PELEZINHO

Coletivo Pretaria
3 min readDec 30, 2022

Pelezinho. Antes de ser o Paidi (corruptela de “pai de santo”), o Puppet e até o Gilberto Porcidonio, eu era o Pelezinho. Essa foi a primeira palavra que ouvi quando, depois de oito anos estudando na mesma escola do meu bairro, em Jacarepaguá, entrei na sala do novo colégio do Ensino Médio em Quintino, na Zona Norte do Rio, onde eu não conhecia ninguém. De uma escola municipal praticamente de bairro, adentrei em uma com 5 mil alunos e, como é de praxe nas escolas públicas, a maioria de pessoas negras. Mas o Pelezinho dali era só eu.

Hoje eu até entendo. Eu era um moleque negro retinto, magro estilo “na capa do Batman” e tinha o mesmo cabelo “reco” dele. Só me faltava uma coisa para eu ser a versão diminuta perfeita: gostar de futebol. E eu não falo de saber jogar ou de acompanhar o jogo do rei. Eu realmente NÃO gostava do esporte. Além de ser péssimo com uma bola no pé, eu me sentia roqueiro, anarquista e nerd demais para gostar de algo tão… massivo. Eu era um ateu futebolístico que, hoje, se diz flamenguista não praticante.

Mas voltemos ao vulgo. Antes mesmo de eu ser apelidado de Pelezinho, eu já conhecia, no mínimo, uns cinco Pelés (além de uns três Mussuns e outros 14 Buiús). Na minha geração, muita gente ainda era “pelezada”, o que senti que foi diminuindo conforme o tempo foi passando e outras pessoas negras de prestígio foram tomando mais espaço midiático para que todas as outras pudessem ser apelidadas com os nomes daqueles poucos que tinham espaço. Que preto gordo não foi chamado de Péricles, por exemplo? E que preto de dreadlocks não ouviu que era igual ao Falcão do Rappa ou ao Tony Garrido? E não precisa nem se parecer de fato. A cor bastava.

Sim, a cor sempre bastava. Antes mesmo de ser massacrado por conta da sua filha não assumida, Pelé já era pendurado em praça pública ao ser acusado de falar mal, de não saber se expressar bem, de querer aparecer, de ganhar dinheiro demais com a sua imagem e até de não levantar a bandeira do(s) movimento(s) negro(s) — sendo que ele já o era literalmente. Pelé inaugurou, no Brasil, a verdadeira cultura do cancelamento, já que ela, a exemplo de Wilson Simonal, só atinge, de fato, uma cor só.

Apesar de todas as rasteiras, voadoras e pisões recebidos em uma época em que não existiam cartões amarelos e vermelhos — tanto literais quanto sociais –, Pelé arrombou portas enquanto a sua profissão, criada por europeus de elite, renegava a entrada de pessoas parecidas com ele apenas alguns aninhos antes. E isso sem falar que, décadas antes, o Brasil também já havia implementado políticas públicas para exterminar os negros do país. Com o Rei, cada moleque negro historicamente oprimido no Brasil ganhou um holofote na cara e outro na mente, onde se lia nitidamente: “A gente pode fazer isso?”.

Hoje também percebo que o Pelé é uma nobilíssima continuidade daqueles anseios civilizatórios que os nossos mais antigos já vinham fazendo desde que o primeiro sequestrado pisou por aqui, já que Pelé não carregou nas pernas só o futebol de fato, mas um país inteiro. Hoje o Pelezinho aqui se sente muito honrado com a primeira alcunha da sua vida e mais ainda com cada obra de arte que surge quando alguém posta ou divulga algum vídeo dele em campo. Não há ateu futebolístico que resista a um milagre.

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