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Por muitas vezes minha coluna foi dedicada ao afeto preto e isso se dá porque de fato essa é uma das nossas ferramentas mais eficazes de resistência.

Partilhar vivências com quem as sente na pele é conversa extracorpórea que se trata de uma vivência comum ao negro no Brasil e no mundo inteiro.

Nós, mulheres negras, temos a sapiência do resistir pelo cuidar, é assim que vamos juntando os cacos nossos e des outres, nosses irmãs e irmãos de luta.

Estamos todes em maior ou menor grau ferides e a pandemia cutuca feridas abertas.

Muitos dos nossos se foram, muitos dos nossos pequenos sonhos sucumbiram, muitas das nossas faltas gritaram, as desigualdades raciais que sempre foram abissais no Brasil se tornaram determinantes na hora de definir quem tem mais ou menos chance de morrer vítima do vírus…

Acrescenta-se como comorbidade no Brasil e em alguns países, como Inglaterra e EUA — vide dados apresentados nos órgãos de imprensa — , o fator “ser negro”.

Para além do dado novo “pandemia”, não nos foi poupado episódios emblemáticos de racismo aqui e no mundo, não fomos poupados nem do racismo, nem da misoginia, do machismo, do sexismo e de tantas outras opressões que se sobrepõe a cada um dos indivíduos pretos, na medida de seus pontos de partida.

E como ficamos nós, militantes por nossas próprias existências e pelo direito do existir de todes? Como ficamos nós?

De onde tiramos forças para lutar?

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Maria Amália Cursino e Katiúcha Watuze

Algumas de nós da fé, outras de nós de suas partilhas em família e em relacionamentos, mas todas nós umas com as outras.

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Talita Peixoto, Tati Brandão, Katiúcha Watuze

O fato de estarmos juntas e podermos trocar nos potencializa, nos dá amplitude e nos apresenta outras possibilidades de re-existir.

Ainda acho mística a possibilidade desse encontro, visto que houve todo um projeto estruturado de apartamento.

O fato de estarmos hoje juntes caminhando em grandes ou pequenos grupos só comprova o conhecimento e a tecnologia de resistência engendrada por nosso povo, que pensava o tempo como fluxo contínuo.

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Luciane Reis e Katiúcha Watuze

Sob a ótica desse tempo fluido, faz todo o sentido que estejamos nos reconectando a nós mesmos através dos outros de nós, num processo simultâneo de resgate e reconstrução.

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Simara Conceição e Katiúcha Watuze

Foi assim hoje de manhã, tem sido assim desde que tornei-me negra, porque o tornar-se negra, negro, como bem ensinou nossa ancestral Lélia Gonzalez, é trabalhoso e dolorido: faz parte do processo de saber-se quem é.

Para seguir em luta, vale a reflexão de Lélia, que mais uma vez não nos deixa cair e nem nos perder no caminho.

“A mulher negra anônima, sustentáculo econômico, afetivo e moral de sua família e quem, a nosso ver, desempenha o papel mais importante.

Exatamente porque, com sua força e corajosa capacidade de luta pela sobrevivência, transmite a nós, suas irmãs mais afortunadas, o ímpeto de não nos recusarmos à luta pelo nosso povo.”

1 Gonzalez, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira. In: LUZ, Madel (org.) Lugar de Mulher: Estudos sobre a condição feminina na sociedade atual. Rio de Janeiro: Graal Editora, 1981.

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