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subúrbio

SEXTOU COM O SUBURBANO DA DEPRESSÃO

A entidade suburbana que veio para questionar de qual ponto de vista nossa cidade é maravilhosa. E noix responde: É do SUBÚBIO, meu padrinho!

Nascer suburbana é uma das coisas que mais me orgulha depois ser mulher preta e sambista. Me deparar com pessoas que partilham do mesmo pressuposto; nasce melhor quem nasce no subúrbio, é como receber um jato de ânimo e alegria. Há muito vinha buscando a oportunidade para trocar essa ideia com outro suburbano ‘metido’ — quando que a gente poderia pensar em usar esse adjetivo para se referir a alguém oriundo da periferia? — que de tanto se orgulhar do lugar de onde veio resolveu criar uma página no Facebook para enaltecer o subúrbio e o suburbano do Rio de Janeiro, e acabou se tornando um dos perfis mais famosos das redes, o Suburbano da Depressão (no ar desde 2012 e hoje com mais de 450 mil seguidores nas plataformas). “O nome é uma autocrítica. O suburbano se autodeprecia por morar no subúrbio. Um deboche da gente para a gente mesmo” explica Vitor.

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Vítor Almeida, o Padrinho como já é conhecido por todos, de 32 anos, é o cara por trás da marca aclamada nas redes sociais, que retrata o dia a dia do suburbano com o humor e sarcasmo que só quem é do subúrbio entende e sabe fazer. Não, não estou sendo arrogante! É por aí mesmo! Aceitem! Mestre em História Social pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e colunista do Jornal O Dia, Vitor endereça ao avanço da tecnologia e, consequentemente da internet, a possibilidade de pessoas como ele se sobressaírem e mostrarem que nas periferias há potência, criatividade e capacidade empreendedora, características até pouco tempo reservadas apenas às regiões do centro e zona sul do Rio, e que hoje permitiu a explosão de projetos como o dele e de outras figuras. “Graças às tecnologias a periferia está tomando parte dessa matéria-prima que antes era usurpada pela Zona Sul. Felipe Neto é da Zona Norte e já atinge quase 60 milhões de pessoas e hoje é o dono da própria produção. A Nat Finanças, que é da baixada e explodiu nas redes sociais, também vai pelo mesmo caminho. Esse conjunto da criatividade e tecnologia impulsionaram essas personalidades do subúrbio e periferias para disputar os espaços”.

“Quando eu ia para a Zona Sul não mencionava que morava na Penha. E hoje é bacana ver os jovens falando com orgulho sobre suas origens”

Apesar de viver em um momento convidativo à exposição, Vitor lembra que nem sempre foi tranquilo assumir a origem periférica. “Quando eu ia para a Zona Sul não mencionava que morava na Penha. E hoje é bacana ver os jovens falando com orgulho sobre suas origens”. Tudo bem que a internet acelerou essa visibilidade, mas é importante traçar uma linha do tempo para entender como se normatizou o silenciamento das classes mais pobres e suas produções culturais nos espaços periféricos em detrimento do enaltecimento exclusivo das vivências nas regiões centrais e sul cariocas. O movimento histórico das elites ao longo do espaço urbano no Rio de Janeiro, ocupando áreas consideradas privilegiadas e empurrando as classes mais baixas para a zona norte e oeste vem desde o período de reurbanização do Rio comandado por Pereira Passos (final do século XIX, início do XX). “Nas favelas e morros do subúrbio, onde nasce o samba e depois (final dos anos 80) o funk como a gente conhece hoje, durante muito tempo só se tornavam identitários da cidade quando caíam nas graças da zona sul. A efervescência das produções culturais periféricas só acontecia quando viravam moda na Zona Sul”, completa o pai do Suburbano da Depressão.

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Vitor ou Padrinho como é carinhosamente chamado pelos quase meio milhão de seguidores é cria do IAPI da Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Sua infância foi daquelas que sugou tudo que o subúrbio pode dar de melhor, e olha que não é pouca coisa! “Cresci nos anos 90, tive infância de rua, praça, bloco de carnaval, disputa de quadrilha junina… sempre que ouvia que a gente morava mal e eu nunca entendia isso. Depois de grande, já na faculdade que eu fui procurar entender o porquê dessa expressão” relembra. Foi na Gama Filho (uma das principais universidades do subúrbio dos anos 80 a 2000), que Vitor buscou na cadeira de História as respostas para a constante depreciação ao qual ele e sua origem suburbana eram submetidos. Prova disso é que só na graduação e muito por conta da matéria que estudava é que Vitor pode ter acesso à história de seu bairro e do próprio Rio de Janeiro. “Eu me lembro de ter professores que zombavam de Olaria, Ramos, bairros onde eu estudava quando criança. Entendi que a depreciação dos subúrbios era resultado de projetos políticos consecutivos, principalmente a partir dos anos 60, com o advento da Bossa Nova, por exemplo, que acentuou a ideia de cidade maravilhosa”. Vitor faz uma inteligente ligação dos projetos políticos que desprezam as periferias com o movimento da Bossa Nova, elitista e defensor de que só um banquinho, um violão, a praia de Copacabana e Ipanema e a musa da orla (idealizada na mulher branca) eram a salvação. É aí que se intensifica o racha entre o que está antes (a considerada elite) e depois do túnel (homens e mulheres que passam horas de seus dias se deslocando de casa para seus locais de trabalho).

