Engenheiro de Áudio: Marcelo Moacir

Pesquisa: Fábio França e Valéria Monã

Designer e Áudiovisual: Rafaela LiRa

Fotografia: Júlio Ricardo da Silva

Participações em Áudiovisual: Ativista do Movimento Negro e Professor Doutorado Carlos Medeiros / Ativista do Movimento Negro e Professor Leonardo Peçanha

Direção de Produção: Fábio França e Mery Delmond

Produção: Diverso Cultura e Desenvolvimento

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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