Ritos de formação na Escola Criativa Àwòrán

“Para a diáspora a galinha d’Angola tem diversos significados, como a territorialidade, a religiosidade, a ancestralidade e a mudança. Nós como o próprio Àwòrán, somos pluralidade. Somos movimento e transformação, assim como a galinha d’Angola representa nas tradições africanas. Não nos apeteceu usar símbolos clichês (e esvaziados) como adinkras, mapas da África ou câmeras em nossa identidade visual desse ano. Talvez nos apeteça ano que vem, quem sabe… Ter direito a mudanças é uma de nossas intenções. Pretendemos através de nossa escola criativa possibilitar o direito de criarmos nossas próprias trajetórias de vida. Assim como a galinha dos terreiros cisca quando precisa e quando pode, mas bica com determinação os inimigos sempre que necessário. Inspirados pela fabulação do audiovisual acreditamos que, como a galinha d’Angola, podemos manter os pés no chão sem perder a vontade de sonhar com os céus”

Àwòrán é uma escola criativa audiovisual fundada em 2018 como um curso de cinema que desde então vem crescendo e ampliando conteúdos, parcerias e espaços ocupados. A escola oferece uma educação multimídia e interdisciplinar nos aspectos criativos e técnicos do cinema enquanto integra questões teóricas e sociais. Abordamos desde a conhecimentos técnicos do audiovisual, como roteiro, fotografia e edição, quanto discussões atuais sobre representação de corpos negros nas mídias audiovisuais do cinema as redes sociais. Suprindo a necessidade de jovens negros e periféricos de ter acesso a esse tipo de formação.

Tendo conhecido os dois fundadores, Arthur Pereira e Marcos Lamoreux, no período embrionário do curso, participado como aluno em 2018 e como parte da equipe desde 2020, a Àwòrán é um grande ninho onde aves de diferentes portes ensaiam seus primeiros voos. Ou então dão seus primeiros saltos e ciscadas com o audiovisual, nem tudo que sonhamos está necessariamente no céu. Olhar pra terra, pros pés e pro próprio umbigo é um movimento de reflexão que muitas vezes nos esquecemos de realizar. Como Marcos costuma comentar, antes de mudarmos o mundo precisamos mudar a si mesmos.

Acredito que as audiovisualidades são um dos artefatos audiovisuais humanos que mais nos permitem conhecer a si mesmos. Existem mais coisas do que a nossa pequena mente humana consegue compreender entre o silencioso diálogo entre nossa psique e a tela, telinha ou telona do audiovisual. Friso audiovisual para demarcar a pluralidade de possibilidades que imagens e sons em movimento nos permitem hoje em dia, mas como de costume vou me ater carinhosamente ao cinema. O que não quer dizer que alguns de meus devaneios não se estendam para outras audiovisualidades.

Para muitos vamos ou assistimos ao cinema mais para encontrar nós mesmos do que a personagens, conflitos e narrativas. Apesar de acompanharmos, em todos sentidos, os dramas de nossos protagonistas estamos no cinema encontrando a si mesmos quando sentimos aquelas emoções a flor de nossa pele. Tudo aquilo que vivemos na tela do cinema vivemos de certa maneira em nossas próprias vidas, individual ou coletivamente. O cinema, assim como outros ritos, é uma grande contemplação da vida. Por isso quando estamos pensando em formação audiovisual estamos fabulando nossas próprias experiências. Existe o manejo técnico, comercial e profissional de equipamentos, programas e planilhas, mas o audiovisual só existe pela experiência que cada um trás e com aquilo que fazemos de nossa experiência com ele.

Então quando nos propomos a formar pessoas, principalmente aquelas que são limitadas a esse tipo de formação, estamos falando de rito. Toda formação tem um pouco de rito com seus códigos secretos, as comunhões de saberes e a inserção nas ancestralidades. Não por coincidência a galinha d’Angola é nosso animal representativo, como a própria palavra Àwòrán para os iorubás, ela é a imagem que representa a formação que pretendemos realizar. Diz o itan que foi uma pequena galinha d’Angola, pintada de bolinhas de branco por Oxalá, que conseguiu afastar por definitivo a ameaça da morte. Até hoje para agradecer a galinha d’Angola os iniciados no candomblé são pintados em sua semelhança.

Em tempos de políticas de morte onde a vida vale cada vez menos é importante retornar a estes saberes ancestrais para afastar de vez antigos fantasmas que ainda nos assombram. Como Oxalá que usou a pintura para assustar a morte, a escola criativa Àwòrán forma jovens nas artes do audiovisual para enfrentar o estado nefasto que vivemos atualmente. E não há rito melhor do que o escurinho do nosso cinema negro!

ACERVO DE COMUNICAÇÃO DECOLONIAL, INTERSECCIONAL, ANTIRRACISTA, CIDADÃ E COMUNITÁRIA ATUALIZADO POR MEMBRES DO COLETIVO PRETARIA. UM PROJETO DO PRETARIA.ORG

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