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Que representatividade é essa?

É inegável que a publicidade brasileira corre ferozmente atrás do Black Money — dinheiro que circula nas mãos da população negra, o que vem aumentando nossa representatividade e protagonismo nas propagandas e nas mídias brasileiras.

Estamos estampando de comerciais de banco a comerciais de faculdade, numa tentativa de a publicidade dar respostas aos constantes questionamentos das redes sociais por falta de representatividade negra na propaganda.

Venho acompanhando, com cada vez mais desconfiança e incômodo, essa nova entrada de corpos pretos na imagética da publicidade brasileira.

Não que eu ache que antes era melhor, mas continuo não vendo com bons olhos a tão sonhada representatividade que nos vêm ofertando, lembrando principalmente que muitos de nós, até pouquíssimo tempo atrás, acreditávamos na democracia racial, aliás alguns de nós ainda acreditam e reverberam que aqui não há racismo, e muito por conta de um trabalho muito bem feito pelas mídias brasileiras, que sempre corroboraram esse mito.

Nós, povo do carnaval, do futebol: enxurradas de corpos pretos são exibidos midiaticamente para dentro e para além das nossas fronteiras de forma atlética, nus ou fantasiados. Devíamos, segundo alguns, nos sentir representados a partir da visibilidade e da projeção mundial da exibição desses corpos.

É bom lembrar que é a partir desta hiper exposição que o Brasil se tornou um dos maiores traficantes de pessoas do mundo, crime que afeta principalmente mulheres negras, que são destinadas à indústria sexual e que movimenta mais de 30 bilhões de dólares por ano no mundo, ficando somente atrás do tráfico de drogas e de armas em lucratividade, segundo dados da OMT (Organização Mundial do Trabalho). O país também apresenta números altos quando o assunto é exploração sexual infantil, o que também afeta diretamente, e em maior número, meninas negras. Além do feminicídio, praticado contra mulheres negras, que no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, usando os dados do Dossiê Mulher 2018 do Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ, 2018), é o dobro: 60,6%, já entre mulheres brancas é de 30,3%.

Se observarmos numericamente, pelo menos para mim, não resolve que a cada peça publicitária, tenha lá um(a) negro(a) para cumprir a “cota” de uma certa “patrulha” das redes sociais.

O fato de sermos apenas um ou dois nessas capas ou anúncios, só confirma a regra: de que não estamos, de fato, nesses espaços.

Começamos também a adquirir algum protagonismo. Vejo outdoors de faculdades particulares a bancos com modelos negros e negras, normalmente de pele clara e de cabelo cacheado, anelado ou alisado, demonstrando os filtros que a mídia brasileira vem usando para essa representatividade negra na propaganda.

Sim, isso mesmo: temos experienciado os dois casos simultaneamente, em algumas peças estamos lá cumprindo a cota, que não deixe a empresa / marca em maus lençóis nas redes sociais, e em outras estampamos anúncios de marcas em que a população negra não consegue acessar, ou até mesmo aparecemos protagonizando peças de um governo que segue ameaçando políticas públicas, cujo principal beneficiário é a população negra, como as cotas raciais nas universidades públicas.

Mesmo essa mulher negra de pele clara, representada de forma mais expressiva na propaganda do banco, também é afetada pelo racismo, quando ganha 131% a menos que um homem branco por exemplo, dados da ONU Mulheres e da OMT. Ou quando só é chamada para determinados tipos de publicidade se conservar determinado tipo de cabelo.

Não ter livre escolha sobre o seu cabelo, também é racismo, e da forma mais perversa e sutil.

Também é bom lembrar que o banco que usa a imagem da mulher negra em sua propaganda, também é o mesmo banco que recusa crédito para afroempreendedores, por exemplo. E o mesmo que também não tem nenhuma mulher negra nos altos cargos. Afroempreendedores já são maioria no brasil, 54%, mas continuam produzindo renda própria 40% menor do que os empreendedores brancos, muito pela recusa dos bancos em conceder investimento para os negócios pretos.

A foto de Maju Coutinho, que assumiu recentemente a bancada do Jornal Hoje, noticiário diurno da Rede Globo, à frente de uma equipe totalmente branca, diz muito sobre as mídias brasileiras. Aliás Maju, também viu seu nome circular em matérias de sites e blogs considerados sérios, com um cunho jornalístico um tanto quanto duvidoso, que tratavam do suposto número de erros que ela vinha cometendo na bancada do jornal e de uma suposta insatisfação por parte da direção jornalística da emissora.

Essas matérias, falsas ou não, dizem muito sobre o racismo à brasileira e suas consequências na nossa representatividade e representação.

Ei, meu povo brasileiro, nós mesmos, nós da democracia racial, nós do lugar onde o racismo não existe, de que representatividade estamos falando mesmo?

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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