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Participantes BBB20

Estamos às vésperas da final do BBB 20 e como a única negra que restou na disputa está Thelma Assis, mulher negra e médica.

Thelma está carregando para a cultura de massa questões que vieram sendo discutidas ao longo do programa e que não cessarão com ele.

Está como pano de fundo, o que vem primeiro, raça ou gênero e uma suposta disputa de espaço das opressões.

Antes da final, foi eliminado o ator Babu Santana, que até então, na parte final do programa veio como favorito, sustentado pelo seu posicionamento racial e político-social, que atraiu o público que sensibilizou pelas suas dificuldades financeiras, artistas que se sensibilizaram com sua trajetória pregressa como ator e um misto de pessoas pretas periféricas, ou não, que apoiavam seu posicionamento enquanto homem negro, pautando racismo estrutural. Babu também conquistou as torcidas de futebol e uma boa parcela de um público alinhado à esquerda. Sim, as questões políticas também pautaram esse BBB. Tivemos, inclusive, tweets do filho do presidente da república indicando seus preferidos.

O programa começa levantando questões que atravessam o machismo de uma sociedade patriarcal, colocando mulheres em um lugar de dependência sentimental de homens, a partir dos discursos e atitudes do grupo de homens que começaram no programa.

Quando isso veio a tona, uma nova dinâmica se constrói, com a união das mulheres do programa que conseguem, com apoio massivo da internet — aqui faço uma observação: é preciso analisar mais a fundo quem é o perfil do público votante no BBB, principalmente quando você tem figuras como Manu Gavassi e Boca Rosa no programa. Há que se observar a presença massiva de um público teen que tem o domínio do digital e que atua fortemente tanto para promover seus favoritos, como para agredir e ameaçar seus oponentes.

Sim, o ódio, já comum ao ambiente virtual, também deu a tônica desse BBB: vimos cancelamentos de todos os lados, discursos homofóbicos, racistas, machistas… chancelados e rechaçados nas redes sociais. Nada de diferente do que vimos vivendo num mundo partido em dois, aqueles que eu concordo e que me seguem, e aqueles que eu discordo e excluo. São as relações humanas da era facebook.

Sobre a questão racial, vimos de tudo, do racismo recreativo ao estrutural, presente já na escalação de elenco de 18 participantes, em que se vê 2 autodeclarados negros, num país de população majoritariamente negra. Discutir representatividade nas mídias brasileiras é chover no molhado.

Babu Santana, por ser o homem negro estereotipado bruto, gordo, completamente fora dos padrões de estética, foi por muitas vezes marginalizado, sofreu com isolamento e acusações diretas acerca de sua violência, que só permeava o imaginário das pessoas.

De forma inteligente, Babu usou de seu dom na cozinha, de seu carisma como ator e de seu conhecimento, para tratar assuntos para os quais a sociedade brasileira vem fugindo e que emergem, urgem. O racismo em todas as suas formas e tons deram o tom no produto midiático.

A amizade entre Babu e Thelma também foi construída acerca do senso de irmandade preta, que não era tão gritante para Thelma, como era essencial para Babu, mas que ela entendia de forma intuitiva… e assim vieram se protegendo, cada um a seu modo e cada um por seus motivos.

Até que Thelma precisou escolher entre a melhor amiga branca e Babu. Optou pela amiga, aqui fora foi “cancelada” pela internet, pela torcida de Babu e por muitos de seus seguidores. Ao mesmo tempo muitas mulheres negras se levantaram em sua defesa, deixando Babu de lado.

Lembramos que esse racha entre os dois que não aconteceu no âmbito do carinho e da amizade, mas no âmbito político, pode não ter definido o jogo. É preciso lembrar aqui que duas mulheres brancas famosas chegaram com eles na final, Rafaela Kaliman e Manu Gavassi, sustentadas por milhões de fãs ávides na internet, além de suas fãs famosas, coach e todo um aparato de marketing estratégico, que só mostraram do que é capaz o poder econômico e de influência, o tal privilégio branco como sempre.

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Thelma e Babu

Mas essa disputa por um reinado negro, entre o Rei Babu e a Rainha Thelma, que atravessou as fronteiras do digital, colocou mulheres e homens negros expostos nas suas dores mais profundas. Porque com certeza dói mais quando é entre nós.

No fim, ganhando Thelma ou não, perdemos nós.

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Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

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