“Eu me lembro de ter professores que zombavam de Olaria, Ramos, bairros onde eu estudava quando criança. Entendi que a depreciação dos subúrbios era resultado de projetos políticos consecutivos, principalmente a partir dos anos 60, com o advento da Bossa Nova, por exemplo, que acentuou a ideia de cidade maravilhosa

Dono de memes inesquecíveis o Suburbano da Depressão já virou hábito diário, o cafezinho da manhã, de milhares de usuários (as) das redes (eu, inclusive) em busca de posts sagazes ou engraçados, ou os dois, sobre o nosso bom e insubstituível subúrbio. Os conteúdos são criados por Vitor, cuja produção é 100% autoral. “Hoje em dia eu já conto também com a contribuição e interação das pessoas que me mandam muitos memes engraçados” se orgulha.

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ATENTO AOS GATILHOS, SEMPRE!

A gente quer pintar o subúrbio de outras cores que não as só cinzas, mas não dá para ignorar as desigualdades pelas quais atravessamos diariamente. Vitor também precisou fazer essa reflexão para não transformar o Suburbano da Depressão em uma plataforma que banaliza as violências impostas às periferias. “Postava o desespero das pessoas entrando no trem. Até um certo período achava engraçado. Mas, aprofundando nos estudos sociais e ouvindo críticas de amigos mais engajados, percebi o quão degradante isso é. É um massacre diário! Não tem graça! As pessoas vão morrendo aos poucos por que não se há um projeto para trazer bem-estar a essas pessoas. Não é à toa que a expectativa de vida na Gávea é 80 anos enquanto que em Santa Cruz cai para 63” critica.

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COMO FAZER GRAÇA EM PLENA PANDEMIA?

Em tempos de pandemia pergunto ao Padrinho como é fazer graça quando já atingimos a baixa de mais de mil mortos por dia (às vezes, tenho a impressão que catástrofes externas, com muito menos fatalidade impactam mais que as mais de mil vidas brasileiras perdidas pelo Covid-19 diariamente, vide o exemplo da explosão no Líbano há poucos dias). Para Vitor, o Coronavírus também foi um grande professor. “Procurei passar as informações dentro das normas cientificas. Tento informar as pessoas porque eu enquanto acadêmico sou totalmente ligado às questões científicas. Não posso ser um propagador de Fake News. Nos posicionamos contra as indicações de Cloroquina e hidroxicloroquina para o combate ao vírus”. Absolutamente ciente do desfavorecimento sociopolítico que assola as periferias na questão sanitária necessária à prevenção ao Covid-19, Vitor é taxativo: “Infelizmente, a gente vive em um território onde as informações não chegam corretas. Debati como as determinações de isolamento foram burladas no subúrbio, tanto por desobediência quanto por não haver opção. Como manter 10 pessoas dentro de uma casa de 2 cômodos”?

A nossa criatividade incessante é uma potencialidade que aflora na gente pela necessidade. Não é romantizar o precário e sim demonstrar tremenda capacidade de se inventar dentro desse contexto

Pois é Vitor, como? Nós dois e mais uma porção de suburbanos sabemos a resposta, mas, como você é nosso convidado no Coletivo Pretaria eu deixo para você a resposta: “O que o suburbano tem ninguém tem! A nossa criatividade incessante é uma potencialidade que aflora na gente pela necessidade. Não é romantizar o precário e sim demonstrar tremenda capacidade de se inventar dentro desse contexto. Gambiarras são as táticas mais usadas para questão de sobrevivência. Luz no quintal, gambiarras de relações nas redes, a capacidade de resolver os nossos problemas através das relações interpessoais: os vizinhos, os fechamentos. Vivemos na linha tênue entre o ilegal e legal. A todo momento a gente está frente a frente com o ilegal e o papel de cidadão”

“Gambiarras são as táticas mais usadas para questão de sobrevivência no subúrbio”

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Morador de Sepetiba, Vitor Almeida, o Padrinho, também foi atingido pela pandemia. Pergunto o que o Suburbano da Depressão mais sente falta em tempos de isolamento social e a resposta é certeira: “Sinto o cheiro do churrasco no IAPI. Saudades de ir aos self services sem balança, do açaí, do pão na chapa, de comprar pote no Amigão e ir ao shopping para tomar casquinha”.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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