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Foto: The Guardian

Povo preto esse que quanto mais preto se enxerga, mais glorioso fica

Uma pandemia que assolou o mundo em proporções sem precedentes e que fez de palavras como isolamento, distanciamento social contingência normativa na vida de milhões de pessoas. Quer dizer, alguns milhões, já que estar só não configura nada de novo para povos pretos, indígenas, aborígenes e outros excluídos.

Convivemos com o isolamento desde África, quando de lá fomos arrancados para viver em lugares não nossos, quando enfrentamos a solidão de sermos únicos em nossos ambientes corporativos, em lugares de entretenimento mas elitizados, ou até mesmo sermos nenhuma em capa de revista enaltecendo mulheres no audiovisual brasileiro, só para dar um exemplo. E continuamos sozinhos em meio a esse novo Covid-19 que mata 1 negro a cada 4, em um país onde, de acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde) são negros. Para nós isolamento é uma constante.

Escrevo essas linhas preocupada com meu povo que já vive a depressão do não poder uma série de coisas, limitação essa a qual se depara agora também pessoas não negras. Penso nos artistas — principalmente os negros — que dependem da arte para garantir seu sustento, muito provavelmente o último setor da economia a voltar à normalidade. Questiono, reflito e percebo: povo preto esse que quanto mais preto se enxerga, mais glorioso fica.

Dividindo meus pensamentos com algumas irmãs surgem belíssimas reflexões como a da psicóloga Cintia Aleixo “É a solidariedade e a manutenção dos nossos costumes ancestrais que vão dar conta de tratar da saúde mental do povo preto. É o dançar dentro de casa, é o ouvir nosso samba e a manutenção da nossa religiosidade dentro de nossas casas, é o ato de nos aquilombar que vai fazer com que nos sintamos cuidados mesmo em um momento de extrema fragilidade como esse que estamos vivendo. É o resgate da cultura ancestral, do autocuidado e do ato de assumir quem somos que atrai a alegria inerente ao povo preto”. Cíntia, que também é criadora do projeto Possibilidades Maternas, diz que a generosidade de pessoas e de ONGs que sobem os morros e que acessam às comunidades, garantindo alimentação e dignidade aos mais fragilizados, faz o papel do Estado. “Nesse momento, essas pessoas, associações, ONGs são também os psicólogos nas favelas”, completa.

Outra irmã, a diretora Consuelo Cruz me aviva os sentidos: “Somos sacolejados por uma doença que só ameaça seres humanos! A natureza está muito bem, obrigada! Os animais também… Nosso povo preto sempre trabalhou com essa energia do isolamento. A gente sabe que essa demanda universal de estarmos com nós mesmos, que chamam de Corona Virus, para nós é um comando espiritual. Vejo pessoas dizendo que não veem a hora de tudo voltar ao normal, de poder ir à academia… e o que pode ser considerado normal depois de uma pandemia? É essa superficialidade que precisa ser revista. Esse pânico que reverbera não deveria nos atingir. Esse Brasil que não deu certo não é nosso! Não fomos nós que elegemos esse comando branco que está no poder e que não nos representa! Nós vivemos a escravidão, o navio negreiro… o que a gente tem que ter é a energia espiritualizada e a coragem que sempre tivemos para seguir. ” Olha que coisa linda! Claro que me emocionei!

“Vivemos afetando e sendo afetados. Experimentando essa quarentena intensamente dentro de mim, tenho entendido cada dia mais que o afeto é pedra fundamental para o novo cada um que está sendo gerado e que vamos parir pós-pandemia.”

Vivemos afetando e sendo afetados. Experimentando essa quarentena intensamente dentro de mim, tenho entendido cada dia mais que o afeto é pedra fundamental para o novo cada um que está sendo gerado e que vamos parir pós-pandemia. Mesmo em uma fase — que diariamente nos dá provas de que não é só uma fase — de incertezas, é lindo enxergar que cada vez mais pessoas negras entendem que, embora habituados à exclusão social, afetiva e de foro até existencial — para quem nos governa, inclusive, existimos? — somos todos quando entre os nossos.

Sejamos cada vez mais pretos!

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