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Oscars 2020, oposição consentida, resistência e criatividade além da vida

Passada outra edição do Academy Awards (AA) — sim, ainda continuo discutindo e, não, não estou tão atrasada. Ou sim? -, algumas reflexões acerca da estrutura da premiação seguem, imagino, pertinentes. Aficionada pela sétima arte, e apesar dos anos anteriores, este 92º ano dos Oscars fez-me notar algo interessante. Certamente, alguém já o constatou e estarei eu repetindo talvez, e sem os devidos créditos, tal pensamento, mas por alguma razão acabei por realizá-lo recentemente.

Desde a vitória de “Moonlight” (A24/Diamond Films, 2016) e a ascensão do movimento #MeToo, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas estadunidense pareceu ter minimamente melhor notabilizado as discursividades contra-hegemônicas e até anticoloniais, sobretudo aquelas oriundas de maiorias minorizadas — mulheres, negres, indígenas e LBTGQIA+ -, com destaque para questões atinentes à autoria feminina, não obstante branca, e aos efeitos psicossociais do racismo. Se alguma ruptura com a sequência fora iniciada em 2019 — lembro a vergonha da vitória da white-savior-narrative-picture de “Green book” (Universal Pictures, 2018) -, 2020, entretanto, excluiu em especial atrizes e atores negres/latines das indicações aos principais prêmios. A revolta para lá de justificada da comunidade envolvida, melhor dizendo, da parcela diretamente afetada pela escolha dirigida e eventuais aliades, adquiriu outros tons — a meu ver, ao menos. Durante a cerimônia, na audição dos comentários sempre contundentes de Chris Rock a respeito, notava pela primeira vez que o teor político das nomeações já parecia incorporar parte da crítica aos #SoWhites e #CisStraightMales nominees, e fazia-a inclusive mote das performances e textos exibidos/a exibir naquela noite. Tamanha demonstração de poder (ou não é?), no entanto, felizmente, esbarra na própria criatividade des artífices desta mesma crítica. Com isso, louvo a apresentação de Janelle Monáe e Billy Porter, cujas indumentárias e máximas, em especial as de Monáe, evocaram a ascensão da pluralidade em detrimento do brancomasculinocentrismo acadêmico. Outra reverência máxima precisa ser dirigida à performance de Cynthia Erivo — em tempo, a única mulher não-branca indicada entre todas as categorias — de “Stand up” (Cynthia Erivo e Joshuah Brian Campbell), indicada ao Oscar de Melhor Canção Original por “Harriet” (Focus Features, 2019), e a qual exibiu altissonante a figura de Harriet Tubman (1822–1913), nascida Araminta Ross, como estandarte da ancestral luta antirracista por ali esquecida/feita esquecer. A cinebiografia traz a saga da abolicionista afroamericana responsável pela libertação de mais de 70 famílias de escravizades e líder da maior expedição militar de resgate de outras mulheres e homens em cativeiro por todo país e de resistência unionista na Guerra de Secessão (1861–1865) — aliás, Tubman é pioneira na empreitada. O silêncio da estreia do filme no Brasil, ocorrida no último dia 6 de fevereiro, faz-me estabelecer comparações, embora por díspares circunstâncias, a “Marighella” (O2 Filmes, 2019) — considerando-se seus protagonistas negros. É, deixemos a elaboração para momento diverso.

Salma Hayek, mesmo vencedora de um AA de Melhor Atriz por “Frida” (Julie Taymor, 2002), recordou a ausência de latines na presente edição quando, ao segurar as mãos do companheiro apresentador Oscar Isaac, com um trocadilho, denunciou a unicidade do feito em um(a) hispanefalante segurar um Oscar na vida. A solidão, forjada, de ambos os grupos etnicamente identificados acima, na Academia e na vida, é racista. Da série pregressa de manifestos, encerro com Natalie Portman, que trouxe consigo para o tapete vermelho os nomes de todas as mulheres diretoras/autoras de produções sequer apreciadas como presuntivas ao Oscar de Melhor Direção — os homens dominaram a categoria neste ano — bordados no vestido de gala. Portman é conhecida pelo ativismo feminista/pró-semita/vegano em Hollywood. Outra atitude não esperaria da israelestadunidense.

Não intencionava mencioná-lo, mas a vitória de “Parasite” (Pandora Filmes, 2019) nos prêmios de Melhor Filme, Filme Internacional — algo inédito em muitos anos -, Direção e Roteiro Original faz acrescentar, especialmente pelo teor do desvelamento da opressão capitalista neoglobal e consequente recrudescimento da luta de classes há muito reivindicada por literatura competente, a necessidade de privilegiar produções artísticas fora do circuito blockbuster estadunidense e centronorte-europeu e narrativas dissidentes à visão ocidentalista de humanidade/verdade. Neste sentido, nosso brasileiríssimo “Democracia em vertigem” (Netflix, 2019) — não poderia deixá-lo de fora — arremata, trazendo a triste lembrança da ruptura institucional promovida pelo golpe de Estado (jurídico-parlamentar-empresarial-midiático) à presidenta Dilma Rousseff (2016) e do perigo do avanço ultraliberal de verve fascista aos regimes ditos democráticos no mundo. Sim, o medo torna-se aqui companheiro.

Finalmente, e só a título de citação, deixo a indicação de “Judy” (BBC Films, 2019). I mean, a interessante escolha pelo retrato da artista quando decadente e debilitada em razão do vício longevo, e induzido, na adolescência em tranquilizantes, anfetaminas, barbitúricos e álcool, afora a evidente depressão e sérias questões emocionais relacionadas à baixa autoestima e problemas com autoimagem/aparência, alertou sobre a máquina de moer gente do showbiz americano e a misoginia do campo ao alternar veneração e franca hostilidade no tratamento de estrelas como Judy Garland (1922–1969), exploradas em corpo, talento e mente para a satisfação do circo de horrores branco, masculino, cristão e cisheterossexual da América de classe média. A Garland, nascida Frances Ethel Gumm, não houve tempo de sincera acolhida, amor ou possibilidade de salvação individual — uma overdose acidental interrompeu-lhe a caminhada -. Longe do arco-íris, e muito além dele, nós, mulheres que aqui permanecemos, caberá construir e oferecer outro futuro, porque de escolhas reais, a contemporâneas e descendentes já no presente. Afinal, atiramos ontem a pedra. É preciso concretizar a vida como possibilidade por trás da parede, ou toda sombra. É o certo.

Sigamos.

P.S: saúdo-as/es/os como já pertencente a outra vida.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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