O coração de Dom Pedro I, chamado de relíquia, conservado em formol por 187 anos.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE MIÚDOS

Eu juro que procurei, por todo esse tempo, me conter para não comentar a estadia cinco estrelas do coração de Dom Pedro I deste lado Atlântico para a comemoração do bicentenário da independência. Porém, como o Brasil me obriga a falar de miúdos em conserva, farei também um resgate: Sérgio Buarque de Holanda.

Mas por que, em plena plataforma afrocentrada, eu puxo o sociólogo branco tido como um dos pais do pensamento (branco) brasileiro? É que, em 1936, no livro “Raízes do Brasil”, ele lançou uma das expressões mais mal interpretadas de todos os tempos: o homem cordial. No senso comum, esse tal homem cordial ficou entendido como sendo a pessoa pacífica, suave, apaziguadora, algo que seria inerente da natureza do brasileiro. Inclusive, eu tive um professor na escola que culpou as nossas benesses ambientais — as praias, as montanhas, o clima quente e o solo fértil — por essa tal “moleza”. E quem também nunca escutou que o brasileiro, ao contrário de outros povos que sofrem injustiças, “nunca se revolta com nada”, não é? Porém, o que Sérgio quis realmente dizer é que o homem cordial é aquele que sempre age de forma passional a tudo aquilo que acontece com ele, sem o freio da razão. Cordial vem do latim “cordis”, que quer dizer… coração. É o homem que sempre age com o coração e o coração não é nada pacífico. Ele bate e bate muito.

Exemplos de passionalidade, na nossa história, não faltam. Porém, eles sempre são atrelados àqueles que são tidos como menos homens ou, nesse contexto, menos gente: mulheres e pessoas negras. São elas as descontroladas e somos nós os agressivos. O homem branco, não. Ele pode ser “emocionado” a ponto de, por exemplo, chamar bandeirantes e escravizadores de empreendedores, e descontrolado em qualquer ocasião sem que ninguém critique a sua inteligência emocional ou meta o joelho no seu pescoço no chão. O destempero é um privilégio branco.

Talvez esse Brasil mereça sim, em seu solene Sete de Setembro, estar abrigando o coração de seu antigo imperador no momento em que as bandeiras do império — aquela com os símbolos da escravidão entrelaçados como se fossem um sorriso — irão tremular no lugar da nacional em meio a tantas mulheres e homens cordiais que estarão pedindo por um golpe de estado. Se a gente ficar quietinho, bem quietinho, dá até para se escutar um som bem tímido saindo lá do órgão embalsamado. Um tum tum atrás do outro que confirma, mesmo que quase inaudível, a nossa maior dependência. O colonialismo ainda bate forte.

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