Olhos de erê, com uma câmera na mão e um inquice na cabeça

Os olhos dos erês conseguem captar quadros da vida que não são contemplados pela vista cansada dos adultos, o falar dos erês consegue entoar trilhas sonoras para o ordinário do cotidiano que a escuta tumultuada dos adultos não consegue mais dar ouvidos. Por sorte, há pequenos seres em nosso caminho, não tão desgastados pela vida adultizada, que refrescam nossas percepções com novos sentidos de vida. Luan Manzo, um erê de seis anos e meio morador do quilombo Manzo N’gunzo Kaiango, realizador, câmera e som do curta Olhos de erê é um desses seres que acalantam nossa jornada com a sutileza da infância. Bisneto da Mametu Muiandê liderança do terreiro de candomblé Angola que também gere a comunidade quilombola, Luan nos aproxima do oculto das espiritualidades de matriz afro, sem revelar seus segredos, mas nos convidando a desmistificar estigmas e preconceitos historicamente erguidos.

O Manzo, recentemente reconhecido como quilombo pela cidade de Belo Horizonte é um palácio de rei, governado por gerações de rainhas que gestam os valores ancestrais de seu povo. Pela forte organização herdada dessas sacerdotisas hoje o quilombo é um espaço de afrobetização que leva estes valores coletivos a novas gerações, e durante a pandemia buscou formas de intensificar as relações entre as duas extremidades do círculo da vida, a infância e a senilidade. Quando o isolamento social fez com que nossas casas se tornassem nossos únicos espaços de socialização, como as escolas, estes encontros fizeram florescer outros tempos e movimentos como temos no caminhar de Luan pelo seu terreiro. Se para as culturas tradicionais os mais velhos são os principais educadores de uma comunidade, esta sabedoria dos antigos não tira a oportunidade de aprendizagem com a imaginação da infância, nem a astúcia da juventude.

Uma das máximas que une a diversidade das inúmeras culturas bantas é que um muntu, uma pessoa viva ou não, não pode existir fora da comunidade. Na diáspora, as casas de candomblé foram as coletividades que refundaram a existência da família, já que os laços sanguíneos foram violentamente rompidos. Então para o povo de santo, um terreiro é a manifestação da comunidade tradicional em solo brasileiro. É nesse laço entre irmãos de santo que as pessoas nascem além do parto biológico, é o pertencimento a uma comunidade que a faz muntu, pessoa. O pertencimento se faz com a participação nas crenças, costumes, cerimônias, angústias, festas e esperanças de um coletivo. Até a travessia da morte é um elo participativo de uma comunidade, pois ninguém se sepulta seguindo os traçados do sagrado sozinho. Por isso, para os povos tradicionais bantos, zelar pelo bom funcionamento do ciclo da vida, e também da manutenção do oculto que nos nutre, todos precisam participar com as responsabilidades de uma comunidade. É na comunidade onde a vida tem sentido.

Com uma câmera na mão e um inquice na cabeça Luan se dedica com sagacidade, aquela qualidade dos sábios, mas afiada desde a infância, a se inaugurar como um muntu participativo em sua comunidade ao narrar com todo o respeito necessário o íntimo de seu sagrado.

Descontraidamente o erê nos leva para conhecer de perto o seu terreiro, logo nos primeiros passos ele aponta a casa de exu e ligeiramente segue seu caminho respeitando os preceitos secretos de sua religião, termo que ele usa com frequência inclusive, principalmente para demarcar a diferença de outras matrizes como o candomblé keto. Chegando no terreiro o erê minuciosamente apresenta os objetos ali presentes comentando sobre os quadros, adornos, guias e chicotes que compõem o salão principal. Mesmo sem a explanação do menino conseguiríamos sentir que aqueles objetos nada tem de mudos, eles carregam o nguzu que fortifica o terreiro e falam por toda a história daquele local. É curioso ver os gestos do pequeno ao enquadrar as peças sagradas, ele inaugura para muitos espectadores uma intimidade que outrora pertenceria apenas aos seletos que tivessem a oportunidade de pisar num terreiro, mas através dos dispositivos digitais ele inaugura essa posição de hospitalidade ao cinematografar a sua experiência com seu sagrado.

Luan faz jus a Katendê, inquice que orienta a sua cabeça, ao ser um bom guardião ao se preocupar tanto com espectadores que talvez não conheçam a fundo sua religião, mas cuidar e manter em sigilo aquilo que não pode desvelado. Como um pequeno nganga ele zela pelo público evocando o ritual de seu culto, usando os planos fílmicos como as folhas sagradas, que o menino também nos apresenta, que quando entoadas com as palavras certas provocam bem estar a quem com elas interage. O cinema feito por mãos negras tem esse poder de cura ao sarar as chagas abertas desde o trauma colonial, pondo no centro da tela do cinema, mesmo em vertical, narrativas que valorizam a rica história dos povos negros da diáspora. Como um curador de filmes que programa a sequência de títulos que será degustada por um público, Luan caminha com propriedade por seu terreiro mostrando, ou deixando de mostrar, mas mesmo assim nos afetando com sensibilidade. Indo em sintonia com uma geração que desde as políticas públicas de ações afirmativas vem inserindo os cinemas negros nas grandes salas de cinema brasileiras.

Este deslize entre o fio que une o sagrado e o profano, o ancestral e o contemporâneo, o desvelado e o oculto e o tradicional e o moderno é tensionado quando Luan adentra na residência de sua família e vemos suas mais velhas conversando, mesmo com sua simpatia logo o menino é enxotado pela vó e ele percebe e zomba da irritação da senhora em não querer ser filmada descontraída em seu cotidiano.

Interagindo conosco como seguidores num hipotético canal da internet Luan se despede cantando um “ponto para quem é Nkosi” e dá continuidade na abertura de caminhos para uma geração que irá experimentar ainda mais com as linguagens audiovisuais e proporcionar outras experiências para a tradição do candomblé. Além das titulações de sua religião Luan Manzo é um pequeno mestre que esboça novas possibilidades narrativas para uma comunidade que tem sede de cura e busca ela através de linguagens cada vez mais complexas e cotidianas. Olhos de erê é um convite miúdo para um imenso mundo de possibilidades.

Referências bibliográficas

SILVA, C. F. O humanismo perdido e a contribuição da cultura bantu. Ensaios Filosóficos, Volume XV — Julho/2017.

FU KIAU, K. Kia Bunseki; LUKONDO-WAMBA, A. M. Kindezi: Kôngo art of babysitting. Baltimore: Inprint Editions, 2000.

TRINDADE, Azoilda Loretto da. Valores civilizatórios afro-brasileiros e Educação Infantil: uma contribuição afro-brasileira. In: TRINDADE, Azoilda Loretto da; BRANDÃO, Ana Paula (org). Modos de brincar: caderno de atividades, saberes e fazeres. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2010.

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