Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
“SOMETHING GOOD NEGRO KISS” (1898). Primeiro registro cinematográfico do afeto negro.

Todo “negão” tem sua loira

Essa frase é um dos comentários de um post do ator global Rafael Zulu numa foto com a namorada, uma mulher loira.

Sim ela é loira, sim ele é preto. Nada de novo, o que mudou foi o letramento racial de uma parte da população preta, que começa a questionar certos comportamentos.

O que esse comentário diz sobre as relações de afeto entre pretos e pretas? E o que diz sobre o racismo e as construções das nossas subjetividades?

Esse é um tema que me toca fundo, por ter sido muitos anos preterida, já que, como mulher preta, exceção na zona sul, onde eu morei por 24 anos, era preterida nas festinhas e nas saídas com as minhas amigas.

Muitas vezes esperava elas voltarem com os meninos, sozinha num canto da boate.

E os pretos também as preferiam, as brancas, loiras. Mesmo fazendo de tudo pra me adequar, cabelos devidamente alisados, maquiagem para afinar o nariz… etc.

O nariz é um caso a parte, cheguei a pensar em operar, por sugestão da minha família, que via meu sofrimento com a minha aparência.

Quando as festas eram no Leblon ou Lagoa, a sensação de inadequação era muito pior, questões de territorialidade que imperam. Eu não sabia qualificar como racismo, me acreditava feia. E assim saia de casa, com a certeza de não ser merecedora de afeto.

Por muitos anos, aliás até os 30 anos, isso tem só 9 anos atrás, me vi dessa forma destorcida, a partir de uma visão racista, colonial, patriarcal.

Tratei logo de ser a simpática, falante, articuladora, amiga dos meninos, para poder estar perto deles.

E foi esse por muito tempo o meu lugar, o lugar da amiga, a que arrumava os casais, dissolvia atritos e fazia papel de cupido.

O meu afeto não tinha lugar. Já com 24 anos tive meu primeiro namorado, a minha paixão era tanta, afinal de contas, eu não conseguia acreditar que aquele homem tinha interesse por mim e esse relacionamento, que mexia tanto com a minha baixa autoestima, me adoeceu. O término me levou a não comer por dias e a queda de cabelo.

Tive alguns outros relacionamentos, todos sofridos pra mim, em que eu estava sempre me permitindo ser subjugada.

O meu resgate de autoestima veio junto do resgate da minha negritude e ancestralidade, que veio a partir de uma busca por mulheres negras que me inspirassem e por conhecimento.

Sim, precisei começar a estudar sobre racismo, para começar a me entender enquanto mulher preta.

A partir daí começar a entender que determinar padrões de beleza tem tudo a ver com consumo, com poder e com status social.

Entender também que fazemos escolhas subjetivas, baseadas em construções objetivas que forjam a nossa subjetividade.

O preto que eu encontrava na zona sul, era exceção como eu, era o preto que havia excedido a regra, que nos coloca nas regiões periféricas, encarcerados ou mortos. Estar nesses espaços, sendo servidos e não sendo os que servem, nos colocava em situação de privilégio, porém ainda alvo.

Enquanto privilegiados, exceções, nossa presença nesses espaços gritava, pra nós e pra eles.

Era preciso responder aos anseios da branquitude e garantir acessos que só a condição financeira não dá.

O homem preto quando se vê em situação de escolha afetiva, traz toda a referência de ascensão social e do que é beleza nessa sociedade. A loira é a ascensão social, símbolo de status e de sucesso. E também símbolo de beleza, dentro do padrão social.

Afinal de contas, quem foram e são os donos da terra? Quem são os donos dos meios de produção? Qual a cor e os padrões estéticos dos moradores das áreas nobres das cidades?

Para a loira, o “negão” é a virilidade, o homem hiper sexualizado, até animal, que ela também poderá ostentar socialmente, como seu objeto sexual, aquele que enquanto inferior a ela deverá servi-la.

É o casal perfeito, o preto que quer ser branco, e a loira que quer reafirmar a sua posição hierárquica.

O homem preto quando se relaciona com a branca / branco, quer deixar de ser “negão”, mas o que ele faz é reafirmar o estereótipo.

Afinal de contas, todo “negão” tem sua loira.

O racismo é tão perverso que se utiliza de uma falsa aceitação para nos recolocar em nosso lugar social.

Ele, o racismo, nos lembra, até quando parece nos fazer esquecer.

E a mulher negra nessa história?

Será que se mudássemos o gênero na frase, ainda faria sentido? Toda “negona” tem seu loiro?

Papo para meu próximo texto aqui na coluna.

Written by

Existimos para mover estruturas e construir novos paradigmas interseccionais, COM EIXO EM RAÇA, na Comunicação brasileira.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store