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TENSIONAMENTO E RASGADURA NA HISTORIOGRAFIA DO CINEMA BRASILEIRO

> ENSAIO CRÍTICO: TUDO QUE É APERTADO RASGA (BA, 27’, 2019) Realizador: Fabio Rodrigues Filho

Na abertura do filme “Tudo que é apertado rasga” (2019), de Fábio Rodrigues Filho, Walter Benjamin é um dos autores citados nas cartelas iniciais com o seguinte fragmento: “do esquecimento soprará uma tempestade” — frase determinante para pensarmos a força das ressonâncias de um passado que não se quer olhar — , em seguida aparece um dos sentinelas do cinema brasileiro, o ator Antonio Pitanga, numa das cenas do filme “Esse mundo é meu” (1963), de Sérgio Ricardo, emerge numa das tomadas mais lindas da filmografia brasileira, na qual o ator parece voar ao pedalar sua bicicleta ao som da canção “Zumbi”, de Gilberto Gil — composta para o álbum “Quilombo” (1984) para a obra homônima de Cacá Diegues. Na cena em questão, a voz de Gil ressona os seguintes versos:

A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu grande terreiro, meu berço e nação
Zumbi protetor, guardião padroeiro
Mandai a alforria pro meu coração.

Após ouvirmos a voz do cantor à capela, somos apresentadas/os à segunda cartela do filme com a passagem de Fanon:

Eu sou a dádiva mas me recomendam a humildade dos enfermos

Ontem, abrindo os olhos ao mundo, vi o céu se contorcer de lado a lado. Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas. Irresponsável, a cavalo entre o Nada e o Infinito, comecei a chorar.

“Tudo que é apertado rasga?” é um filme-convite que nos instiga, desde seu título, a pensarmos as rasgaduras desses apertos na sociedade e na filmografia brasileira. O nome da obra por si só renderia um texto à parte, mas neste pequeno ensaio tentarei me ater a algumas das evocações imagéticas que o realizador mobiliza. Os rasgos de Fabio nos lança inevitavelmente para a obra “A Negação do Brasil” (2000), de Joel Zito Araújo — cineasta e pesquisador — , na qual o diretor se propõe a pensar o surgimento de certos estereótipos na teledramaturgia brasileira que invisibilizou e restringiu muitas/os artistas negras/os de exercerem seus trabalhos dignamente devido ao racismo, sendo a elas/es relegado os mesmos papéis como bem evidencia a declaração de Zezé Motta no filme de ambos realizadores, quando expressa:

Certa vez me disseram: Não sabia que precisava
estudar teatro pra fazer papel de empregada.

Frases essas repetidas inúmeras vezes pela atriz, em entrevistas concedidas em décadas e programas televisivos distintos e que são incorporadas no filme de Rodrigues. A repetição operada pelo realizador na montagem de “Tudo que não é apertado rasga?” não é gratuita e tampouco puramente estilística. Nela abriga uma infinidade de compreensões e significados que vão desde o quanto a sociedade e os veículos de comunicação avançaram pouco na compreensão da grandeza e relevância de atrizes e atores negros, em especial de Zezé Motta — como exemplo operado no filme — , sempre a reduzindo a responder as mesmas perguntas desde o início de sua carreira, que são voltadas ao racismo e violências decorrentes deste processo. Ao vermos a atriz em décadas variadas respondendo, da mesma maneira, às mesmas perguntas, percebemos a lógica perversa do racismo, que opera em corpos racializados diariamente a reencenação do trauma colonial, como quando Motta, no programa “Jô Soares Onze e Meia” — então exibido pela emissora SBT — , confidencia uma experiência vivida no processo de casting de uma novela, seguido de risos da platéia:

Ah, você veio na hora certa, vamos começar duas novelas
não é possível que não tenha um papel de empregada.

A montagem do filme promove rasgos e aberturas de frestas para que possamos nos relacionar com as cicatrizes dessas imagens a partir de um novo lugar, que é o do questionamento, da cura e da transformação. Ainda no campo da montagem e das rasgaduras, o realizador nos proporciona uma experiência única ao construir, dentro de seu filme, um encontro nunca antes visto no cinema brasileiro, em que Zózimo Bulbul, Grande Otelo, Ruth de Souza, Lázaro Ramos, Léa Garcia, Milton Gonçalves, Luíza Maranhão, Eliezer Gomes, dentre tantas e tantos possam dividir um mesmo filme com a dignidade e a grandeza que elas/es merecem. “Tudo que é apertado rasga?” é a expressão da indagação e da crítica do olhar presente na obra de bell hooks, quando expressa:

Foi o olhar opositor negro, que como forma de reação, criou o cinema negro independente.

Ou seja, o olhar negro tem sido e permanece sendo, globalmente, um lugar de resistência para o povo negro que sofreu o processo de colonização de seus corpos e subjetividades. Dessa forma, o filme propõe um tensionamento e uma rasgadura na historiografia do cinema brasileiro, trazendo as presenças negras para o primeiro plano da cena.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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